Você já acreditou que o destino pode mudar sua vida em um telefonema? Uma herança misteriosa em Salvador, um amor impossível e segredos guardados há décadas. Esta é a história de Lara, que descobriu que às vezes é preciso perder tudo para encontrar o que realmente importa. O telefone tocou três vezes antes que Lara Santos conseguisse atender, suas mãos ainda sujas de giz, após mais um dia exaustivo, ensinando literatura para adolescentes desinteressados no Rio de Janeiro. A voz do outro lado da linha carregava um
sotaque baiano inconfundível. Senrita Santos, aqui é o Dr. Rafael Moraes, advogado em Salvador. Tenho uma notícia que pode mudar sua vida. Lara sentiu o coração acelerar. Notícias assim nunca vinham acompanhadas de boas novidades. Ajeitou uma mecha de cabelo castanho dourado atrás da orelha, um gesto nervoso que herdara de sua mãe.
Pode falar, doutor. A senhora herdou uma propriedade de sua tia bisavó, Helena Santos, uma livraria no Pelourinho em Salvador. Segundo o testamento, deve residir no local por seis meses consecutivos para tomar posse definitiva. As palavras ecoaram no pequeno apartamento em Copacabana como uma música distante, Helena Santos.
Lara mal se lembrava de ter ouvido esse nome nas histórias que o avô Chico contava sobre os parentes distantes que se espalharam pelo Brasil. Doutor, deve haver um engano. Eu mal conhecia essa tia. Não há engano algum, senhorita. Helena escolheu você especificamente. Disse que reconheceria a sobrinha certa pelos olhos verdes iguais aos dela.
Lara caminhou até o espelho da sala e se encarou. Os olhos esmeralda profundos que tanto chamavam atenção, agora pareciam guardar segredos ancestrais. E se eu não aceitar, a propriedade será doada para a prefeitura. Mas posso-lhe adiantar que é uma livraria centenária numa das localizações mais valiosas do centro histórico. Vale uma fortuna.
Após desligar, Lara permaneceu imóvel por longos minutos. Sua vida havia se tornado uma rotina previsível. Aulas pela manhã, correções à tarde, solidão à noite. Desde que terminara com Bruno seis meses atrás, não conseguira mais se emocionar com nada. A porta se abriu e entrou Chico, seu avô de 75 anos, com os cabelos prateados desalinhados pelo vento e um sorriso maroto nos lábios.
Netinha, que cara é essa? Parece que viu um fantasma. Lara contou sobre a ligação. Os olhos verdes de Chico, idênticos aos dela, brilharam de entusiasmo. Helena, minha tia mais nova, irmã da sua bisavó Esperança. Ela fugiu para a Bahia aos 18 anos por causa de um amor proibido. Nunca mais voltou, mas escrevia cartas poéticas sobre Salvador. Avô, não posso simplesmente abandonar tudo e ir para a Bahia.
Chico se aproximou e segurou as mãos da neta. Desde que a esposa morrera há um ano, ele parecia ter encolhido, mas agora seus olhos faiscavam com uma vitalidade que Lara não via há meses. Lara, minha querida, você está murchando como uma flor sem água. Esta cidade engoliu seus sonhos e eu, bem, talvez um velho precise de uma aventura também.
Você viria comigo? Tentaria me impedir? Ele riu e o som encheu a sala de calor. Além do mais, Helena deve ter deixado segredos interessantes. Ela sempre foi misteriosa. Naquela noite, Lara não conseguiu dormir.
Ficou na varanda olhando as luzes de Copacabana, mas sua mente voava para Salvador, para uma vida que não conhecia, para possibilidades que a assustavam e a excitam ao mesmo tempo. Pegou o telefone e digitou o número do Dr. Morais. Doutor, é Lara Santos, eu aceito. Do outro lado da linha, uma risada calorosa. Sabia que aceitaria. Helena sempre dizia que os santos têm sangue aventureiro. Quando chegam, Lara olhou para o avô que a observava da porta com um sorriso cúmplice.
Em uma semana, enquanto desligava, uma brisa estranha entrou pela janela, carregando um aroma que não pertencia ao rio, algo como canela e dendê, flores tropicais e mar salgado. Por um instante impossível, Lara teve a certeza de que sua vida estava prestes a começar de verdade, mas ainda não imaginava que em Salvador a esperava não apenas uma herança, mas um homem que faria seu coração bater de uma forma que ela jamais experimentara.
Salvador, em dezembro era uma explosão de cores e calor. Lara desceu do táxi em frente à livraria Helena, no coração do Pelourinho, e ficou boca e aberta. O prédio colonial de três andares ostentava uma fachada amarelo canário com detalhes em azul cobalto, janelas com vidros coloridos que refletiam o sol da tarde como joias preciosas.
Meu Deus do céu! Chico assobeou baixinho. Helena tinha mesmo bom gosto. A livraria ocupava o térrio, com estantes de madeira nobre que chegavam até o teto, repletas de livros antigos. O cheiro de papel envelhecido e madeira envernizada era como um abraço acolhedor. Uma escadaria delicada levava ao segundo andar, onde ficaria o apartamento.
Vovô, olha que maravilha. Lara tocou reverentemente uma primeira edição de Machado de Assis. Como Helena conseguiu reunir tudo isso? Ela sempre foi apaixonada por livros. Dizia que cada livro era uma alma esperando para ser compreendida. Enquanto exploravam o espaço, Lara não conseguia parar de sorrir.
Pela primeira vez em anos, sentia-se viva, como se tivesse encontrado um pedaço de si mesma, que nem sabia estar perdido. “Deixa eu ajudar a organizar essas caixas”, ofereceu Chico, se dirigindo para uma pilha de volumes encostada na parede que dividia a livraria do estabelecimento vizinho. “Cuidado, vovô, essas caixas parecem pesadas. O acidente aconteceu como em câmera lenta.
Chico tropeçou no tapete persa desbotado. As caixas voaram pelos ares e dezenas de livros atravessaram a divisória baixa entre os dois estabelecimentos, aterriçando com estrondos dramáticos no que parecia ser um antiquário elegantemente organizado. O silêncio que se seguiu durou exatos 3 segundos antes de uma voz masculina explodir em indignação.
Mas que diabos? A porta do antiquário se abriu com violência e Lara sentiu o ar faltar em seus pulmões. O homem que surgiu na soleira era a própria definição de masculinidade baiana. Alto, devia ter pelo menos 1,85 m, com ombros largos que preenchiam perfeitamente a camisa branca de linho. Ele tinha aquele físico atlético de quem passa tempo ao sol e no mar.
O cabelo castanho escuro caía em ondas rebeldes, emoldurando um rosto de feições aristocráticas que poderiam ter sido esculpidas por Michelangelo. Mas foram os olhos que paralisaram Lara completamente. Cor de mel dourado, intensos como o próprio sol baiano, agora faiscavam de irritação enquanto ele avaliava os estragos.
Quando esse olhar dourado encontrou os olhos verdes dela, algo elétrico passou entre eles. Uma corrente invisível que fez o tempo parar. Desculpe, moço. Chico se apressou ainda cambaleando ligeiramente. Foi um acidente? Eu tropecei. Um acidente? A voz do homem era grave, aveludada, com aquele sotaque baiano que fazia cada palavra soar como música, mas havia uma frieza cortante ali.
Você sabe quantos livros raros eu tinha organizados exatamente daquele jeito? Eduardo Silva, embora Lara ainda não soubesse seu nome, deu dois passos em direção ao grupo, e ela pode sentir o calor que emanava de seu corpo, a força contida em cada movimento. Havia algo primitivo e magnético nele que a fazia querer se aproximar e fugir ao mesmo tempo. “Nós vamos pagar qualquer dano.” Lara finalmente encontrou a voz, dando um passo à frente para proteger o avô. Foi um acidente honesto.
Os olhos dourados se voltaram para ela novamente e desta vez ela viu algo além da irritação. Surpresa, talvez curiosidade. O olhar dele percorreu rapidamente seu rosto parando nos olhos verdes. Depois desceu até sua boca num escrutínio tão intenso que ela sentiu como se ele a estivesse tocando. E vocês são Lara Santos.
Esta é minha livraria agora. Ela ergueu o queixo, tentando parecer mais confiante do que se sentia. E este é meu avô, Francisco. Sua livraria? Uma sobrancelha escura, se arqueou elegantemente. Helena nunca mencionou uma sobrinha.
Então, você conhecia minha tia bisavó? Algo passou rapidamente pelos olhos dele, uma sombra de tristeza que desapareceu antes que ela pudesse interpretá-la completamente. Conhecia sim, Eduardo Silva, seu vizinho. Ele não estendeu a mão, apenas inclinou ligeiramente a cabeça e agora dono de várias primeiras edições jogadas pelo chão. Lara sentiu o rosto esquentar. Havia algo na postura dele que a irritava e a fascinava simultaneamente, como se ele fosse um príncipe baiano habituado a ter tudo do seu jeito.
Mas por baixo da arrogância, ela captou uma vulnerabilidade que não conseguia explicar. Como eu disse, vamos ressarcir qualquer dano. Eduardo se abaixou para examinar os livros espalhados e Lara não conseguiu evitar reparar na graciosidade de seus movimentos. nas mãos longas e elegantes que manuseavam os volumes com reverência quase religiosa.
Este aqui, ele levantou um livro de capa marrom desgastada, é um exemplar de 1889 de Dom Casmurro. E este pegou o outro, uma coletânea de poesias de Castro Alves de 1870. Meu Deus”, Lara sussurrou, se ajoelhando instintivamente ao lado dele. “São verdadeiras preciosidades.” Quando ele olhou para ela novamente, estava tão perto que ela podia ver pequenas faíscas douradas em seus olhos, sentir seu perfume masculino misturado com madeira e algo que lembrava o mar.
“Você entende de livros antigos?” “Sou professora de literatura.” Estes exemplares são Ela tocou delicadamente a capa do machado. São tesouros. Por um momento, a hostilidade nos olhos dourados se suavizou. Ele a observava com uma intensidade diferente agora, como se a estivesse vendo pela primeira vez.
Bem, ele se endireitou, estendendo uma das mãos elegantes para ajudá-la a levantar. O toque foi como um choque elétrico que subiu pelo braço dela até o coração. Creio que podemos resolver isso de forma civilizada. Lara aceitou a mão, sentindo a pele quente e áspera dele contra a sua, e quando ele a puxou para cima, ficaram novamente perigosamente próximos.
Próximos o suficiente para ela ver uma pequena cicatriz no queixo dele, para notar como seus lábios eram perfeitamente desenhados. Eu eu ajudo a organizar tudo de volta. Ela gaguejou, ainda hipnotizada pelos olhos dourados. Aceito a ajuda. A voz dele saiu mais rouca do que antes. Mas cuidado desta vez. Estes livros têm mais de um século. Enquanto se afastava para pegar uma vassoura, Eduardo olhou por sobre o ombro e encontrou Lara, ainda parada onde ele a deixara, uma das mãos tocando inconscientemente o local onde ele a havia tocado. Chico observava a cena com um sorriso misterioso nos lábios.
Netinha, ele sussurrou. Acho que Salvador reserva surpresas maiores do que imaginávamos. Lara não conseguiu responder. Ainda podia sentir o calor daqueles olhos dourados queimando sua pele e tinha a estranha sensação de que sua vida havia acabado de tomar um rumo completamente inesperado.
Mas será que Eduardo sentia a mesma coisa ou ela estava apenas fantasiando? A manhã seguinte trouxe uma salva dor dourada e perfumada. Lara acordou cedo, mas não por escolha. Os sons da cidade histórica eram uma sinfonia completamente diferente do rio. Sinos de igrejas, vozes de vendedores ambulantes, música de algum bar distante que ainda ecoava da noite anterior.
Desceu para a livraria em uma saia leve de algodão branco e uma blusa coral que realçava seu bronzeado carioca. Havia decidido que começaria o dia organizando os estragos do dia anterior, mas quando abriu a porta encontrou Eduardo já lá. Ele estava de costas, arrumando uma pilha de livros numa estante alta. E Lara teve um momento para apreciá-lo sem ser notada.
Usava uma camiseta azul marinho que moldava perfeitamente seus ombros largos e as costas musculosas e uma calça jeans desbotada que caía de forma devastadoramente masculina. Os cabelos castanhos estavam ligeiramente bagunçados, como se ele tivesse passado as mãos neles várias vezes. “Bom dia”, ela disse suavemente, não querendo assustá-lo.
