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O sol da tarde descia preguiçoso sobre a serra da mantiqueira, tingindo de dourado os cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava. Na varanda da casa sede da fazenda Serra Dourada, o aroma de café recémcoado se misturava com o perfume das jabuticabeiras em flor, criando aquela atmosfera que só Minas Gerais consegue proporcionar.
Luía Fernandes ajeitou os cabelos castanhos que o vento insistia em jogar sobre seus olhos e soprou a superfície da xícara, tentando esfriar o líquido fumegante. Aos 24 anos, ela já era considerada uma das melhores veterinárias da região, tendo-se formado com louvor e conquistado o respeito de todos os funcionários da fazenda nos três anos em que trabalhava ali.
Dona Fernanda, esse café está divino, como sempre”, disse ela para a cozinheira, uma senhora de bochechas rosadas que comandava a cozinha da sede com mão de ferro e coração de manteiga. Fernanda sorriu, revelando as covinhas que o tempo não conseguira apagar. “Segredo de família, minha filha. Minha avó já fazia assim.
Minha mãe aprendeu com ela e eu aprendi com minha mãe. 100 anos de tradição nessa receita. Na varanda, além das duas, estavam Gustavo, o gerente da fazenda, um homem de meia idade, com bigode grisalho e olhar perspicaz, e dois vaqueiros mais jovens, Pedro e Joaquim, que descansavam após um longo dia de trabalho nos pastos.
A conversa fluía leve, como costumava acontecer naquele horário. Era o momento em que todos relaxavam, antes que as obrigações do fim de tarde os chamassem de volta à realidade. “E você, Luía?”, perguntou Pedro. Um rapaz de sorriso fácil e curiosidade sem fim. Três anos aqui e a gente quase não sabe nada da sua vida lá fora. Tem namorado escondido na cidade? Luía sentiu as bochechas esquentarem.
Não era a primeira vez que alguém fazia esse tipo de pergunta, mas nunca ficava mais fácil responder. Não tenho namorado não ela murmurou, focando intensamente na xícara entre suas mãos. Ah, mas uma moça bonita assim. Joaquim entrou na conversa genuinamente surpreso. Os rapazes da cidade devem fazer fila.
O silêncio que se seguiu foi carregado de expectativa. Luía podia sentir todos os olhares sobre ela e algo dentro de si simplesmente cedeu. Talvez fosse o cansaço, talvez fosse a atmosfera acolhedora daquela varanda, ou talvez fosse simplesmente o peso de carregar aquele segredo por tanto tempo. Na verdade, ela começou, a voz quase um sussurro. Eu nunca namorei, nunca, nunca nem beijei ninguém.
As palavras saíram antes que ela pudesse contê-las e imediatamente Luía quis poder engoli-las de volta. O silêncio que se instalou na varanda foi absoluto, quebrado apenas pelo canto de um sabiá ao longe. Dona Fernanda foi a primeira a reagir, pousando a mão rechonchuda sobre o braço de Luía, com uma gentileza maternal. Ora, menina, isso não é motivo de vergonha. Cada um tem seu tempo.
O amor certo chega na hora certa. Mas Luía viu as sobrancelhas erguidas de Pedro e Joaquim, o olhar pensativo de Gustavo, e soube que aquela informação não ficaria contida naquela varanda. Em fazenda, notícia corre mais rápido que cavalo assustado. E ela estava certa.
Em menos de 24 horas, cada funcionário da Serra Dourada já sabia que a Dra. Luía, a veterinária competente e dedicada que salvava bezerros e curava cavalos. Era uma mulher de 24 anos que nunca havia experimentado um beijo. O que Luía não sabia, o que ninguém ali poderia imaginar, era que essa informação estava prestes a chegar aos ouvidos da última pessoa que ela esperaria, Bernardo Monteiro, o dono da fazenda.
E quando chegasse, mudaria absolutamente tudo. Bernardo Monteiro acordou naquela manhã, como acordava todas as outras, antes do sol nascer, com o canto dos galos servindo de despertador natural. Aos 35 anos, ele carregava nos ombros largos a responsabilidade de uma das maiores fazendas de café e gado da região, herança de três gerações de monteiros que haviam transformado aquela terra em sinônimo de qualidade e tradição.
Ele se olhou no espelho do banheiro da casa sede enquanto fazia a barba. Os olhos castanhos, quase da cor do café que cultivava, devolviam-lhe um olhar cansado. O maxilar, firme, estava tenso, como sempre ficava quando ele pensava demais. E ultimamente Bernardo andava pensando demais. Desceu para a cozinha, ainda com os cabelos úmidos, encontrando dona Fernanda já em plena atividade.
O aroma de pão de queijo fresco dominando o ambiente. Bom dia, dona Fernanda. Bom dia, seu Bernardo. Senta aí que já trago seu café. Ele se acomodou na grande mesa de madeira maciça, a mesma onde seu avô tomava café décadas atrás, e deixou os pensamentos vagarem enquanto esperava. Foi quando Gustavo entrou, trazendo consigo aquele ar de quem tem novidade para contar. Patrão, bom dia.