Eduardo se virou e o sorriso que brotou em seu rosto quando a viu foi como o sol nascendo sobre a baía de todos os santos. “Bom dia, professora. Espero que não se importe, mas Dr. Morais me deu uma cópia da chave ontem à noite. Helena sempre me pedia para cuidar da livraria quando viajava. Claro que não me importo.
Lara se aproximou, respirando o aroma masculino dele misturado com o cheiro familiar dos livros. Na verdade, é muito gentil da sua parte. Café. Ele indicou uma pequena cafeteira que ela não havia notado antes. Trouxe de casa. Pensei que seria necessário combustível para a organização.
Enquanto ele servia duas xícaras em porcelana delicada, claramente pertences de Helena, Lara o observava fascinada. Cada movimento dele era econômico, elegante, como se fosse um dançarino disfarçado de antiquário. Açúcar pode ser. Suas mãos se tocaram quando ele lhe entregou a xícara e novamente aquela eletricidade inexplicável passou entre eles.
Eduardo, sobre ontem, sinto muito mesmo pelo transtorno. Ele tomou um gole do café, estudando-a por cima da borda da xícara. Havia algo hipnotizante na forma como seus lábios tocavam a porcelana. Para ser honesto, eu estava sendo um pouco dramático. Esses livros já passaram por pior. Ele deu um sorriso torto que fez algo derreter no peito de Lara.
Helena sempre dizia que livros foram feitos para viver aventuras, não para serem venerados como relíquias. Ela parece ter sido uma pessoa especial. Era. A voz dele se suavizou, carregando uma melancolia que fez Lara querer consolá-lo, muito parecida com você, na verdade. Comigo? Os olhos, o mesmo verde intenso, como se guardassem segredos antigos.
Ele parou abruptamente, como se tivesse dito mais do que pretendia, e desviou o olhar. Enfim, por onde começamos? Passaram as duas horas seguintes trabalhando lado a lado, e Lara descobriu que Eduardo era completamente diferente do homem frio que conhecera no dia anterior. Ele contava histórias sobre cada livro que manuseiava, sabia detalhes fascinantes sobre autores antigos e tinha uma risada grave e calorosa que fazia seu estômago dar voltas. Este aqui ele segurou um exemplar de O guarani.
Era o favorito de Helena. Ela dizia que José de Alencar sabia escrever sobre paixão avaçaladora. E você acredita em paixão avaçaladora? A pergunta escapou antes que ela pudesse censurá-la e Lara sentiu o rosto corar. Eduardo parou o que estava fazendo e a olhou com uma intensidade que fez o ar parecer mais denso.
Costumava não acreditar, mas ultimamente ele deixou a frase no ar, seus olhos dourados percorrendo o rosto dela de forma quase tangível. Eles estavam trabalhando numa estante baixa, sentados no chão, um ao lado do outro. A proximidade era quase insuportável. Ela podia sentir o calor radiante de seu corpo, ver as pequenas faíscas douradas em seus olhos, notar como suas mãos eram elegantes, mas fortes. Ultimamente o quê? Ela sussurrou.
Eduardo se inclinou ligeiramente em direção a ela. Ultimamente conheci uma professora de olhos verdes que está me fazendo repensar várias coisas. O coração de Lara disparou. Havia algo nos olhos dele que a fazia sentir-se especial, desejada, como se ela fosse a única mulher no mundo capaz de capturar sua atenção. Eduardo, eu, Netinha, trouxe pão de açúcar e queijo com alho.
A voz de Chico ecoou pela livraria como um balde de água fria. Eduardo e Lara se afastaram instantaneamente, como adolescentes flagrados pelos pais. Ah, bom dia, Eduardo. Chico cumprimentou alegremente, parecendo completamente alheio à tensão que pairava no ar. Que bom que está ajudando. Esses livros são mesmo pesados. Bom dia, seu Chico. Foi um prazer ajudar.
Eduardo se levantou rapidamente, alisando a camiseta. Lara notou que suas mãos tremiam ligeiramente. Eu preciso voltar ao antiquário. Tenho um cliente vindo às 10. Ele caminhou até a porta, mas se virou antes de sair. Lara, se precisar de qualquer coisa, estarei ao lado. A forma como ele disse seu nome, com aquele sotaque baiano acariciando cada sílaba, fez algo se contrair no baixo ventre dela.
Depois que ele saiu, Chico olhou para a neta com um sorriso maroto. Esse menino está interessado em você, vovô. Não seja ridículo. Mal conhecemos, netinha. Eu tenho 75 anos. Já vi paixão à primeira vista o suficiente para reconhecer quando ela acontece. Ele mordeu o pão de açúcar pensativo.
E também já vi coração ferido o suficiente para saber que esse rapaz está lutando contra algo. Lara olhou pela janela, onde podia ver Eduardo organizando vitrines no antiquário. Como se sentisse seu olhar, ele levantou a cabeça e acenou aquele sorriso devastador iluminando seu rosto. Vovô, acho que estou encrencada.
Por quê? Por que está se apaixonando por um baiano lindo que claramente está perdido por você também? Lara não conseguiu negar. Havia algo em Eduardo Silva que despertava nela sensações que nem sabia que existiam. Era como se ele fosse uma chave e ela uma fechadura esperando ser aberta há anos.
Mas ele havia mencionado algo sobre repensar coisas, o que isso significava, que tipo de passado ele carregava e por tinha a impressão de que conquistar o coração dele seria a aventura mais perigosa e mais necessária de sua vida. Do outro lado da divisória, Eduardo organizava livros automaticamente, mas seus pensamentos estavam completamente ocupados com a mulher de olhos verdes, que havia virado seu mundo de cabeça para baixo em menos de 24 horas.
Desde Isabela, ele havia jurado nunca mais permitir que alguém se aproximasse o suficiente para machucá-lo. Mas Lara Santos estava quebrando todas as suas defesas, sem nem ao menos tentar, e isso o apavorava mais do que qualquer coisa. Três dias depois, Lara estava organizando os livros do segundo andar, quando encontrou algo que mudaria tudo. Entre as páginas de um exemplar de senhora de José de Alencar, havia um envelope amarelado pelo tempo para meu amado Carlos, que nunca teve coragem de me amar completamente.
O coração dela disparou. Carlos, seria possível? Com mãos trêmulas, abriu o envelope e desdobrou uma folha de papel com a letra delicada e feminina. Meu querido Carlos, mais um ano se passa e você continua fingindo que não me vê quando passo pela sua janela. Sei que sente o mesmo que eu.
Vejo em seus olhos quando pensa que não estou olhando. Mas você tem medo, não é? Medo do que as pessoas vão dizer. Medo de se entregar completamente. Escrevo estas cartas que nunca envio porque preciso colocar meu amor em algum lugar. Um dia talvez você encontre coragem para bater na minha porta e dizer o que sente. Esperando sempre.
Helena, Salvador. 15 de março de 1987. Lara encostou na parede atônita. Helena havia amado alguém chamado Carlos e pelo tom da carta era um amor não correspondido por covardia. “Lara, está tudo bem?” A voz de Eduardo, subindo à escada, a fez esconder rapidamente a carta. Está sim. Só encontrei algumas coisas interessantes aqui.
Eduardo apareceu no topo da escada carregando uma bandeja com café e biscote. Nos últimos dias, ele havia criado o hábito de aparecer na livraria com desculpas cada vez mais criativas. Ora, precisava devolver um livro. Ora, queria saber se ela precisava de alguma coisa, ora simplesmente passava para verificar se estava tudo bem. Que tipo de coisas interessantes?” Lara hesitou.
Havia algo no nome Carlos que a incomodava, como se fosse uma peça de quebra-cabeça que deveria se encaixar em algum lugar de sua memória. “Eduardo, seu pai se chamava como?” A expressão dele mudou instantaneamente. Os olhos dourados se turvaram e ele colocou a bandeja em uma mesa próxima com movimentos mais bruscos.
Carlos, Carlos Silva, por quê? O estômago de Lara despencou. Pode sentar. Tenho algo para lhe mostrar. Ela lhe entregou a carta, observando enquanto ele lia. A cada linha, o rosto de Eduardo se transformava. Surpresa, confusão e, finalmente, uma tristeza profunda. Meu pai amava a Helena. Pelo que entendi, ambos se amavam, mas nunca tiveram coragem de se declarar.
Eduardo passou as mãos pelos cabelos, um gesto que ela já havia aprendido significar que ele estava perturbado. Isso explica tantas coisas. Meu pai nunca se casou novamente depois que minha mãe morreu, quando eu tinha 12 anos. Sempre disse que havia perdido a única mulher que poderia amar. Ele olhou para Lara com uma intensidade que a fez tremer. E Helena nunca se casou.
Que tragédia! Dois corações que se amavam, mas nunca se encontraram. Realmente. Espere. Eduardo se levantou abruptamente. Preciso de algo no meu apartamento. Você pode pode vir comigo. O apartamento de Eduardo ficava acima do antiquário e era uma extensão perfeita de sua personalidade. Móveis de madeira escura, estantes repletas de livros, obras de arte que sugeriam viagens pelo mundo.
Tudo masculino, elegante e incrivelmente acolhedor. Ele desapareceu em um quarto e voltou carregando uma caixa de madeira ornamentada. Encontrei isto entre as coisas de meu pai depois que ele morreu há dois anos. Nunca conseguia abrir. Parecia invasão de privacidade. Suas mãos tremiam ligeiramente, mas agora dentro da caixa havia dezenas de cartas todas endereçadas à minha querida H.
Eduardo pegou uma aleatoriamente e leu em voz alta. Sua voz grave carregada de emoção. Minha querida H, hoje você passou pela rua usando aquele vestido azul que combina com seus olhos. Quis correr até você, tomar suas mãos e dizer tudo que sinto, mas fui covarde novamente. Como um homem com um filho para criar pode declarar amor a uma mulher que merece muito mais do que um viúvo assombrado por fantasmas.
Se você pudesse ler meu coração, saberia que não há um só dia em que eu não pense em você. Seu tolo e apaixonado é a Carlos. Salvador, 20 de março de 1987. Lágrimas rolaram pelo rosto de Lara. Eles se amaram por anos sem nunca se declararem. Aparentemente, Eduardo pegou outra carta. Olha esta. H. Vi você conversando com aquele professor hoje.
Morri de ciúmes, mas não tenho direito algum. Nunca tive coragem de lutar pelo que quero. E agora é tarde demais. Eles passaram a tarde seguinte lendo as cartas, descobrindo uma história de amor silenciosa que havia durado décadas. Carlos Silva e Helena Santos haviam se amado profundamente, mas nunca superaram seus medos e inseguranças para ficarem juntos. É a coisa mais triste que já vi.
Lara murmurou encostada no sofá ao lado de Eduardo. Estavam tão próximos que ela podia sentir o calor dele, mas a tragédia romântica que haviam descoberto criara uma intimidade diferente entre eles. “Meu pai morreu sozinho”, Eduardo disse baixinho.
“Sempre pensei que era porque realmente amava minha mãe demais para seguir em frente, mas na verdade ele estava morrendo de saudades de Helena.” E Helena criou uma livraria cheia de histórias de amor que ela mesma nunca viveu completamente. Eduardo se virou para ela e havia algo desesperado em seus olhos dourados. Lara, prometa-me uma coisa. O quê? Que nunca seremos como eles? Que nunca deixaremos o medo nos impedir de Ele parou como se tivesse se dado conta do que estava prestes a dizer.
De que, Eduardo? Os olhos dele se fixaram-nos dela com uma intensidade que fez seu coração parar de bater, de sermos felizes. Havia tanto não dito naquela frase. Havia uma confissão de sentimentos, uma admissão de que algo estava crescendo entre eles, um reconhecimento de que ambos estavam à beira de algo que poderia mudar suas vidas para sempre. “Prometo”, ela sussurrou.
A mão de Eduardo se moveu lentamente em direção ao rosto dela e Lara sentiu que ia desmaiar de antecipação. Os dedos dele tocaram sua face com uma delicadeza reverente, como se ela fosse feita de cristal. Lara, você é Eduardo? Cadê você, menino? A voz estrondosa de uma mulher mais velha ecoou pelo apartamento, fazendo Eduardo pular para longe de Lara, como se tivesse levado um choque.