Tudo bem por aqui? Tudo, Gustavo. Algum problema nos pastos? Não, não, nada disso. O gerente sentou-se à mesa, aceitando a xícara que dona Fernanda lhe ofereceu. Só queria, bem, o senhor sabe como é fazenda, né? As fofocas correm. Bernardo ergueu uma sobrancelha esperando. É sobre a doutora Luía. Gustavo continuou baixando a voz como se compartilhasse um segredo de estado.
Parece que ela confessou ontem na varanda que nunca namorou, nunca beijou ninguém. Pode acreditar? Bernardo parou com a xícara a meio caminho da boca. Algo estranho aconteceu em seu peito. Uma sensação que ele não conseguiu identificar imediatamente. E daí? Ele perguntou, tentando parecer indiferente. Isso é assunto dela. Ah, com certeza, com certeza. Gustavo concordou rapidamente.
Só comentei porque o pessoal todo está falando. A moça é bonita, inteligente, trabalhadeira. O povo está achando estranho, só isso. Bernardo não respondeu. Terminou seu café em silêncio, pegou o chapéu pendurado atrás da porta e saiu para sua ronda matinal.
Mas enquanto caminhava entre os cafezais, a informação que Gustavo trouxera martelava em sua mente. Luía. Ele a conhecia há três anos, desde que ela aparecera na fazenda, recém formada e cheia de entusiasmo, candidatando-se à vaga de veterinária. Bernardo lembrava-se de ter ficado impressionado com sua competência desde o primeiro dia, quando ela salvou um potro que todos já davam por perdido, mas ele sempre mantivera distância.
Era uma regra que impusera a si mesmo desde que assumira a fazenda. Nada de envolvimentos com funcionários. Vira o próprio pai sofrer por causa disso, quando se apaixonou por uma empregada que acabou indo embora e levando metade de seu coração junto, Bernardo jurara que nunca cometeria o mesmo erro e por três anos manteve sua palavra.
Tratava Luía com cordialidade profissional, elogiava seu trabalho quando necessário, mas nunca permitiu que a relação ultrapassasse os limites do estritamente necessário. Então, por que agora saber que ela nunca havia sido beijada? fazia seu coração bater de forma tão estranha. Ele parou diante de um pé de café carregado de frutos vermelhos e balançou a cabeça tentando afastar aqueles pensamentos. Era ridículo. Ele tinha 35 anos, comandava uma fazenda enorme.
Não era nenhum adolescente para ficar pensando nessas coisas. Mas quando avistou Luía ao longe, caminhando em direção ao estábulo com sua maleta de veterinária na mão, algo dentro dele se moveu. Ela vestia uma calça jeans simples e uma camisa xadrez azul, os cabelos presos em um rabo de cavalo que balançava a cada passo. Não havia nada de extraordinário naquela cena.
Ele a vira assim centenas de vezes, mas hoje, inexplicavelmente, era como se a estivesse vendo pela primeira vez. Naquela noite, Bernardo não conseguiu dormir. Ficou encarando o teto do quarto, repassando na mente cada interação que já tivera com Luía. E quando finalmente o sono veio, foi para trazer sonhos que ele preferia não ter tido.
No dia seguinte, ele acordou com uma decisão tomada, ainda que não soubesse exatamente qual. Encontrou um pedaço de papel na gaveta da escrivaninha e, com a caligrafia firme que o caracterizava, escreveu: “Não esqueça de almoçar. B deixou o bilhete discretamente sobre a bancada do estábulo, onde sabia que Luía o encontraria, e se afastou rapidamente, o coração batendo como não batia há anos.
Era apenas um bilhete, não significava nada. Pelo menos era isso que ele tentava dizer a si mesmo. Luía encontrou o primeiro bilhete quando entrou no estábulo naquela manhã. O papel dobrado estava sobre a bancada, onde ela costumava organizar seus instrumentos.
E por um momento ela pensou que fosse algum recado sobre um animal que precisava de atendimento, mas quando abriu e leu as palavras, não esqueça de almoçar. B. Seu coração deu um salto que ela não esperava. B. Bernardo, o patrão. Ela olhou ao redor, como se esperasse encontrá-lo escondido em algum canto, observando sua reação. Mas estava sozinha, apenas os cavalos em suas baias, mastigando feno com aquela tranquilidade característica.
Por que Bernardo Monteiro, o homem mais reservado e distante que ela conhecia, deixaria um bilhete assim para ela? Devia ser algum engano, ou talvez fosse direcionado a outra pessoa e acabara no lugar errado. Mas ali estava claro como o dia. Não esqueça de almoçar. Luís aguardou o bilhete no bolso da calça, tentando ignorar o calor que subia por seu pescoço, e se concentrou no trabalho. Tinha uma égua prenha para examinar e um bezerro com suspeita de verminose.
Não tinha tempo para ficar pensando em bilhetes misteriosos, mas o bilhete parecia ter ganhado vida própria dentro de seu bolso, pulsando silenciosamente, lembrando-a de sua presença a cada movimento. No dia seguinte, havia outro. Leve um casaco, vai esfriar na serra. B. E no dia depois desse, o pô do sol hoje vai estar bonito.
Observe da colina leste. B. Uma semana se passou e Luía havia acumulado sete bilhetes, sete pequenos pedaços de papel com mensagens curtas, todas assinadas com aquele B, que fazia seu estômago revirar de formas que ela não conseguia explicar. Ela não contou a ninguém. guardou cada bilhete em uma caixa de madeira que mantinha no alojamento dos funcionários, onde dormia desde que chegara à fazenda.
À noite, antes de dormir, às vezes os relia, tentando decifrar o que significavam, mas não eram apenas os bilhetes. Bernardo começou a aparecer em lugares onde normalmente nunca estaria. Quando Luía foi até o Pasto Norte verificar uma vaca que estava mancando, ele surgiu de jip, oferecendo carona de volta.
Quando a cerca perto de seu alojamento apareceu quebrada, foi ele mesmo quem apareceu com ferramentas para consertá-la, dispensando os funcionários que normalmente fariam o serviço. “O senhor não precisa se incomodar”, Luía dissera sem jeito, vendo-o trabalhar sob o sol do meio-dia. “Não é incômodo”, ele respondera sem encará-la diretamente, concentrado em pregar as tábuas.
“Faz parte das minhas funções garantir que todos os funcionários tenham condições adequadas”. Ela queria acreditar que era apenas isso, o patrão zeloso cumprindo suas obrigações, mas o modo como as orelhas dele ficaram vermelhas quando suas mãos se tocaram acidentalmente ao passar o martelo, aquilo não parecia zelo profissional.
Dona Fernanda foi a primeira a comentar durante uma de suas conversas na cozinha: “Menina, você percebeu que seu Bernardo anda diferente ultimamente?” Luía quase derrubou a xícara de café. Diferente como, sei lá. mais presente, mais atencioso. A cozinheira tinha um brilho maroto nos olhos. Ontem ele veio aqui três vezes perguntar se você já tinha almoçado. Três vezes. Deve ser coincidência, Luía murmurou, mas seu coração contava uma história diferente. Coincidência? Sei.
Dona Fernanda Riu. Conheço Bernardo desde que ele nasceu. Troquei as fraldas dele, vi ele crescer e se tornar esse homem fechado que é hoje. Nunca, em todos esses anos, vi ele se preocupar assim com alguém. Nunca. Luía não soube o que responder.
Saiu da cozinha com as faces ardendo e uma confusão imensa na cabeça. O que estava acontecendo? E por, apesar de toda a confusão, ela se pegava esperando ansiosamente pelo próximo bilhete. A resposta para a primeira pergunta viria mais cedo do que ela imaginava e chegaria na forma de um homem que estava prestes a bagunçar ainda mais a situação. Caio Rezende chegou à fazenda Serra Dourada em uma manhã de terça-feira, dirigindo um carro importado que parecia completamente deslocado nas estradas de terra da região. era um homem bonito, isso ninguém podia negar. Com seus 30 anos,
cabelos loiros cuidadosamente penteados e um sorriso que parecia ter sido ensaiado diante do espelho, ele havia sido contratado como o novo agrônomo, trazendo consigo um currículo impressionante e a promessa de modernizar a produção de café da fazenda.
Bernardo fizera a contratação a contragosto, pressionado pelos acionistas minoritários que exigiam inovação. Prazer em conhecê-lo, Sr. Monteiro. Caio cumprimentou, apertando a mão de Bernardo, com firmeza calculada. Estou ansioso para mostrar o que a tecnologia moderna pode fazer por esta fazenda. Bem-vindo, Bernardo, respondeu seco como sempre.
Gustavo vai mostrar os alojamentos e explicar a rotina. Mas os olhos de Caio já haviam encontrado outro ponto de interesse. Luía atravessava o terreiro naquele momento, voltando de um atendimento nos estábulos. E o novo agrônomo a seguiu com o olhar de uma forma que fez o sangue de Bernardo ferver.
“Quem é aquela?”, Caio perguntou sem qualquer sutileza. “A veterinária da fazenda.” Bernardo respondeu a mandíbula tensa. Dra. Luía Fernandes. Interessante. O sorriso de Caio se alargou. Muito interessante. Nas semanas que se seguiram, Caio fez questão de cruzar o caminho de Luía sempre que possível. Aparecia no estábulo com desculpas esfarrapadas, convidava-a para almoçar, elogiava seu trabalho com uma efusividade que beirava o exagero.
“Você é incrível, sabia?”, ele dizia encostado na porta do estábulo enquanto ela examinava um cavalo. Linda, inteligente, competente. Como é que uma mulher assim ainda está solteira? Luía não sabia como reagir àquela atenção repentina. Não estava acostumada a ser cortejada, nunca estivera.
E parte dela se perguntava se deveria se sentir lisongeada, mas havia algo na forma como Caio a olhava, que a deixava desconfortável, como se ela fosse um prêmio a ser conquistado, não uma pessoa a ser conhecida. E depois tinha Bernardo. Desde a chegada de Caio, os bilhetes haviam parado. Bernardo voltara a tratá-la com aquela frieza profissional de antes, mal a cumprimentando quando se cruzavam. Mas Luía notava os olhares.