“Dona Conceição”, ele murmurou, parecendo um adolescente flagrado em algo proibido. Uma senhora robusta apareceu na porta da sala, carregando uma panela que cheirava divinamente. “Trouxe vatapá. Você está magro demais.” E ela parou ao ver Lara. Opa! E quem é esta moça linda? Conceição. Esta é Lara Santos. Ela herdou a livraria de Helena.
Os olhos astutos da senhora brilharam com interesse. Ah, é você. A cidade inteira já está falando da sobrinha bonita de Helena. Ela olhou de Eduardo para Lara com um sorriso sapeca. E, pelo jeito, não é só a cidade que está interessada. Lara sentiu o rosto esquentar. Eduardo parecia querer que a terra o engolisse. “Dona Conceição cuida de mim desde que meu pai morreu”, ele explicou.
“E o péssimo hábito de aparecer nos momentos mais inconvenientes.” “Inconveniente? É, interrompi alguma coisa importante?”, Conceição perguntou com falsa inocência. Lara se levantou rapidamente. “Na verdade, eu preciso voltar. Chico deve estar se perguntando onde estou.” Eduardo a acompanhou até a porta e havia uma tensão quase palpável entre eles.
Lara, sobre o que conversamos. Eu sei, Eduardo, que você está certo. Não podemos repetir os erros deles. Mas quando ela desceu as escadas e olhou para trás, viu Eduardo parado na janela, observando-a e teve a certeza de que ambos estavam pensando a mesma coisa. Era muito fácil falar sobre não ter medo, mas outra coisa completamente diferente era ter coragem de agir.
O que eles não sabiam era que as cartas que haviam encontrado eram apenas o começo. Helena havia deixado muito mais do que uma livraria para Lara. Havia deixado pistas de um mistério que os obrigaria a confrontar não apenas o passado, mas também os próprios sentimentos que estavam desesperadamente tentando negar.
A primeira semana completa de Lara em Salvador passou como um sonho acordado. Cada manhã ela acordava com o som dos sinos da igreja e descia para encontrar Eduardo já na livraria, sempre com alguma desculpa perfeitamente plausível para estar ali. Segunda-feira, ele apareceu para devolver um livro que Helena havia emprestado.
Terça-feira veio verificar se a estante que ele havia consertado estava firme. quarta-feira trouxe alguns biscoitos que dona Conceição insistiu que compartilhasse. Quinta-feira precisou pedir açúcar emprestado porque o dele havia acabado.
Sexta-feira, quando Lara desceu e o encontrou arrumando uma prateleira alta, ela não conseguiu mais fingir que não sabia o que estava acontecendo. Eduardo Silva, você está mentindo descaradamente. Ele quase derrubou os livros que segurava. Como assim mentindo? Não existe tanta coincidência assim. Você está arranjando desculpas para vir aqui. Eduardo desceu da escada e havia um meio sorriso culpado em seu rosto que o tornava ainda mais irresistível.
E se estiver, isso te incomoda? A pergunta saiu com aquela voz aveludada que fazia as pernas de Lara ficarem bambas. Ele se aproximou devagar, como um felino, e ela sentiu o coração acelerar. Não ela admitiu, sua própria voz saindo mais rouca que o normal. Na verdade, eu eu espero por você chegar todas as manhãs. Os olhos dourados dele brilharam com satisfação masculina.
É mesmo? Não fique convencido. Tarde demais. Já estou completamente convencido. Eles riram e a tensão sexual que vinha crescendo a cada dia parecia estar chegando a um ponto crítico. Eduardo, posso fazer uma pergunta pessoal? Pode. Por que você nunca se casou? A pergunta saiu antes que ela pudesse censurá-la e Lara se arrependeu imediatamente.
Desculpe, não é da minha conta. A expressão dele mudou, tornando-se mais séria. Na verdade, eu quase me casei há três anos. Lara sentiu uma apontada estranha no peito, ciúmes de uma mulher que nem conhecia. O que aconteceu? Eduardo se encostou na estante, passando a mão pelos cabelos naquele gesto já familiar. Isabela. Ficamos noivos por dois anos, casamento marcado, tudo organizado.
Uma semana antes da cerimônia, ela apareceu na minha casa dizendo que havia se apaixonado por outro. Meu Deus, que terrível. O pior não foi ela terme deixado. O pior foi perceber que eu estava mais aliviado que magoado. Isso me fez questionar se eu realmente a amava ou se estava apenas seguindo o que todo mundo esperava de mim.
Lara se aproximou instintivamente e chegou a alguma conclusão? Sim. Descobri que nunca havia sentido por ela nenhuma fração do que ele parou abruptamente, mas o modo como seus olhos se fixaram no rosto de Lara deixou claro o que ele não havia dito. Do que o quê, Eduardo? Ele se aproximou mais, tanto que ela podia ver as pequenas faíscas douradas em seus olhos, sentir o cheiro masculino que já estava se tornando viciante. “Do que sinto por você em uma semana”, ele confessou em um sussurro.
O arreetrizado. Lara sentiu como se estivesse na beira de um precipício, um passo em falso e cairia irreversivelmente. Eduardo, eu sei que é loucura. Eu sei que mal nos conhecemos, mas você mexe comigo de uma forma que eu nunca experimentei antes. Antes que ela pudesse responder, a porta da livraria se abriu e entrou Chico, carregando sacolas de compras e assobeiando alegremente. Bom dia, pessoal.
Eduardo, que bom que está aqui. Preciso da sua opinião masculina sobre algo. Eduardo se afastou de Lara rapidamente, mas ela podia ver que suas mãos tremiam ligeiramente. Claro, seu Chico. Em que posso ajudar? Estou pensando em comprar umas roupas novas. Faz muito tempo que não me arrumo para impressionar as damas baianas.
Lara riu, grata pela interrupção que aliviou a tensão quase insuportável. Vovô, você vai conquistar Salvador inteira. É exatamente essa a intenção, Netinha. Passou a manhã ajudando Chico a escolher roupas em fotos de catálogos que ele havia pego na rua, mas Lara estava completamente distraída. Cada vez que Eduardo falava, ela se pegava, observando seus lábios. Cada vez que ele ria, sentia borboletas no estômago.
E quando ele ocasionalmente a tocava, uma mão no braço, um dedo que esbarrava no dela ao pegar um livro, era como se tivesse levado um choque elétrico. “Lara, você não está prestando atenção nenhuma no que estou dizendo.” Chico observou com um sorriso maroto. Estou sim, vovô.
Então me diga, azul ou verde para a camisa? Lara olhou para as fotos sem realmente ver. Azul? Que bom, porque eu estava falando sobre calças. Eduardo gargalhou e o som fez algo derreter no peito dela. Seu Chico, sua neta está em outro mundo hoje. Ah, eu sei exatamente em que mundo ela está, o mesmo que você. Ambos ficaram vermelhos e Chico aproveitou para fazer mais uma das suas observações aparentemente inocentes.
Eduardo, você sabe cozinhar? Sei algumas coisas básicas. Por quê? Porque estava pensando que poderíamos te convidar para jantar um dia desses. Lara faz um bobó de camarão que é uma delícia. Vovô? Lara protestou mortificada. O que foi? Estou sendo hospitaleiro. Eduardo é nosso vizinho, praticamente família já.
Eduardo olhou de Chico para Lara e havia algo quente e promissor em seus olhos. Eu adoraria jantar com vocês. Ótimo. Que tal amanhã? Sábado à noite? Perfeito. Depois que o convite foi feito, a atmosfera entre Lara e Eduardo mudou. Havia uma antecipação no ar, como se ambos soubessem que algo importante ia acontecer durante esse jantar.
Quando Eduardo saiu para almoçar, Lara confrontou o avô. Vovô, o que você está aprontando? Chico sorriu inocentemente. Estou facilitando a vida de dois jovens que estão claramente apaixonados, mas são covardes demais para admitir. Nós não estamos Eu não estou. Netinha, você está radiante desde que chegamos aqui. E não é por causa do ar baiano, é por causa daqueles olhos dourados que não saem de cima de você. Lara suspirou.
Não adiantava negar. Chico a conhecia bem demais. É assustador, vovô. Eu nunca senti nada assim tão rápido. E qual é o problema nisso? E se for apenas física? E se eu estiver confundindo atração com sentimento? E se e se e se e se Chico interrompeu. Lara, você vai passar a vida toda se escondendo atrás de Essis.
Às vezes é preciso ter coragem para ser feliz. Naquela tarde, enquanto organizava livros, Lara não conseguia parar de pensar no jantar de sábado, o que deveria cozinhar, o que deveria usar, como se comportar. Do outro lado da divisória, Eduardo estava igualmente inquieto.
Ele havia cancelado um encontro com amigos para estar livre no sábado e agora se questionava se isso não foi precipitado demais. Mas quando ele olhou pela janela e viu Lara arrumando livros na vitrine, o cabelo dourado brilhando ao sol da tarde, teve certeza absoluta não havia lugar no mundo onde preferisse estar, a não ser perto dela. O que nenhum dos dois sabia era que o jantar de sábado seria apenas o começo de uma noite, que mudaria tudo entre eles para sempre. O jantar de sábado foi um sucesso absoluto.
Lara preparou bobó de camarão, farofa de dendê e cocada de sobremesa, enquanto Eduardo trouxe vinho branco e flores, um buquê de hibiscos vermelhos que fez o coração dela acelerar. Para as anfitriã mais linda de Salvador”, ele disse ao entregar as flores, seus olhos dourados brilhando de forma que fez Lara se sentir como a única mulher no mundo.
Durante o jantar, conversaram sobre livros, viagens, sonhos e planos. Eduardo falou sobre sua paixão por restaurar prédios históricos, sobre como cada edifício antigo tinha uma alma que precisava ser preservada. Lara compartilhou sua paixão pela literatura sobre como cada livro era um universo esperando para ser descoberto.
Chico foi o anfitrião perfeito, contando histórias hilariantes de sua juventude e fazendo ambos rirem até as lágrimas. Mas Lara notou que ele os observava com um sorriso sapiente, como se soubesse exatamente o que estava fazendo ao juntá-los. Eduardo, você tem que experimentar a cocada da Lara. Chico insistiu. É igual a que minha esposa fazia.
Quando Eduardo colocou a cocada na boca e fechou os olhos de prazer, murmurando deliciosa, de uma forma que fez Lara pensar em coisas nada inocentes, ela soube que estava perdidamente apaixonada. Após o jantar, Chico anunciou que estava cansado e subia para dormir, deixando os dois sozinhos na pequena sala de estar da livraria. Mais vinho?” Eduardo ofereceu, enchendo a taça dela antes mesmo que respondesse.
Estavam sentados no sofá antigo de Helena, próximos o suficiente para que ela pudesse sentir o calor radiante do corpo dele. A luz suave das velas que haviam acendido criava sombras dançantes em seu rosto, tornando-o ainda mais devastadoramente atraente. “Eduardo, posso fazer uma pergunta indiscreta?” Pode perguntar qualquer coisa.
Você sente isso também, essa conexão entre nós? Ele colocou a taça na mesinha de centro e se virou para encará-la completamente. Havia algo intenso, quase desesperado, em seus olhos. Lara, desde o momento em que você entrou na minha vida, eu não consigo pensar em mais nada. Acordo pensando em você. Passo o dia inteiro arranjando desculpas para te ver. Durmo sonhando com você. O coração dela disparou.
Eu também. É como se como se eu tivesse passado a vida inteira esperando por você sem saber. É exatamente isso. Ele se aproximou mais, sua voz ficando rouca. Como se eu fosse uma peça de quebra-cabeça incompleta e você fosse a parte que faltava. A mão dele se moveu lentamente até o rosto dela, os dedos traçando a linha de sua bochecha com uma delicadeza que fez Lara tremer.
Mas eu tenho medo, Lara. Medo de quê? De que isso seja bom demais para ser verdade, de que você descubra que eu não sou o homem que você pensa que sou, de que você volte para o rio e eu fique aqui com o coração despedaçado. Lara pegou a mão dele e a pressionou contra seu rosto. Eduardo, eu larguei minha vida no rio para vir para cá.
Não foi só por causa da herança, foi porque alguma coisa dentro de mim sabia que eu precisava fazer essa viagem. Agora eu entendo porquê. Por quê? para te encontrar. A respiração de Eduardo falhou. Lara, eu não vou embora. Não depois de te conhecer. Ele se inclinou em direção a ela e Lara sentiu que finalmente o momento havia chegado. Fechou os olhos.