Quando Caio se aproximava dela, Bernardo estava sempre por perto, observando com uma expressão que ela não conseguia decifrar. “O patrão não gosta de mim”, Kaio comentou certa vez, rindo como se aquilo fosse divertido. “Acho que está com ciúmes.” “Ciúmes? Luía riu nervosa. Isso é ridículo. Ele é meu patrão. Só isso. Se você diz. Caio se inclinou mais perto. Mas eu não estou aqui para falar dele. Estou aqui para te convidar para jantar.
O que acha? Tem um restaurante na cidade que serve a melhor comida mineira da região. Luía hesitou. Parte dela queria recusar. Aquele desconforto persistente não a deixava em paz. Mas outra parte argumentava que ela estava sendo boba. Caio era bonito, educado, interessado nela.
Não era isso que as pessoas normais faziam? Saíam para jantar, se conheciam melhor? E talvez fosse bom para ela. Talvez precisasse parar de fantasiar sobre bilhetes que haviam parado de chegar e começar a viver no mundo real. “Tudo bem”, ela disse, ignorando o aperto no peito. “Pode ser na sexta-feira?” O sorriso de Caio foi triunfante. Sexta-feira é perfeito. O que nenhum dos dois percebeu foi a figura que observava de longe, meio escondida atrás do celeiro.
Bernardo viu Luía assentir, viu o sorriso vitorioso de Caio e sentiu algo dentro de si se partir. Ele havia perdido, nem sequer havia tentado e já havia perdido. Mas quando a sexta-feira chegou, Bernardo descobriu que não conseguia simplesmente aceitar a derrota. Não quando Luía estava envolvida.
E foi assim que ele acabou sentado em uma mesa escura no canto de um restaurante de comida mineira, fingindo estudar o cardápio enquanto observava a mulher que não conseguia tirar da cabeça jantar com outro homem. O restaurante Sabor da Serra era exatamente como Luía imaginara. Toalhas xadrez sobre as mesas, panelas de barro decorando as paredes, o aroma de feijão tropeiro e tutu de feijão pairando no ar.
Em outras circunstâncias, ela teria adorado o lugar. Mas naquela noite, sentada diante de Caio, ela só conseguia pensar em como havia cometido um erro terrível. Então eu disse para o diretor: “Caio estava no meio de mais uma história sobre si mesmo: “Se vocês querem resultados de excelência, precisam de profissionais de excelência.
E foi assim que consegui meu primeiro grande contrato.” Luía assentiu, tentando parecer interessada. Nos últimos 40 minutos, ela havia descoberto que Caio tinha um assunto favorito. Ele mesmo, suas conquistas, seus feitos, suas opiniões sobre absolutamente tudo. “Você é muito quieta”, ele comentou, interrompendo o próprio monólogo. “Está tudo bem?” “Sim, sim.” Ela mentiu. “Só estou ouvindo.
” “É uma das coisas que gosto em você, sabia?” Ele se inclinou sobre a mesa, invadindo seu espaço pessoal. Essa timidez é refrescante. As mulheres com quem costumo sair são tão intensas. Você é diferente, mas moldável. Moldável. A palavra atingiu Luía como um tapa. Ela não era moldável. Não era um projeto a ser trabalhado.
Era uma pessoa completa, com pensamentos e desejos próprios. Com licença”, ela disse, levantando-se abruptamente. “Preciso ir ao banheiro”. Refugiou-se no pequeno corredor que levava aos sanitários, encostando-se na parede e respirando fundo. O que ela estava fazendo ali? Por que havia aceitado aquele convite? Foi então que o viu.
Bernardo estava sentado em uma mesa ao canto, parcialmente escondido por uma coluna, mas inconfundivelmente ele. Seus olhos se encontraram por um segundo, um único segundo que pareceu durar uma eternidade antes que ele desviasse o olhar, fingindo o interesse repentino no cardápio. O coração de Luía disparou. Ele estava ali, estava seguindo-a.
Antes que pudesse processar a informação, Caio apareceu ao seu lado no corredor, fazendo-a dar um pulo de susto. “Está demorando”, ele disse. E havia algo em seu tom que a fez recuar instintivamente. Pensei que tivesse fugido. Eu só precisava de um momento ela respondeu, tentando contorná-lo. “Vamos voltar para a mesa?” Mas Caio não se moveu.
Em vez disso, deu um passo em sua direção, encurralando-a contra a parede. Sabe, Luía, eu sou um homem muito ocupado. Não costumo perder tempo com mulheres que não estão interessadas. Seus olhos percorreram o corpo dela de uma forma que a fez sentir náusea. Então me diz, você está interessada ou não? Eu eu acho que deveríamos voltar para a mesa. Ela gaguejou o coração martelando de medo. Não foi isso que perguntei.
Ela disse que quer voltar para a mesa. A voz de Bernardo cortou o ar como uma lâmina. Ele estava ali, tendo surgido do nada, alto e imponente, os olhos escuros fixos em Caio, com uma intensidade que faria qualquer homem sensato recuar. Isso não é da sua conta, Monteiro Caio rosnou, mas deu um passo para trás. Mesmo assim, tudo o que acontece com os funcionários da minha fazenda é da minha conta.