Seus lábios se entreabriram ligeiramente. Um barulho forte na rua os fez se separarem abruptamente. Vozes de pessoas passando, música alta, risadas. Salvador não dormia nunca, principalmente nos fins de semana. “Talvez eu devesse ir”, Eduardo murmurou, mas não fez movimento algum para se levantar. “Talvez devesse mesmo, ela concordou também, sem se mover.
Ficaram se olhando. A tensão sexual entre eles quase palpável. Havia algo magnético na forma como os olhos dourados dele percorriam seu rosto, parando nos lábios, descendo até o decote discreto de sua blusa. Lara, você é linda demais para seu próprio bem e você é perigoso demais para o meu. Ela retrucou, surpresa com a própria audácia.
Ele sorriu, aquele sorriso torto e devastador que fazia suas pernas ficarem bambas. Perigoso como você me faz querer coisas que eu nunca quis antes. Que tipo de coisas? A voz dele saiu como um rosnado baixo que fez algo se contrair no baixo ventre dela. Eduardo, desta vez, quando ele se inclinou, nada os interrompeu. Seus lábios quase se tocaram.
Ela podia sentir a respiração dele misturada com a sua. Lara, netinha, você pode me ajudar aqui em cima? A voz de Chico ecoou do andar de cima como um balde de água gelada. Eduardo fechou os olhos e apoiou a testa na dela. “Seu avô tem um timing impressionante. Eu vou matá-lo”, ela murmurou, mas estava rindo. “Não mate, eu gosto dele.
” “Lara, já vou, vovô!”, Ela gritou de volta, ainda olhando nos olhos de Eduardo. “Eu deveria mesmo ir”, ele disse, mas suas mãos subiram até o rosto dela, os polegares acariciando suas bochechas. “Deveria mesmo?” “Amanhã?” “Amanhã o quê? Venho te ver amanhã?” Lara sorriu. Eduardo Silva, você vai aparecer aqui amanhã com alguma desculpa esfarrapada de qualquer jeito.
Então, por que perguntar? Porque desta vez não vai ser desculpa. Desta vez vai ser porque eu preciso te ver. Porque um dia sem você me parece impossível agora. O coração dela derreteu completamente. Então sim, venha me ver amanhã e em todos os amanhãs seguintes. Eduardo se levantou lentamente, como se cada movimento fosse um esforço sobrehumano.
Na porta, ele se virou uma última vez. Lara, sim. Obrigado pela noite mais perfeita que tive em muito tempo. Depois que ele saiu, Lara ficou parada na sala por longos minutes, tocando os lábios e pensando no quase beijo que havia sido interrompido. Subiu devagar para encontrar Chico, que estava na cama lendo tranquilamente.
Precisava de alguma coisa, vovô? Chico sorriu inocentemente. Na verdade, não. Só achei que vocês dois precisavam de um tempinho para pensar antes de fazer alguma besteira. Que besteira, netinha. Vocês estavam a dois segundos de se beijarem na minha sala. Eu sou velho, não sou cego. Lara corou. E daí se estivéssemos? E daí que algumas coisas valem a pena esperar.
Quando vocês finalmente se beijarem, e vão se beijar, tenho certeza, vai ser no momento certo, no lugar certo, não de vinho e impulso. Lara beijou a testa do avô. Às vezes você é sábio demais para o seu próprio bem. É o que acontece quando se vive 75 anos, netinha. Aprendemos que as melhores coisas da vida valem a pena esperar. Naquela noite, Lara demorou muito para adormecer.
ficou pensando em Eduardo no quase beijo, na promessa não dita de que algo maravilhoso estava prestes a acontecer entre eles. Do outro lado da divisória, Eduardo também não conseguia dormir. Ficou na varanda de seu apartamento, olhando para as janelas da livraria, revivendo cada momento da noite, cada palavra, cada olhar.
Uma coisa era certa. Depois daquela noite, não havia mais como negar o que estava acontecendo entre eles. A única questão era ter coragem para não repetir os erros de Helena e Carlos. E Eduardo Silva estava decidido a não ser um covarde quando se tratava de Lara Santos.
Na segunda-feira seguinte, tudo mudou quando Lara conheceu Marcos Tavares. Alto, moreno, com um sorriso charmoso e olhos cor de café, Marcos era tudo que uma mulher poderia desejar em um homem baiano. Havia aparecido na livraria dizendo ser jornalista cultural, interessado em escrever uma matéria sobre a nova vida da histórica livraria Helena.
É uma história fascinante”, ele disse, “Su sotaque baiano ainda mais pronunciado que o de Eduardo, uma jovem carioca que larga tudo para recomeçar em Salvador. Nossos leitores vão adorar.” Lara estava lisongeada com a atenção. Marcos era engraçado, interessante e claramente interessado nela. Insistiu em levá-la para conhecer pontos turísticos de Salvador para contextualizar melhor a matéria.
O que acha de almoçarmos no pelourinho amanhã? Conheço uns restaurantes incríveis que vão ajudar você a entender a alma baiana. Lara estava prestes a aceitar quando ouviu uma batida seca na porta. Eduardo entrou carregando um buquê de rosas brancas, mas parou abruptamente ao ver Marcos. Desculpe, não sabia que tinha visita. Havia algo diferente na voz dele. Uma frieza que ela nunca ouvira antes.
Eduardo, este é Marcos Tavares, jornalista. Marcos Eduardo Silva, meu vizinho. Marcos estendeu a mão com um sorriso largo. Prazer, cara. Estava justamente conhecendo a história da bela Lara aqui. Eduardo apertou a mão oferecida, mas Lara notou que seus olhos dourados haviam escurecido visivelmente.
Bela mesmo, Eduardo concordou, mas havia uma tensão em sua voz que fez o ar da sala parecer mais denso. Então, Lara. Marcos continuou ignorando completamente a atmosfera pesada. Que tal esse almoço amanhã? Lara olhou de Marcos para Eduardo. Havia ciúmes nos olhos dourados, ciúmes e algo que parecia dor. Eu preciso pensar. Tenho muita coisa para organizar ainda aqui na livraria.
Claro, sem pressa. Aqui está meu cartão. Liga quando decidir. Depois que Marcos saiu, Eduardo ficou parado no meio da livraria, ainda segurando as rosas brancas, como se tivesse esquecido que as tinha nas mãos. “As flores são lindas”, Lara disse suavemente. “Pensei que gostaria delas”.
A voz dele saiu mais fria que o normal, mas vejo que já tem admiradores mais interessantes. Eduardo, ele é apenas um jornalista fazendo uma matéria. Claro que é. Ele colocou as flores bruscamente em cima do balcão. Um jornalista que não conseguia tirar os olhos de você. E daí se não conseguia, isso te incomoda? Eduardo passou a mão pelos cabelos, aquele gesto que ela já sabia indicar frustração. Incomoda mais do que deveria.
Por quê? Ele se virou para encará-la e havia algo selvagem em seus olhos. Porque você não é minha, Lara? Porque eu não tenho direito algum de sentir ciúmes. Porque somos apenas vizinhos que se conhecem há duas semanas. É só isso que somos? A pergunta saiu mais baixa que ela pretendia, mas carregada de toda a confusão e mágoa que sentia.
Eduardo fechou os olhos como se estivesse lutando uma batalha interna. Não, não é só isso que somos. E você sabe disso muito bem. Então, por que está sendo assim? Porque tenho medo? A confissão explodiu dele, porque a última vez que me importei de verdade com alguém, ela me destruiu. Porque você me faz sentir coisas que jurei nunca mais sentir. Lara se aproximou devagar.
Eduardo, eu não sou a Isabela. Eu sei. Você é pior. Pior como? Porque Isabela nunca teve o poder de me arruinar completamente. Mas você Ele olhou para ela com uma intensidade que fez suas pernas tremerem. Você poderia me despedaçar e eu ainda assim te amaria. O coração de Lara parou de bater.
O que você acabou de dizer? Eduardo percebeu que havia confessado mais do que pretendia. Nada. Esquece. Não, não vou esquecer. Você disse que me amaria. Lara. Eduardo Silva, olha para mim. Ele obedeceu reluctantemente. Eu almoço com o Marcos se quiser almoçar. Saio com quem eu quiser sair. Mas existe apenas um homem em Salvador que me faz sentir como se estivesse voando só de olhar para ele.
Os olhos dourados se fixaram luz dela com esperança cautelosa. E quem é esse homem? Um antiquário teimoso, ciumento impossível, que aparece na minha livraria todos os dias com desculpas esfarrapadas só para me ver. Um sorriso lento começou a se formar nos lábios de Eduardo. Parece um cara problemático. É muito problemático, mas também é o homem mais lindo, mais gentil e mais maravilhoso que eu já conheci.
Eduardo se aproximou e agora havia algo completamente diferente em seus olhos. Algo quente, possessivo, cheio de promessas. Lara Santos, você vai ser a minha perdição. E você vai ser a minha, Eduardo Silva. Eles estavam tão próximos que ela podia contar cada faísca dourada em seus olhos, sentir o perfume masculino que já estava se tornando viciante.
“Não almoce com ele,” Eduardo pediu, sua voz rouca. “Por quê?” “Porque eu não conseguiria suportar a ideia de você com outro homem. Então, me deu um motivo para não almoçar com ele. Que tipo de motivo?” “O tipo de motivo que envolve você finalmente ter coragem de fazer o que quase fez sábado à noite?” Eduardo engoliu seco.
Lara, Eduardo, há duas semanas você entrou na minha vida como um furacão. Desde então eu não consigo pensar direito, comer direito, dormir direito. Você me deixa completamente desarrumada. Você me deixa igualmente desarrumado. Então, talvez seja a hora de pararmos de lutar contra isso. A respiração dele falhou. Você tem certeza? Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida.
Eduardo segurou o rosto dela entre as mãos, os polegares acariciando suas bochechas. Se eu te beijar agora, não vai ter volta, Lara, porque eu vou querer mais. Vou querer tudo. Eu também vou querer tudo. Então, não almoce com ele. Almoce comigo hoje, amanhã, todos os dias, se me deixar. Eduardo? Sim. Para de falar e me beija logo.
Ele riu, uma risada baixa e rouca que fez algo se contrair no baixo ventre dela. Suas ordens, professora. E finalmente, depois de duas semanas de tensão crescente, de quase beijos interrompidos e de uma atração que estava queimando ambos por dentro, Eduardo Silva inclinou a cabeça e capturou os lábios de Lara Santos num beijo que fez o mundo parar de girar.
O beijo começou suave, exploratório, como se ambos estivessem se saboreando pela primeira vez. Mas quando ela suspirou contra sua boca e passou os braços ao redor de seu pescoço, Eduardo a puxou contra si e aprofundou o beijo, colocando todas as semanas de desejo contido, todos os ciúmes, toda a paixão que vinha crescendo entre eles. Quando finalmente se separaram, ambos estavam sem fôlego. “Meu Deus!”, Lara sussurrou.
É, meu Deus, é pouco. Eduardo, eu, se você disser que foi um erro, eu vou ter um ataque cardíaco. Ela riu, encostando a testa na dele. Não foi um erro, foi perfeito. Você é perfeito. Longe disso, mas com você quero tentar ser. Do andar de cima veio a voz alegre de Chico.
Finalmente já estava pensando que vocês dois iam morrer de vontade sem nunca fazer nada. Lara e Eduardo se olharam e caíram na risada. “Seu avô é impossível”, Eduardo murmurou contra seu cabelo. “É, mas ele tem razão. Nós estávamos morrendo de vontade. E agora? Agora eu quero que você me beije de novo. Posso beijar você sempre que quiser. Sempre que você quiser.
Sempre que eu quiser. Que tal começarmos a recuperar o tempo perdido?” Eduardo não precisou ouvir duas vezes, puxou-a novamente para seus braços e provou que havia muitas coisas para as quais ele tinha jeito, especialmente beijar Lara Santos até ela esquecer que existia um mundo além dos braços dele.
Dois dias depois do primeiro beijo que foi seguido por muitos outros, Lara estava organizando a sessão de livros antigos quando encontrou algo extraordinário. Entre as páginas de uma edição de 1895 de O cortiço, estava um mapa desenhado à mão em papel antigo. “Eduardo!”, ela gritou, esquecendo-se completamente de que podia simplesmente ir até o antiquário buscá-lo.