Bernardo se virou para Luía e sua expressão suavizou imperceptivelmente. Doutora, preciso que volte à fazenda urgentemente. A égua estrelinha entrou em trabalho de parto. Era mentira. Luía sabia que era mentira. Estrelinha não estava nem perto de dar cria, mas agarrou-se àela desculpa como um náufrago se agarra a uma boia.
Claro, preciso ir imediatamente. Ela passou por Caio sem olhar para trás, seguindo Bernardo até a saída do restaurante. Só quando estavam do lado de fora, no ar fresco da noite serrana, ela se permitiu respirar. Obrigada”, murmurou, a voz tremendo levemente. Bernardo não respondeu imediatamente.
Abriu a porta da caminhonete para ela, esperou que entrasse, depois deu a volta e assumiu o volante. Foi só quando já estavam na estrada de terra, deixando as luzes da cidade para trás, que ele finalmente falou: “Você está bem?” Três palavras, apenas três palavras, mas a forma como ele as disse, baixo, rouco, carregado de uma preocupação que ele tentava esconder, fez os olhos de Luía se encherem de lágrimas.
“Estou”, ela sussurrou. “Agora estou!” A chuva começou a cair sem aviso. Primeiro algumas gotas esparsas, depois um dilúvio que transformou a estrada em um rio de lama. Bernardo praguejou baixinho, diminuindo a velocidade, até que foi impossível continuar. “Vamos ter que esperar passar”, ele disse estacionando no acostamento.
E assim, presos dentro daquela caminhonete, enquanto a tempestade rugia lá fora, Bernardo e Luía finalmente ficaram sozinhos. Sem desculpas, sem interrupções, sem mais para onde fugir. A chuva martelava o teto da caminhonete com uma intensidade quase ensurdecedora. Relâmpagos rasgavam o céu, iluminando por frações de segundo o interior do veículo, e o rosto de Bernardo, que mantinha as mãos firmemente agarradas ao volante, como se precisasse de algo para se ancorar. Luía não sabia o que dizer.
O silêncio entre eles era carregado, pesado de palavras não ditas e sentimentos não confessados. Eu não estava seguindo você”, Bernardo disse de repente, quebrando o silêncio. “Quer dizer, eu estava, mas não não do jeito que parece.” “E de que jeito era?”, ela perguntou a voz mais firme do que esperava.
Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos, de uma forma que ela nunca havia visto antes. Bernardo Monteiro, o homem sempre composto, sempre no controle, parecia perdido. “Eu não sei explicar. Eu só precisava ter certeza de que você estava bem. Aquele sujeito, o Caio, tem alguma coisa nele que não me agrada desde o primeiro dia. E você foi até o restaurante para me proteger? Eu fui até o restaurante porque sou um idiota, ele disse.
E havia uma amargura em sua voz que a surpreendeu. Porque não consegui ficar na fazenda sabendo que você estava com ele? Porque cada minuto que passava, eu imaginava ele fazendo você rir, tocando sua mão. Ele parou, respirando fundo. Desculpe, isso é completamente inapropriado. Você é minha funcionária. Eu não tenho direito de Os bilhetes. Luía o interrompeu.
Por que parou de deixá-los? Bernardo finalmente a olhou. Na penumbra da caminhonete, seus olhos pareciam ainda mais escuros, mais profundos. Você sabia que era eu? B. Não é exatamente um mistério. Eu parei porque Ele engoliu em seco. Parei porque vi como você sorria quando ele se aproximava. O Caio.
Achei que você estava interessada nele e eu não tinha o direito de interferir. Eu sorria de nervoso ela confessou. Não sabia como agir. Ninguém nunca Ninguém nunca demonstrou interesse em mim antes. Isso não é verdade. Bernardo disse a voz rouca. Eu demonstrei de todas as formas que consegui. Eu demonstrei cada bilhete, cada carona, cada cerca consertada. Era eu tentando dizer o que não tinha coragem de falar.
O coração de Luía batia tão forte que ela tinha certeza de que ele podia ouvir. E o que você queria dizer? A tempestade continuava lá fora, mas dentro daquela caminhonete tudo parecia ter parado. Bernardo se virou completamente para ela e havia uma vulnerabilidade em seu rosto que ela nunca havia visto antes.
Que eu não consigo parar de pensar em você, ele disse, as palavras saindo como uma confissão. Desde aquele dia, quando Gustavo me contou sobre sobre você nunca ter beijado ninguém, algo mudou. Eu tentei ignorar, tentei me manter distante, como sempre fiz, mas não consegui. Você está em todo lugar, Luía, nos meus pensamentos, nos meus sonhos, eu acordo pensando em você e durmo pensando em você. Ela não conseguia respirar, não conseguia pensar.
Tudo o que podia fazer era olhar para aquele homem que ela admirava há três anos, que achava inalcançável, confessando que sentia por ela o que ela sempre sentiu por ele. Eu tenho uma regra, Bernardo continuou, a voz mais baixa agora. Nunca me envolver com quem trabalha na fazenda.