Ele apareceu em segundos, como se estivesse esperando por seu chamado. “O que foi, amor?” A palavra carinhosa saiu naturalmente e ambos sorriram. Nos últimos dois dias, haviam descoberto que eram incrivelmente naturais. Juntos conversavam, riam, se beijavam com uma facilidade que parecia impossível para duas pessoas que se conheciam há tão pouco tempo. Olha o que encontrei.
Eduardo se aproximou, passando os braços ao redor da cintura dela por trás, enquanto olhava por cima de seu ombro. Lara se aconchegou contra o peito dele, já viciada na sensação de segurança que sentia em seus braços. É um mapa, ele observou. Não é qualquer mapa. Olha aqui. Ela apontou para pequenos símbolos desenhados no papel.
Estas marcas parecem indicações de um tesouro. Eduardo pegou o mapa delicadamente. Você tem razão. E olha isto, tem uma data. 1943. 1943. Segunda Guerra Mundial. E aqui embaixo tem uma assinatura. HS. Lara sentiu o coração acelerar. Helena Santos. Eles estavam tão concentrados no mapa que não ouviram a porta da livraria se abrir. Uma voz elegante e ligeiramente ameaçadora os fez se virar abruptamente.
Interessante descoberta que vocês têm aí. Um homem alto e magro de aproximadamente 50 anos estava parado na entrada. Usava um terno caro e carregava uma maleta de couro, mas havia algo nos olhos escuros que fez Lara se arrepiar. “Em que posso ajudá-lo?”, Eduardo perguntou instintivamente se posicionando na frente de Lara. Dr. Víor Castelanos, advogado.
O homem se aproximou com um sorriso que não alcançava os olhos. Represento certos interessados na herança de Helena Santos. A herança é minha, Lara disse, tentando manter a voz firme, apesar do nervosismo que sentia. Tenho todos os documentos legais. Claro, claro. Ninguém questiona sua propriedade sobre a livraria, Senrita Santos, mas certas peças que podem estar entre os pertences de Helena tem outros donos legítimos.
Lara sentiu Eduardo se tensionar ao lado dela. “Que tipo de peças?”, ele perguntou. Castelano sorriu novamente e o sorriso foi ainda mais desagradável que o primeiro. Mapas antigos, por exemplo, documentos históricos, coisas que Helena pode ter. adquirido de forma irregular ao longo dos anos. Helena nunca faria nada irregular. Lara protestou.
É claro que não intencionalmente, mas às vezes pessoas idosas se confundem, guardam coisas que não lhes pertencem. Seus olhos se fixaram no mapa que Eduardo ainda segurava. Seria possível dar uma olhada no que vocês encontraram? Não. Eduardo disse sec, não seria possível. Castelanos riu baixinho. Senr. Silva, não precisa ser hostil. Estou apenas tentando proteger os interesses de meus clientes.
E, é claro, evitar complicações legais desnecessárias. A ameaça implícita fez Lara se aproximar mais de Eduardo. Suas ameaças não nos intimidam. Eduardo disse, sua voz carregada de uma frieza que Lara nunca ouvira antes. E agora sugiro que saia da nossa propriedade. Nossa propriedade? Castelanos arqueou uma sobrancelha.
Que interessante! Vocês dois são mais próximos do que imaginávamos. Saia agora. Castelano se dirigiu à porta, mas se virou uma última vez. Senrita Santos, senhor Silva, aconselho vocês a pensarem cuidadosamente antes de fazerem qualquer coisa precipitada com descobertas históricas. Salvador é uma cidade pequena.
Seria uma pena se algo acontecesse a duas pessoas tão jovens e cheias de vida. Depois que ele saiu, Lara sentiu as pernas ficar em bambas. Eduardo imediatamente a puxou para seus braços. Hei, está tudo bem. Eu não vou deixar nada acontecer com você. Eduardo, ele estava nos ameaçando. Eu sei, mas também sei que esse mapa é importante, senão ele não teria vindo atrás.
Lara olhou para o papel amarelado. O que você acha que Helena escondeu? Não sei, mas vamos descobrir juntos. A forma como ele disse juntos fez o coração dela se acalmar. Havia algo incrivelmente reconfortante em saber que Eduardo estava do seu lado, que ela não enfrentaria isso sozinha. Por onde começamos? Eduardo estudou o mapa cuidadosamente.
Essas marcações parecem indicar localizações em Salvador. Esta aqui parece ser a Catedral Basílica. E esta, o mercado modelo, talvez. Você conhece bem a cidade? Nasci aqui. Conheço cada pedra do centro histórico. Ele olhou para ela com uma mistura de determinação e preocupação. Lara, se formos investigar isso, pode ser perigoso. Castelanos não me pareceu o tipo de homem que desiste facilmente.
Você está me dando chance de desistir? Estou. Lara se aproximou dele, colocando as mãos em seu peito. Podia sentir o coração forte batendo sob suas palmas. Eduardo Silva, há duas semanas você entrou na minha vida e a virou de cabeça para baixo. Agora aparece um mistério que pode ser perigoso e você acha que eu vou desistir? Ele sorriu, aquele sorriso torto que ela amava.
Esperava que dissesse isso. Por quê? Porque se você fosse o tipo de mulher que desiste na primeira dificuldade, eu não teria me apaixonado por você. O coração dela parou. Você se apaixonou por mim. Eduardo segurou o rosto dela entre as mãos, os polegares acariciando suas bochechas completamente, irreversielmente, desde o primeiro momento em que vi esses olhos verdes. Eduardo, eu te amo, Lara Santos.
Sei que é cedo, sei que é loucura, mas eu te amo. Lágrimas brotaram nos olhos dela. Eu também te amo, tanto que me assusta. Então vamos enfrentar este mistério juntos e qualquer coisa que vier depois. Eles se beijaram, selando uma promessa não dita de que enfrentariam tudo lado a lado. Do andar de cima, Chico observava pela janela enquanto o castelano se afastava da livraria.
Havia algo familiar naquele homem, algo que mexeu com memórias antigas. “Helena, minha querida tia”, ele murmurou, “Que segredos você deixou para sua sobrinha descobrir? Mas uma coisa ele sabia, Lara e Eduardo teriam que ser muito cuidadosos, porque homens como castelanos não faziam ameaças vazias e o que eles haviam acabado de descobrir era apenas a ponta do iceberg de um mistério que poderia mudar suas vidas se eles vivessem o suficiente para desvendá-lo.
Na madrugada seguinte, Eduardo apareceu na livraria com café, pães de açúcar e um plano. Pesquisei a noite toda”, ele disse, espalhando livros de história de Salvador sobre a mesa. 1943 foi um ano importante para a cidade. O Brasil havia entrado na Segunda Guerra e Salvador era um ponto estratégico. Lara, ainda de pijama, um conjunto de short e regata que fez Eduardo perder o raciocínio por alguns segundos, se aproximou para ver os livros.
Encontrou alguma coisa sobre Helena? Não sobre Helena especificamente, mas sobre o que ela pode ter escondido. Ele abriu um livro em uma página marcada. Em 1943, muitos refugiados de guerra passaram por Salvador. Alguns trouxeram objetos valiosos, documentos importantes, coisas que precisavam esconder dos nazistas. Você acha que Helena ajudou a esconder coisas? É possível. Ela tinha a livraria, conhecia muita gente. Seria o lugar perfeito para guardar segredos.
Chico apareceu na escada já vestido e com um sorriso animado. Bom dia, pesquisadores. Descobriram alguma coisa? Vovô, o que você sabe sobre a guerra? Você tinha quantos anos em 1943? 13 anos. E lembro bem daquela época. Chico se sentou ao lado deles.
Helena escrevia cartas contando sobre as pessoas diferentes que apareciam na livraria. Estrangeiros falando línguas estranhas, gente bem vestida, mas com olhar assustado. Ela nunca mencionou ter escondido alguma coisa? Não diretamente, mas numa carta ela escreveu algo sobre guardar tesouros para tempos melhores. Achei que falava de livros. Eduardo e Lara se entreolharam.
Vovô, você guardou essas cartas? Algumas, sim, estão numa caixa no rio, mas lembro de uma coisa que ela sempre dizia: “Chico, os maiores tesouros não são feitos de ouro, são feitos de histórias”. Eduardo estudou o mapa novamente. Estas marcações agora fazem mais sentido. Não são para indicar ouro ou joias, são para indicar onde Helena escondeu histórias.
Que tipo de histórias? memórias, documentos pessoais, cartas, coisas que pessoas desesperadas deixaram com ela para garantir que não se perdessem. Lara sentiu um arrepio de emoção. Um tesouro de memórias. Exatamente. E Castelanos quer essas memórias por quê? Talvez porque algumas pessoas ainda estejam vivas. Talvez porque existam segredos que alguém não quer que venham à tona. Passaram o resto da manhã planejando. Seguiriam o mapa naquela tarde, começando pela Catedral Basílica.
Eduardo conhecia o padre responsável, o que facilitaria o acesso. “Mas se Castelanos apareceu ontem, pode estar nos vigiando.” Lara observou. “Por isso vamos ser cuidadosos e por isso você não vai sozinha a lugar nenhum.” A forma possessiva como ele disse isso fez algo se contrair no peito dela.
Eduardo, eu não sou uma donzela em perigo. Eu sei que não é, mas também sei que te amo demais para correr riscos desnecessários. Chico pigarreou. Crianças, posso sugerir uma coisa? Claro, vovô. Se vocês vão investigar isso, levem-me junto. Sou velho, mas sou esperto. E duas pessoas chamam menos atenção que três.
Eduardo olhou para Lara, que assentiu. Está decidido, então. Operação tesouro de Helena começa hoje à tarde. Às 3 da tarde, os três se dirigiram à Catedral Basílica. Eduardo havia ligado para o padre Miguel, explicando que precisava pesquisar alguns documentos históricos para um projeto de restauração. A catedral estava vazia na hora da siesta, apenas alguns turistas circulando em silêncio.
Padre Miguel, um homem de meia idade com olhos bondosos, os recebeu calorosamente. Eduardo, meu filho, que esta deve ser a famosa sobrinha de Helena. A cidade inteira está falando de você, padre Miguel. O senhor conhecia minha tia? Conhecia muito bem. Helena vinha aqui toda semana, acendia velas, ficava horas rezando, especialmente nos últimos anos.
Ela alguma vez mencionou ter deixado algo aqui, algum documento, alguma coisa guardada? O padre ficou pensativo. Há alguns meses antes de morrer, ela me entregou uma chave. Disse que um dia alguém com olhos iguais aos dela viria procurar. Lara sentiu o coração acelerar. A chave o senhor ainda tem? Tenho sim. E ela me disse exatamente onde usar. Padre Miguel sorriu.
Venham comigo. Ele os levou até uma pequena cripta abaixo do altar principal. O lugar era iluminado apenas por velas, criando sombras dançantes nas paredes de pedra. Ali ele apontou para uma pequena porta de madeira entalhada. Helena disse que a chave abriria essa porta quando chegasse a hora certa. Eduardo pegou a chave ornamentada que Lara havia encontrado e a inseriu na fechadura.
Encaixou perfeitamente. Dentro havia uma caixa de metal e dentro da caixa dezenas de envelopes lacrados com cera. “Meu Deus!”, Lara sussurrou. “Padre Miguel pegou um dos envelopes. Este aqui tem uma data, 1943, e um nome: família Goldstein. Goldstein?” Chico franziu a testa. Nome judeu. Helena ajudou famílias judias durante a guerra, Eduardo concluiu.
Guardou suas memórias, suas histórias. Havia envelopes com datas diferentes, nomes diferentes, nacionalidades diferentes, tudo cuidadosamente preservado e catalogado. “Isto é incrível”, Lara murmurou. Helena preservou a história de dezenas de pessoas. E agora entendo por castelanos quer isso, Eduardo disse sombriamente. Algumas dessas pessoas podem ter se envolvido em negócios pouco éticos durante a guerra, colaboração, por exemplo, e a gente poderosa que prefere que certas verdades nunca venham à tona.
O que fazemos com tudo isso? Padre Miguel se pronunciou. Helena me disse que quando chegasse a hora vocês saberiam o que fazer, que seguiriam o coração. Eduardo olhou para Lara e ela viu nos olhos dourados a mesma certeza que sentia. Fazemos o que Helena queria. Preservamos essas histórias. Entregamos ao museu às universidades.
Garantimos que essas memórias nunca se percam. E se castelanos tentar nos impedir? Eduardo pegou a mão dela. Então enfrentamos ele juntos. Na penumbra dourada da cripta, cercados por histórias de amor, perda, esperança e sobrevivência, Eduardo puxou Lara para seus braços. “Você é incrível”, ele sussurrou. Helena escolheu a pessoa certa para continuar seu trabalho.
“Nós somos incríveis”, ela corrigiu. “Elena não escolheu apenas a mim. Ela sabia que eu te encontraria. Como você pode ter tanta certeza? Porque Helena e seu pai se amaram, mas nunca tiveram coragem. Ela não nos deixaria cometer o mesmo erro. Eduardo sorriu, aquele sorriso que fazia o mundo dela girar mais devagar. Te amo, Lara Santos.
Te amo também, Eduardo Silva. Enquanto se beijavam na cripta iluminada por velas, cercados por tesouros de memórias e histórias de amor, nenhum dos dois sabia que castelanos havia descoberto onde estavam e que a verdadeira batalha estava apenas começando. A tempestade chegou sem aviso na madrugada de quinta-feira.
Lara acordou com o som de vento forte e chuva batendo violentamente nas janelas da livraria. Salvador estava sendo castigada por uma das tempestades tropicais mais intensas do verão. Desceu correndo para verificar a livraria e encontrou água começando a se infiltrar por uma das janelas mais antigas. Seu coração disparou.
Se a água atingisse os livros raros, seria uma perda irreparável. Estava tentando conter a infiltração com toalhas quando ouviu batidas na porta. Lara, abre aqui. Era Eduardo, encharcado da cabeça aos pés, carregando ferramentas e lonas plásticas. “Como você sabia?”, ela gritou por cima do barulho da chuva enquanto o deixava entrar. “Conheço esta construção.
Sabia que a janela leste ia vazar.” Ele tirou a camiseta molhada e, mesmo na situação desesperadora, Lara não conseguiu evitar admirar o torço definido. “Cadê seu Chico? dormindo. O vovô dorme como uma pedra. Melhor assim. Vamos ter trabalho. As próximas horas foram uma corrida contra o tempo.
Eduardo trabalhou rapidamente para vedar as infiltrações enquanto Lara movia os livros mais valiosos para áreas seguras. Estavam completamente encharcados, sujos, exaustos, mas trabalhavam em perfeita sincronia. Lara, pega aquela caixa ali. Eduardo, cuidado com essa estante, está muito pesado. Não, eu consigo. A cada crise resolvida, um novo problema surgia. Uma goteira no teto, outra janela ameaçando ceder, uma estante que começou a pender perigosamente.
Por volta das 4 da manhã, quando finalmente conseguiram controlar todos os vazamentos, ambos desabaram no sofá, exaustos. Lara estava com a roupa grudada no corpo, cabelos dourados escorrendo água, pequenos arranhões nos braços de tanto carregar caixas. Eduardo não estava melhor, sem camisa, calça jeans encharcada, cabelos castanhos colados na testa, pequenos cortes nas mãos das ferramentas.
“Conseguimos”, ela sussurrou. “Conseguimos”, ele concordou, puxando-a para seus braços. ficaram assim por um momento, apenas se abraçando, sentindo o calor um do outro, ouvindo a tempestade diminuir lá fora. Eduardo! Hum, obrigada por estar aqui, por me ajudar, por por quê? Por me amar. Ele se afastou para olhá-la.
Havia algo diferente em seus olhos dourados, uma intensidade nova, mais profunda. Lara Santos, você salvou a livraria da sua tia. Trabalhou a madrugada toda para proteger livros centenários. Se apaixonou por uma cidade inteira em três semanas. Ele acariciou seu rosto delicadamente. Como eu não te amaria, Eduardo? Não, deixa eu terminar.
Eu passei três anos construindo muros ao redor do meu coração. Três anos jurando que nunca mais me entregaria completamente a ninguém. Aí você apareceu na minha vida como um furacão, derrubou todos os muros e me fez querer ser o homem que meu pai nunca teve coragem de ser. Lágrimas se misturaram à água da chuva no rosto dela.
Que homem é esse? Um homem que luta pelo que quer, que não deixa o medo impedir a felicidade, que ama mulher extraordinária e não tem medo de gritar isso para Salvador inteira ouvir. Eduardo Silva, você é Ele não a deixou terminar, puxou-a para si e a beijou com uma paixão desesperada, como se quisesse transmitir tudo que sentia através daquele contato.
Lara respondeu na mesma intensidade, suas mãos se enroscando nos cabelos molhados dele, seu corpo se moldando ao dele, como se fossem feitos para se encaixar. Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. “Lara, eu quero você.” Ele sussurrou contra seus lábios. “Eu também te quero.
Tem certeza?” “Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida”. Eduardo se levantou e a puxou junto, suas mãos entrelaçadas. Então vem comigo. Para onde? Para o meu apartamento, para o meu quarto? Para o meu coração, se me deixar. Lara olhou nos olhos dourados e viu seu futuro refletido ali. Eduardo, eu já estou no seu coração, assim como você está no meu.
Subiram as escadas do antiquário em silêncio, mas havia uma eletricidade entre eles que tornava cada passo uma promessa. No apartamento dele, Eduardo acendeu algumas velas. criando uma atmosfera íntima e romântica. A tempestade lá fora havia se tornado apenas uma chuva suave, como se Salvador estivesse abençoando aquele momento. “Lara”, ele disse suavemente, se aproximando devagar.
“Se você quiser parar a qualquer momento.” Ela colocou um dedo nos lábios dele, silenciando-o. Eduardo Silva, para de falar e me ama. Ele sorriu, aquele sorriso devastador que fazia as pernas dela ficarem bambas. e a puxou para seus braços novamente. Com prazer, professora, com todo o prazer do mundo.
E ali, na intimidade do quarto de Eduardo, com as velas dançando nas paredes e a chuva cantando uma canção de ninar suave, Lara Santos e Eduardo Silva se entregaram completamente um ao outro. Foi perfeito, foi intenso. Foi como se duas almas que haviam se procurado por toda a vida finalmente se encontrassem.
Quando o sol nasceu sobre Salvador, pintando o céu de dourado e rosa, eles estavam entrelaçados nos braços um do outro, sussurrando palavras de amor, fazendo promessas de futuro. “Não quero que isso seja apenas uma noite”, Eduardo murmurou contra seu cabelo. “Não vai ser apenas uma noite”, ela respondeu, traçando pequenos círculos no peito dele. “Vai ser para sempre. Para sempre é pouco tempo, então teremos que aproveitar bem.
Eles riram e o som encheu o quarto de alegria pura. Do lado de fora, Salvador despertava para mais um dia, mas para Lara e Eduardo, o mundo havia mudado para sempre naquela madrugada tempestuosa. Eles não sabiam que Castelanos havia passado a madrugada inteira vigiando a livraria, esperando a tempestade passar para fazer sua jogada final e que a verdadeira tempestade em suas vidas estava apenas começando.
Lara acordou nos braços de Eduardo com a sensação de que o mundo havia se tornado mais brilhante da noite para o dia. A luz dourada da manhã baiana entrava pelas janelas, pintando o quarto em tons de mel, que combinavam perfeitamente com os olhos do homem que dormia ao seu lado.
Eduardo era ainda mais lindo dormindo, os traços aristocráticos relaxados, os cabelos castanhos bagunçados, uma expressão de paz que ela nunca havia visto quando ele estava acordado. Lara se permitiu alguns minutos apenas observando-o, memorizando cada detalhe.
Quando os olhos dourados se abriram e encontraram os dela, o sorriso que brotou em seu rosto foi como o sol nascendo. Bom dia, amor da minha vida. Bom dia, meu coração”, ela sussurrou, ainda não acreditando que poderia acordar todos os dias assim. Eles se beijaram languidamente, sem pressa, saboreando a intimidade nova entre eles. Mas a realidade logo se impôs quando ouviram a voz de Chico chamando do andar de baixo.
Netinha, cadê você? E que bagunça é essa na livraria? Eduardo riu contra os lábios dela. Acho que seu avô descobriu que você não dormiu em casa. Ele vai me matar. Não vai não. Ele gosta de mim. Gostar de você e aprovar que eu passe a noite aqui são coisas muito diferentes.
Mas quando desceram, Lara, usando uma das camisas de Eduardo, que ficou vastamente grande nela, encontraram Chico arrumando os livros que haviam sido movidos durante a tempestade. “Bom dia, crianças”, ele disse, sem nem levantar os olhos, um sorriso maroto brincando em seus lábios. Dormiram bem, vovô? Lara começou vermelha. Netinha, tenho 75 anos. Acho que posso lidar com o fato de que minha neta adulta tem uma vida amorosa.
Ele olhou para Eduardo, desde que seja com o homem certo. Eduardo se aproximou respeitosamente. Seu Chico, eu quero que saiba que minhas intenções com sua neta são completamente sérias. Minhas intenções com você também são sérias. Lara interrompeu. Esta não é apenas a conversa dele comigo, é nossa conversa com ele. Chico parou o que estava fazendo e olhou para os dois.
Eduardo com a mão protetora nas costas de Lara, ela encostada nele naturalmente, ambos brilhando com aquela luminosidade especial de pessoas recém apaixonadas. “Vocês se amam”, ele disse simplesmente. “Muito, Eduardo” confirmou, “então não preciso saber de mais nada. Só Chico se aproximou e colocou uma mão no ombro de cada um. Cuidem um do outro. O mundo pode ser perigoso para quem se ama de verdade.
Essas palavras proféticas se mostraram mais verdadeiras do que ele imaginava. Tarde da manhã, enquanto arrumavam a livraria, um homem desconhecido entrou, alto, forte, com cicatrizes no rosto e um olhar que fez Lara se arrepiar instantaneamente. Senrita Santos. Eduardo imediatamente se posicionou entre o estranho e Lara.
Em que posso ajudá-lo? Na verdade, é com a senhorita que quero falar sobre certas descobertas que ela pode ter feito recentemente. Não sabemos do que está falando Lara disse, tentando manter a voz firme. O homem sorriu, mas não havia nenhum humor naquele sorriso. Dr. Castelanos pensou que vocês diriam isso, por isso me enviou para esclarecer algumas coisas. Eduardo deu um passo à frente.
E você é alguém que resolve problemas para o Dr. Castelhanos. E vocês, meus jovens, estão se tornando um problema muito grande. Está nos ameaçando? Eduardo perguntou, sua voz carregada de uma frieza perigosa que Lara nunca ouvira antes. Estou oferecendo uma solução amigável. Entreguem tudo que encontraram da velha Helena.
Esqueçam que isso existiu e todo mundo continua vivendo suas vidas felizes. E se nos recusarmos? O sorriso do homem se tornou mais sinistro. Salvador é uma cidade perigosa. Acidentes acontecem, especialmente com casais jovens que andam sozinhos à noite. Lara sentiu o sangue gelar, mas Eduardo se manteve firme. Entendi o recado.
Agora sugiro que saia da nossa propriedade antes que eu chame a polícia. A polícia. O homem riu. Menino, você não sabe com quem está mexendo. Dr. Castelanos tem amigos em lugares muito altos. Depois que ele saiu, Lara começou a tremer. Eduardo imediatamente a puxou para seus braços. Hei, está tudo bem. Não vou deixar nada acontecer com você. Eduardo. Talvez devêsemos entregar os documentos.
Não vale a pena correr risco. Vale sim. Sua voz era firme, determinada. Aquelas são memórias de pessoas que sofreram, que perderam tudo, que confiaram em Helena para preservar suas histórias. Não posso trair essa confiança. Chico, que havia ouvido toda a conversa, se aproximou. O menino tem razão, netinha. Algumas coisas valem a pena lutar, mesmo que seja perigoso.
Eduardo segurou o rosto dela entre as mãos. Amor, eu prefiro viver um dia como homem de honra do que uma vida inteira como covarde. E sei que você sente o mesmo. Naquela noite, Eduardo se recusou terminantemente a deixar Lara sozinha na livraria. “Vou dormir no sofá lá embaixo”, ele anunciou.
“Não precisa, Eduardo.” “Preciso, sim. Não vou conseguir fechar os olhos, sabendo que você pode estar em perigo. Lara se aproximou e passou os braços ao redor do pescoço dele. Então, vem dormir aqui em cima comigo. Para que ficar desconfortável no sofá? Seu avô, meu avô já disse que aprova nosso relacionamento e eu sou uma mulher adulta.