Meu pai, ele sofreu muito por causa disso e eu jurei que não cometeria o mesmo erro. E agora? Agora ele estendeu a mão tocando o rosto dela com uma delicadeza que a fez tremer. Agora eu estou quebrando todas as minhas regras. Porque você vale a pena, porque prefiro arriscar tudo a passar o resto da vida me perguntando como teria sido.
Luía sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. Não de tristeza, não de medo, mas de uma emoção que ela não sabia nomear. felicidade, talvez, ou algo maior que isso. Eu nunca beijei ninguém, ela disse a voz tremendo. Não sei como eu sei ele. Sussurrou, inclinando-se lentamente, dando-lhe tempo para recuar, se quisesse. Mas ela não queria recuar.
Não desta vez. Quando os lábios dele tocaram os seus, foi como se o mundo inteiro tivesse desaparecido. A tempestade lá fora, os anos de solidão, os medos e inseguranças, tudo se dissolveu naquele momento. Havia apenas eles dois, dois corações que finalmente se encontravam. O beijo foi suave no início, quase tímido, como se Bernardo estivesse com medo de assustá-la.
Mas quando ela correspondeu, entrelaçando os dedos nos cabelos dele e puxando-o mais perto, algo se libertou. O beijo se tornou mais profundo, mais urgente, carregado de toda a atenção acumulada em meses de olhares e suspiros contidos. Quando finalmente se separaram, ambos estavam sem fôlego. “Chuasho.” Luía sussurrou, tocando os próprios lábios, como se não acreditasse no que acabara de acontecer.
Bernardo riu, um som baixo e rouco que ela queria ouvir pelo resto da vida. É, uau. A chuva começava a diminuir, mas nenhum dos dois fez menção de voltar a dirigir. Ficaram ali olhando um para o outro, sorrindo como dois adolescentes depois do primeiro beijo, porque de certa forma era exatamente isso que eram. Quando finalmente chegaram à fazenda, já passava da meia-noite.
Bernardo parou a caminhonete diante da casa sede, mas não desligou o motor. “Você quer entrar?”, ele perguntou. E havia uma esperança em sua voz que a derreteu. “Não para, quer dizer, só para conversarmos mais, tomarmos um café.” Luía sorriu, sentindo-se corajosa de uma forma que nunca havia se sentido antes. Eu adoraria.
Naquela noite, eles conversaram até o sol nascer. Sentados no sofá da sala de estar, com xícaras de café esquecendo de esfriar nas mãos, compartilharam histórias, sonhos, medos, riram juntos, ficaram em silêncio juntos e, em algum momento da madrugada adormeceram nos braços um do outro. Quando a luz da manhã invadiu a sala, foi dona Fernanda quem os encontrou.
A cozinheira parou na porta, olhou para os dois enroscados no sofá e sorriu de um jeito que dizia que ela sabia que aquilo estava para acontecer desde o início. Não disse uma palavra, apenas voltou para a cozinha e começou a preparar o café da manhã mais especial que já fizera em toda a sua vida.
O sol da manhã entrava pelas janelas da casa sede, desenhando padrões dourados no chão de madeira. Luía abriu os olhos lentamente, desorientada por um momento, até sentir o braço de Bernardo ainda envolvendo-a protetoramente. Ela sorriu, permitindo-se absorver a realidade daquele momento. Não havia sido um sonho. O beijo, a declaração, à noite, conversando até adormecer, tudo era real. Bom dia.
A voz rouca de Bernardo a fez virar a cabeça. Ele estava acordado, observando-a com um olhar tão cheio de carinho que ela sentiu o coração se apertar. “Bom dia”, ela respondeu subitamente consciente de sua aparência. Os cabelos deviam estar uma bagunça e ela ainda vestia a mesma roupa da noite anterior.
“Você é linda”, ele disse como se lesse seus pensamentos, especialmente assim de manhã toda descabelada. Ela riu, dando um tapa de leve em seu braço. Mentiroso. Nunca, ele disse. Sério agora, nunca vou mentir para você. Antes que pudesse responder, o som de panelas na cozinha os alertou de que não estavam sozinhos na casa. Dona Fernanda. Bernardo suspirou.
Ela deve ternos visto e isso é ruim. Ele pensou por um momento, depois sorriu de um jeito que a fez derreter. Não, não é ruim. significa que não preciso esconder o que sinto. Ele tomou a mão dela entre as suas. Quer tomar café da manhã comigo? Como minha. Ele hesitou, procurando a palavra certa. Namorada.
Ela ofereceu, testando a palavra em seus lábios. Namorada. Ele repetiu, saboreando o som. Gosto disso. Quando entraram juntos na cozinha de mãos dadas, dona Fernanda fingiu surpresa tão mal que os três acabaram rindo. Ora, ora, que bom vê-los. Sente-se, sente-se. Fiz pão de queijo fresquinho, bolo de fubá e café passado na hora. Enquanto comiam, a notícia se espalhou pela fazenda com a velocidade de um rastilho de pólvora.