Eduardo a beijou suavemente. Tem certeza? Tenho certeza de que te amo. Tenho certeza de que quero você ao meu lado e tenho certeza de que vamos enfrentar isso juntos. Juntos? Ele concordou. Naquela madrugada, enquanto Lara dormia segura nos braços de Eduardo, ele ficou acordado ouvindo cada ruído da rua, cada som suspeito.
Sua mente não parava de funcionar, planejando como proteger a mulher que amava. Uma coisa era certa. Se castelanos e seus homens quisessem chegar até Lara, teriam que passar por cima de seu cadáver primeiro. Eduardo Silva nunca havia se sentido tão protetor em relação a alguém. Cada fibra de seu ser estava em alerta máximo, pronto para defender a mulher que havia se tornado mais importante que sua própria vida.
Pela manhã, encontrou uma rosa negra deixada na porta da livraria com um bilhete. Última chance. Isso é um absurdo. Lara explodiu quando viu. Não podemos viver assim sendo ameaçados. Não vamos viver assim, Eduardo disse com uma determinação férrea. Hoje mesmo vamos à polícia, aos jornais, ao museu. Vamos tornar público tudo que encontramos.
Quando a história estiver nas manchetes, Castelanos não poderá mais nos ameaçar sem chamar atenção para si mesmo. É arriscado. Mais arriscado é ficar calados. Passaram o dia organizando cópias de todos os documentos, contactando historiadores, preparando um dossiê completo sobre a descoberta. Eduardo usou todos os seus contatos na área de patrimônio histórico para garantir que a história tivesse a repercussão necessária.
À tarde, quando saíam do jornal local, após dar uma entrevista, foram abordados pelo mesmo homem do dia anterior, mas desta vez ele não estava sozinho. “Vocês cometeram um erro muito grande”, ele disse, flanqueado por dois outros homens igualmente intimidadores. Eduardo empurrou Lara para trás dele, seus músculos tensionando para uma possível luta. O único erro foi o seu ao nos subestimar.
Ah, mo e o que um arquiteto metido a herói vai fazer contra nós três? Eduardo sorriu, mas havia algo perigoso naquele sorriso. Vai descobrir que alguns baianos não são tão pacíficos quanto parecem. O que aconteceu a seguir foi rápido e devastador. Eduardo havia praticado capoeira na juventude e os reflexos voltaram na hora que precisou.
Em menos de 2 minutos, os três homens estavam no chão, gemendo de dor. Lara, vamos. Ele pegou a mão dela e correram pelas ruas do pelourinho até chegarem à delegacia. Meu Deus, Eduardo, ela ogava. Onde aprendeu a lutar assim? Crescer nas ruas de Salvador ensina algumas coisas e said, verificando se ela não havia se machucado.
Está bem? Machucou alguma coisa? Estou bem, mas você você lutou por mim. Eduardo parou de caminhar e a puxou para seus braços ali mesmo na rua. Lara Santos, eu mataria por você, morreria por você, faria qualquer coisa para te proteger. Eduardo, te amo mais que a minha própria vida.
Enquanto se beijavam no meio da rua, sem se importar com quem pudesse estar vendo, ambos sabiam que haviam cruzado uma linha. Agora era tudo ou nada. Na delegacia, o delegado Rocha os ouviu com atenção crescente. Quando mencionaram o nome castelanos, sua expressão ficou sombria. Esse homem é perigoso. Tem tentáculos em vários negócios escusos na cidade, mas nunca conseguimos provas suficientes contra ele.
E agora? Agora temos as ameaças, a tentativa de extorção, a agressão. Com o testemunho de vocês e os documentos históricos como evidência do motivo, posso finalmente agir. Saíram da delegacia com a promessa de que Castelano seria investigado, mas Eduardo ainda não estava tranquilo. “Vamos ficar no meu apartamento até isso se resolver.” Ele decidiu.
“Você, eu e seu avô. Não quero vocês sozinhos na livraria. Eduardo, você não pode viver nossa vida por nós. Ele parou e a encarou seriamente. Lara, quando você passou a ser a coisa mais importante da minha vida, proteger você se tornou minha prioridade número um. Se isso te incomoda, então não me incomoda. Ela o interrompeu, tocando seu rosto delicadamente.
Na verdade, me deixa completamente perdida de paixão por você. É mesmo? Completamente perdida, desesperadamente apaixonada. irremediavelmente sua. Eduardo a beijou ali mesmo na calçada, sem se importar com nada além da sensação dos lábios dela contra os seus. Naquela noite, no apartamento de Eduardo, os três jantaram como uma família.
Chico contava histórias engraçadas para aliviar a tensão. Eduardo cozinhava com uma habilidade que surpreendeu Lara. E ela se sentia mais em casa do que nunca havia se sentido em qualquer lugar. Vocês dois vão se casar”, Chico declarou de repente no meio da sobremesa. “Vovô, é óbvio, vocês se amam, se protegem, cuidam um do outro. É só uma questão de tempo.
” Eduardo e Lara se entreolharam, ambos corando. “Bem”, Eduardo disse devagar. “Não seria a pior ideia do mundo.” O coração de Lara disparou. Eduardo Silva, isso foi um pedido? Foi uma sondagem para ver se você seria completamente contra a ideia. E se eu disser que não seria? Aí eu faria a pergunta de verdade. Na hora certa, no lugar certo, do jeito certo. Chico sorriu satisfeito.
Vou começar a pensar no meu discurso de padrinho. Mais tarde, no quarto, enquanto Lara descansava nos braços de Eduardo, ele sussurrou no escuro: “Eu te amo além de qualquer palavra que exista. E eu te amo além de qualquer sentimento que já senti. Não importa o que aconteça com castelanos, com os documentos, com qualquer coisa.
Nós vamos ficar juntos para sempre, para sempre e mais um dia. Mas o que eles não sabiam era que Castelanos, humilhado pela derrota de seus homens e pela investigação policial, estava planejando uma última jogada desesperada, uma jogada que testaria o amor deles até os limites. Amanhã trouxe notícias extraordinárias.
O jornal local havia publicado uma matéria de primeira página sobre o tesouro histórico de Helena Santos, com fotos dos documentos e depoimentos de historiadores sobre a importância da descoberta. Pronto, Eduardo disse, mostrando o jornal para Lara. Agora é domínio público. Castelanos não pode mais tentar esconder isso. O telefone da livraria não parou de tocar.
Museus, universidades, pesquisadores, todos querendo saber mais sobre os documentos. Lara se sentia orgulhosa e emocionada por estar honrando a memória de Helena. Sua tia seria muito orgulhosa Eduardo disse, passando os braços ao redor dela enquanto ela atendia mais uma ligação.
Nossa tia, ela corrigiu, porque agora você faz parte da família. O sorriso que brotou no rosto dele foi radioso. Gosto de como isso soa. À tarde, receberam a visita do Dr. Morais, o advogado que havia contatado Lara inicialmente. Senrita Santos, Senr. Silva, tenho excelentes notícias. A descoberta dos documentos adicionou um valor histórico inestimável à propriedade.
Além disso, o governo do estado está interessado em transformar a livraria em um centro cultural oficial. O que isso significa?”, Lara perguntou. Significa recursos para restauração, manutenção, eventos culturais. Significa que o legado de Helena será preservado para sempre. Eduardo apertou a mão de Lara, ambos emocionados com a possibilidade. “Eá mais uma coisa.” Dr.
Morais continuou. Dr. Castelanos foi preso esta manhã. A investigação revelou várias irregularidades em seus negócios. Vocês não precisam mais se preocupar com ele. Lara sentiu como se um peso enorme houvesse saído de seus ombros. Eduardo a puxou para um abraço apertado. Acabou, ele sussurrou. Acabou, amor.
Naquela noite, Salvador celebrava o festival de inverno. As ruas do Pelourinho estavam cheias de música, dança, cores e alegria. Eduardo levou Lara para dançar na praça e ela nunca se sentira tão feliz. Eduardo Silva. Você dança muito bem para um antiquário. Sou um homem de muitos talentos, professora Santos. Quais outros talentos você tem que eu ainda não descobri? Ele a girou elegantemente na dança, puxou-a de volta para seus braços e sussurrou no ouvido dela. Tenho talento para fazer você feliz para o resto da vida.
Se me deixar. O coração dela parou. Eduardo. Espera. Ele parou de dançar no meio da música. Não, aqui. Vem comigo. Eduardo a levou de volta à livraria. Subiu com ela até o terraço que ela nem sabia que existia. De lá podiam ver toda Salvador se estendendo até a baía de todos os santos, iluminada pelas luzes da festa.
“É lindo”, ela sussurrou. “Não tanto quanto você.” Quando ela se virou para olhá-lo, Eduardo estava ajoelhado no chão de pedra do terraço, segurando um anel que brilhava sob a luz das estrelas. “Oh, meu Deus!”, ela murmurou, as mãos voando para cobrir a boca. Lara Santos, há seis semanas você entrou na minha vida como um furacão e mudou tudo.
Me ensinou que o amor verdadeiro existe, que vale a pena lutar por ele, que duas pessoas podem se completar de forma tão perfeita que se torna impossível imaginar a vida separados. Lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela. Você é minha melhor amiga, minha amante, minha companheira de aventuras, minha parceira em tudo.
Você é a mulher que eu quero ao meu lado todos os dias pelos próximos 60 anos. Eduardo, este anel pertenceu à Helena. Encontrei entre as coisas de meu pai. Ele deve ter guardado para ela, esperando uma oportunidade que nunca chegou. Os olhos dourados de Eduardo brilhavam de emoção. Não quero cometer o mesmo erro dele. Não quero passar um dia sequer sem você saber o quanto te amo.
Lara estava chorando abertamente agora. Lara Santos, minha baiana de coração, quer se casar comigo, quer construir uma vida comigo? Quer ser minha esposa, minha família, meu para sempre? Sim. A resposta explodiu dela. Sim. Sim. Mil vezes sim. Eduardo deslizou o anel no dedo dela, encaixou perfeitamente, como se tivesse sido feito para ela, e se levantou para beijá-la com toda a paixão, todo o amor, toda a promessa de futuro que sentia.
“Te amo, te amo, te amo”, ela sussurrava entre beijos. “E eu te amo mais que as estrelas, mais que ao mar, mais que à vida. do terraço podiam ouvir os fogos de artifício do festival explodindo sobre a cidade, mas para eles parecia uma celebração particular de seu amor. Eduardo? Sim, meu amor. Quando? Quando o quê? Quando vamos nos casar? Porque agora que disse sim, não quero esperar muito.
Ele riu, aquela risada grave e calorosa que ela amava. Que tal no fim do verão? Março. Isso nos dá tempo para organizar tudo direito. Março parece perfeito. E onde você quer que seja? Lara olhou ao redor do terraço para Salvador, se estendendo abaixo deles, para a livraria que tinha trazido eles juntos. Aqui quero me casar aqui, onde tudo começou.
Na livraria, no pátio da livraria, com hibiscos vermelhos e toda Salvador como testemunha. Eduardo a beijou novamente. Vai ser o casamento mais lindo que esta cidade já viu. Vai ser perfeito, porque vai ser nosso. Passaram horas no terraço planejando o futuro, contando sonhos, fazendo promessas. Quando finalmente desceram, encontraram Chico esperando na sala com uma garrafa de champanhe. Então, ele perguntou com um sorriso sapiente.
Lara mostrou o anel. Vamos nos casar. Graças a Deus. Estava começando a achar que vocês dois eram lentos demais para o próprio bem. Os três brindaram ao futuro, ao amor, a família que haviam se tornado. Helena estaria muito feliz, Chico disse. Finalmente, alguém da família conseguiu o que ela não teve coragem de lutar. Eduardo olhou para Lara e ambos sabiam que Chico estava certo.
Eles haviam conseguido o que Helena e Carlos nunca tiveram, coragem para amar sem medo. E isso fazia toda a diferença no mundo. Seis meses depois do noivado, a livraria havia se transformado no centro cultural mais movimentado de Salvador. Bara coordenava eventos literários, Eduardo supervisionava as restaurações históricas e Chico se tornara o contador oficial de histórias para visitantes.