Gustavo foi o primeiro a aparecer, inventando uma desculpa qualquer sobre relatórios de produção, mas claramente apenas para confirmar o que ouvira. Pedro e Joaquim vieram logo depois, trazendo um sorriso de orelha a orelha. Era hora, patrão! Joaquim exclamou para horror e diversão de Luía. Joaquim.
Ela repreendeu as bochechas ardendo. O quê? Todos nós víamos a forma como vocês se olhavam. Era só questão de tempo. Bernardo, em vez de se irritar como ela esperava, apenas passou o braço por seus ombros e a puxou para mais perto. Ele tem razão. Foi questão de tempo. A única reação negativa veio de quem eles já esperavam. Caio apareceu na sede por volta do meio-dia.
a expressão fechada e os olhos faiscando de ressentimento. “Então é verdade”, ele disse parando diante de Bernardo com os punhos cerrados. “Você a roubou de mim. Não roubei ninguém”, Bernardo respondeu a voz calma, mas firme. Luía não é um objeto para ser roubado. Ela fez uma escolha. Se você tiver problemas com isso, a porta está aberta.
Por um momento, Luía temeu que Caio fosse fazer uma cena, mas algo na postura de Bernardo, aquela autoridade tranquila que ele sempre carregava, pareceu fazer o agrônomo recuar. Isso não vai dar certo, Caio Rosnou. Relacionamento entre patrão e funcionária nunca dá certo, você vai ver. E com isso saiu batendo a porta. Luía sentiu um aperto no peito.
E se ele estivesse certo? E se aquilo fosse um erro? Como se sentisse sua hesitação, Bernardo tomou seu rosto entre as mãos. “Não dê ouvidos a ele”, disse olhando profundamente em seus olhos. “O que temos é real e vamos provar isso todos os dias pelo tempo que for preciso.” Ela sentiu querendo acreditar, precisando acreditar. E o Caio, o que vai fazer com ele? Nada por enquanto. Ele é bom no que faz, por mais que me custe admitir.
Mas se ele criar mais problemas. Os olhos de Bernardo escureceram. Aí é outra história. Nas semanas que se seguiram, Caio manteve-se distante, focando exclusivamente no trabalho. Se ainda nutria ressentimento, era esperto o suficiente para não demonstrar. Enquanto isso, Bernardo e Luía construíam algo novo juntos. Ele continuava deixando bilhetes para ela, agora mais longos, mais carinhosos.
Ela descobriu que ele adorava poesia, especialmente Drumon, e passaram noites lendo um para o outro na varanda da sede. Ele lhe ensinou os segredos do café, desde a seleção dos grãos até a torra perfeita. Ela o levou para acompanhar um parto de bezerra e viu seus olhos se encherem de lágrimas quando a pequena criatura deu seus primeiros passos vacilantes.
Eram duas pessoas se descobrindo, se conhecendo, se apaixonando mais a cada dia que passava. Mas por baixo da felicidade, Luía guardava um medo que não ousava confessar nem a si mesma, a sensação de que aquilo era bom demais para durar. E como ela descobriria em breve, alguns medos existem por um motivo. Seis meses haviam-se passado desde a noite na caminhonete.
Seis meses de felicidade que Luía às vezes mal conseguia acreditar ser real. Ela havia se mudado para a casa sede a convite de Bernardo, ocupando o quarto ao lado do dele, uma concessão às convenções, já que dona Fernanda morava na mesma casa. Mas as noites eram deles. Conversas até tarde, beijos roubados no corredor, acordar com o cheiro de café que ele mesmo preparava para ela todas as manhãs. “Você me mima demais”, ela reclamava, sorrindo.
“Impossível”, ele respondia. “Você merece muito mais do que eu poderia dar”. Mas havia dias em que Luís havia uma sombra passar pelos olhos de Bernardo, momentos em que ele se recolhia em si mesmo, ficando distante e pensativo. Quando perguntava o que havia de errado, ele sempre respondia que não era nada, mas ela sabia que era mentira.
A verdade veio à tona em uma noite de inverno, quando a serra inteira parecia congelada e eles estavam sentados diante da lareira da sala de estar. Preciso te contar uma coisa”, Bernardo disse. E havia algo em sua voz que fez o coração de Luía gelar. Ela se endireitou no sofá, preparando-se para o pior. O que foi? Ele não a olhava.
Seus olhos estavam fixos nas chamas, como se procurasse coragem ali. Eu te contei sobre meu pai, sobre como ele se apaixonou por uma funcionária e sofreu quando ela foi embora. Contou. O que não contei? Ele respirou fundo. Foi o que aconteceu depois. Meu pai nunca se recuperou.
Entrou em uma depressão profunda, começou a beber, deixou a fazenda quase ir à falência. Minha mãe teve que assumir tudo sozinha enquanto cuidava de um marido que mal saía da cama. Luía permaneceu em silêncio, sentindo que havia mais. Eu era adolescente quando isso aconteceu. Vi minha mãe definhando de cansaço. Vi meu pai se destruindo aos poucos. E jurei, jurei que nunca deixaria ninguém ter esse poder sobre mim. Ele finalmente a olhou e seus olhos estavam úmidos.