Estava sendo o período mais feliz da vida de Lara, mas uma descoberta surpreendente estava prestes a mudar tudo novamente. Era uma manhã de março, três semanas antes do casamento, quando Lara encontrou uma carta escondida dentro da moldura de um quadro antigo que Eduardo estava restaurando. Eduardo, vem ver isso. A carta era diferente das outras que haviam encontrado.
Esta estava endereçada simplesmente à minha querida sobrinha e datada de apenas seis meses antes da morte de Helena. Minha querida sobrinha, se você está lendo isto, significa que encontrou o homem certo. Aquele com olhos dourados que herdou o coração nobre de seu pai. Eu sabia que isso aconteceria, porque algumas coisas são destino. Preciso contar a verdade sobre Carlos e eu. Não fomos covardes como vocês devem ter pensado. Fomos impedidos.
Carlos havia decidido se declarar para mim em 1987. Tínhamos combinado de nos encontrar na igreja. Ele traria Eduardo, que tinha apenas 8 anos na época, para me conhecer oficialmente. Seria nosso primeiro encontro como família. Mas naquela manhã recebi uma visita terrível.
Um homem chamado Vittor Castelanos, pai do homem que vocês conheceram. Ele me mostrou fotos de Carlos comigo, disse que sabia sobre nossos sentimentos mútuos. Me chantagiou. Castelanos estava envolvido em negócios ilegais de arte durante a ditadura militar. Sabia que Carlos, como arquiteto respeitado, nunca se envolveria com ele se soubesse a verdade.
Mas se Carlos se casasse comigo, Castelanos usaria nosso relacionamento para chantageá-lo e forçá-lo a autenticar peças roubadas. Se vocês ficarem juntos, ele disse, destruirei a reputação de Carlos e farei com que percam a custódia do menino Eduardo. Na época, isso era possível. Eu não podia permitir que Carlos perdesse o filho por minha causa, então fingi não ter interesse nele. Menti, dizendo que havia encontrado outro homem.
Vi o coração dele se quebrar, mas foi a única forma de proteger a família que ele já tinha. Carlos nunca soube a verdade. Morreu, achando que eu não o amava. Guardei todos os documentos históricos como forma de redenção. Se não pude salvar nosso amor, pelo menos salvaria as histórias de outras pessoas.
O filho de castelanos tentou chantagem com vocês pelos mesmos motivos que o pai usou comigo. Há documentos ali que provam a participação da família deles em crimes durante a ditadura. Mas vocês foram corajosos onde nós fomos covardes. Lara, você escolheu lutar pelo amor. Eduardo escolheu te proteger em vez de ceder ao medo. Vocês quebraram o ciclo de covardia da nossa família.
Agora a verdade está livre. Vivam o amor que Carlos e eu nunca pudemos viver. Com todo o meu amor e admiração, tia Helena. PS: No jardim atrás da livraria, sob a Rzeira Branca, enterrei nossa única foto juntos. Carlos a enviou para mim em 1988. Talvez Eduardo goste de tê-la.
Lara terminou a carta com lágrimas escorrendo pelo rosto. Eduardo estava igualmente emocionado. Ela sacrificou a felicidade dela para proteger meu pai e a mim, ele disse com voz rouca. E seu pai nunca soube que ela o amava de verdade. Que tragédia terrível. Dois corações que se amavam destruídos por um homem ganancioso. Foram imediatamente ao jardim e cavaram sob a rosezeira branca.
Lá estava uma pequena caixa metal com uma foto desbotada. Helena e Carlos juntos. Ela com seus olhos verdes brilhando de felicidade. Ele sorrindo com o mesmo sorriso que Eduardo Herdara. Ela era linda. Lara sussurrou. E eles pareciam tão felizes. Imagine o amor que eles sentiram para abrir mão da felicidade para proteger outras pessoas.
Eduardo segurou Lara contra si e ela podia sentir as lágrimas dele caindo em seu cabelo. Lara, promete uma coisa. Qualquer coisa, que nunca vamos deixar nada, nem ninguém nos separar, que vamos lutar por nosso amor até o último suspiro. Prometo que você me promete a mesma coisa. Prometo. Naquela tarde decidiram fazer algo que Helena e Carlos nunca puderam fazer. Foram ao cemitério, onde ambos estavam enterrados.
Curiosamente, em túmulos lado a lado, embora tivessem morrido com anos de diferença. Tia Helena, tio Carlos! Eduardo falou suavemente, segurando a mão de Lara. Viemos contar que vocês não falharam. O amor de vocês permitiu que nosso amor existe. Não foi em vão. Lara colocou a foto antiga entre os dois túmulos.
Obrigada por nos ensinarem que o verdadeiro amor às vezes significa sacrifício, mas também nos ensinaram que vale a pena lutar por ele. Quando saíam do cemitério, Lara parou abruptamente. Eduardo, acabei de perceber uma coisa. O quê? A data carta de Helena. Ela escreveu isso seis meses antes de morrer. Seis meses antes de você me conhecer. E daí? Ela sabia.
De alguma forma, ela sabia que você era o homem certo para mim. Ela planejou tudo, a herança, a condição de eu morar aqui, tudo. Eduardo ficou pensativo. Você acha que ela sabia que eu te amaria? Acho que ela apostou no destino. Apostou que se duas pessoas certas se encontrassem no lugar certo, o amor aconteceria naturalmente. E ela estava certa. Estava completamente certa.
Naquela noite, duas semanas antes do casamento, Lara e Eduardo fizeram amor com uma intensidade nova, como se a descoberta da verdade sobre Helena e Carlos tivesse aprofundado a conexão deles. Eles sabiam agora que seu amor não era apenas sobre eles, era a realização de um sonho que duas gerações anteriores haviam sacrificado.
Eduardo! Lara sussurrou no escuro: “Não importa o que aconteça na vida, nunca vamos esquecer o que aprendemos hoje. O que aprendemos? Que o amor verdadeiro é uma herança. Passa de geração para geração. Helena e Carlos plantaram sementes de amor que floresceram em nós. E que sementes nós vamos plantar para as próximas gerações?” Lara sorriu no escuro, sua mão se movendo instintivamente para o ventre ainda plano.
Havia algo que ela ainda não havia contado a Eduardo, algo que descobrira naquela manhã antes de encontrar a carta. Talvez seja hora de você descobrir. O casamento de Lara Santos e Eduardo Silva aconteceu numa manhã dourada de março no pátio da livraria Helena. Salvador havia acordado perfumada com o cheiro de dendê e flores, como se a própria cidade estivesse celebrando.
Lara usava um vestido simples e elegante de renda branca, com detalhes bordados que Chico havia encomendado especialmente. Seus cabelos dourados estavam soltos, adornados apenas com pequenas flores de hibisco vermelho. Ela estava radiante, mas havia um brilho especial em seus olhos que intrigava Eduardo. Eduardo usava um terno de linho branco que realçava sua beleza máscula.
Quando viu Lara descendo as escadas da livraria, seus olhos dourados se encheram de lágrimas de emoção. “Ela está linda”, sussurrou para Chico, que oficiaria a cerimônia como celebrante autorizado. “Está radiante.” Chico concordou com um sorriso misterioso. “E por breve. A cerimônia foi íntima e perfeita.
Além de Chico, estavam presentes apenas alguns amigos próximos, dona Conceição, que chorou durante toda a cerimônia, e padre Miguel, que deu uma bção especial ao casal. Quando chegou a hora dos votos, Eduardo segurou as mãos de Lara e falou com voz emocionada: “Lara, você chegou na minha vida como um presente que eu não sabia que merecia.
me ensinou que o amor pode ser forte sem ser possessivo, que pode ser intenso sem ser destrutivo. Prometo te amar com a mesma coragem que você me ensinou a ter, te proteger com a mesma devoção que você me inspira e te fazer feliz todos os dias pelos próximos 1000 anos.
Lara, com lágrimas de felicidade nos olhos, respondeu: “Eduardo, você me fez descobrir que eu estava vivendo apenas metade de uma vida até te encontrar. Você é meu lar, minha aventura, minha paz e minha paixão. Prometo te amar com todo o meu coração, te apoiar em todos os seus sonhos e construir com você uma família baseada no mesmo amor que nos trouxe até aqui.
Quando Chico os declarou marido e mulher, Eduardo beijou Lara com tanta paixão que os presentes aplaudiram emocionados. Durante a pequena festa que se seguiu no pátio da livraria, Lara puxou Eduardo para um canto mais reservado. Amor, tem um presente de casamento para você, Lara. Só você já é presente suficiente para toda uma vida.
Ela sorriu, pegou a mão dele e colocou sobre seu ventre ainda plano. E se eu dissesse que nossa família vai crescer mais cedo do que imaginávamos? Eduardo ficou paralisado. Você está dizendo que estou grávida, meu amor. Três meses. Descobri ontem, no mesmo dia que encontramos a carta de Helena. A expressão de Eduardo passou por 50 emoções diferentes em do segundos.
Surpresa, alegria, medo, euforia, lágrimas. Um bebê. Nosso bebê. Nosso bebê. Eduardo a puxou para seus braços e a girou no ar, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Meu Deus, Lara, um bebê. Vamos ter um bebê. Chico se aproximou com um sorriso sapiente. Imaginei que era isso que estava deixando minha neta tão radiante. Você sabia? Eduardo perguntou. Sou velho, não sou cego.
Uma mulher grávida tem um brilho especial e Lara está brilhando há dias. O resto da festa se tornou ainda mais especial com a notícia. Dona Conceição chorou de alegria. Padre Miguel deu uma bênção especial para o bebê e todos brindaram ao futuro da família Silva Santos. Naquela noite, na lua de mel, improvisada no próprio apartamento acima da livraria, Eduardo e Lara fizeram amor com uma ternura nova, reverente, conscientes da vida que crescia entre eles. “Como você se sente?”, Eduardo perguntou. acariciando delicadamente o
ventre dela. Como se tudo na minha vida finalmente fizesse sentido. A herança de Helena, me mudar para Salvador, te encontrar, nos apaixonarmos, tudo levou a este momento. Nosso filho vai crescer ouvindo histórias de livros, cercado de arte, conhecendo a história de amor dos pais e dos bisavós, e vai crescer, sabendo que o amor verdadeiro existe, que vale a pena lutar por ele e que algumas pessoas têm a sorte de encontrá-lo. Eduardo beijou sua barriga suavemente. Oi, pequeno.
Sou seu papai e posso te garantir que você vai ser muito amado. Lara passou os dedos pelos cabelos dele. Que nome você gostaria? Se for menina, Helena, em homenagem à mulher que nos trouxe juntos. E se for menino, Carlos Eduardo, para honrar os dois homens que me ensinaram sobre amor e honra. Perfeito.
Três meses depois, quando Lara começou a mostrar a gravidez, a livraria havia se tornado o lugar mais romântico de Salvador. Casais vinham de toda a Bahia para ouvir a história de Helena e Carlos, de Eduardo e Lara, para se casar no mesmo pátio onde o amor havia triunfado.
“Viramos uma lenda”, Lara ria observando mais um casal pousando para fotos na entrada da livraria. Não viramos lenda, nos tornamos prova de que contos de fada existem. Eduardo a abraçou por trás, suas mãos se posicionando protetoramente sobre a barriga que já começava a crescer. Eduardo: “Sim, amor da minha vida. Obrigada.
Por quê? por terme ensinado que o amor pode ser simples e extraordinário ao mesmo tempo por ter lutado por nós, por terme dado uma família, um lar, um futuro. Obrigado você por ter transformado um antiquário solitário no homem mais feliz de Salvador. Aquela tarde dourada, com a baía de todos os santos brilhando ao longe e o perfume de hibisco enchendo o ar, Eduardo Silva e Lara Santos Silva sabiam que haviam encontrado algo mais raro que qualquer tesouro histórico.
Haviam encontrado um amor que duraria para sempre. Seis meses depois, quando pequena Helena Silva nasceu com os olhos verdes da mãe e o sorriso do pai, Chico segurou a neta nos braços e sussurrou: “Bem-vinda ao mundo, pequena! Você nasceu de uma história de amor que começou muito antes de seus pais se conhecerem e vai continuar muito depois que todos nós não estivermos mais aqui.
Porque o amor verdadeiro é assim, é eterno. E na livraria Helena, entre milhares de histórias de amor escritas em livros antigos, mais uma história começava a ser escrita, a de uma família construída sobre a coragem de amar sem medo, a generosidade de proteger quem se ama e a sabedoria de saber que alguns tesouros valem mais que ouro, valem a vida inteira. M.