Mas então você apareceu e todos os meus juramentos, todas as minhas proteções simplesmente ruíram. Bernardo, eu te amo, Luía, ele disse e as palavras saíram como uma confissão desesperada. Amo de uma forma que me assusta, porque se você for embora, se você me deixar, não sei se vou sobreviver.
O coração de Luía se partiu e se reconstituiu no mesmo instante. Finalmente entendia os medos dele, as barreiras que ele tentava erguer, a razão de sua frieza inicial. Ela se aproximou, tomando o rosto dele entre as mãos, forçando-o a encará-la. “Olha para mim”, disse a voz firme. “Eu não vou a lugar nenhum. Não sou a mulher que abandonou seu pai.
Eu estou aqui porque quero estar. Porque esse é o único lugar do mundo onde eu quero estar. Você não pode prometer isso? Posso sim. E prometo. Ela selou a promessa com um beijo suave e cheio de significado. Eu também te amo, Bernardo, e o que temos não é fraqueza. É a coisa mais forte que já senti na vida. Naquela noite, algo mudou entre eles.
As últimas barreiras caíram, os últimos medos foram expostos e enfrentados juntos. Quando acordaram na manhã seguinte, enroscado sob as cobertas grossas, era como se um novo capítulo tivesse começado, mas nem tudo eram flores na fazenda Serra Dourada. Caio, que havia se mantido discreto por meses, começou a mostrar seu verdadeiro rosto.
Pequenas sabotagens aqui e ali, um lote de fertilizante errado, relatórios com dados incorretos, fofocas espalhadas entre os funcionários sobre o favoritismo que Luía supostamente recebia. “Ele está tentando criar problemas.” Luía disse uma noite frustrada. “Ontem, dois funcionários me perguntaram se é verdade que vou ganhar um aumento por ser sua namorada. Bernardo cerrou os punhos.
Isso acaba amanhã. Vou demiti-lo. Não. Ela segurou seu braço. É isso que ele quer. Quer que você perca o controle, faça algo impulsivo. Temos que ser mais espertos. E o que sugere? Luía pensou por um momento. Deixe-o cavar a própria cova. Mais cedo ou mais tarde, ele vai cometer um erro grande demais para esconder.
Ela não sabia como estava certa. E quando o erro de Caio finalmente viesse à tona, seria maior do que qualquer um poderia imaginar. A primavera chegou à serra, trazendo consigo um tapete de flores silvestres que transformou os pastos em pinturas impressionistas.
Luía caminhava pelos cafezais numa tarde dourada quando seu telefone tocou. Era Gustavo e sua voz estava estranha. Doutora, precisa vir à sede urgente. Quando chegou, encontrou Bernardo na varanda, o rosto pálido, como ela nunca havia visto. Ao lado dele, Gustavo segurava uma pasta cheia de documentos. O que aconteceu? Ela perguntou, o coração acelerando. Bernardo estendeu a mão, puxando-a para perto.
Descobrimos o que Caio andava fazendo. A história era mais grave do que ela imaginara. Nos últimos meses, Caio havia desviado quantias significativas das contas da fazenda, usando contratos falsos de consultoria e compra de equipamentos que nunca chegavam. Gustavo, desconfiado de algumas inconsistências nos relatórios, havia começado uma investigação silenciosa e encontrado a trilha do dinheiro. “São quase R$ 200.000”, R.
Gustavo disse a voz carregada de indignação. Ele estava nos roubando descaradamente. Luía sentiu o chão faltar sob seus pés. E agora? O que vamos fazer? Já chamamos a polícia? Bernardo respondeu. Caio está sendo preso neste momento. Como se em resposta, o som de Sirenes cortou o ar da tarde. Eles viram a viatura da polícia estacionar diante do alojamento dos funcionários.
Viram Caio ser conduzido para fora, as mãos algemadas às costas. Antes de entrar no carro policial, ele olhou diretamente para Luía. O ódio em seus olhos era tão intenso que ela recuou instintivamente. Isso não acaba aqui ele gritou. Vocês vão pagar por isso. Mas as palavras se perderam no vento quando a viatura partiu, levando-o embora da fazenda para sempre.
Naquela noite, Luía não conseguia dormir. Ficava repassando os eventos do dia, as ameaças de Caio, a expressão de puro veneno em seu rosto. Ei! A voz de Bernardo a trouxe de volta ao presente. Ele a envolveu em seus braços, puxando-a para mais perto. Acabou. Ele se foi. Eu sei. É só que ela suspirou. As palavras dele. Vocês vão pagar por isso. Me assustaram.
Ele estava só querendo nos ameaçar. É o tipo de homem que faz isso quando perde o controle. Não vai poder fazer nada de dentro de uma cela. Ela queria acreditar. Precisava acreditar. mas algo dentro dela não conseguia se acalmar totalmente. Os dias seguintes foram tensos. A fazenda precisou lidar com o escândalo, explicar aos funcionários o que havia acontecido, reorganizar as finanças para cobrir o rombo deixado por Caio.
Bernardo trabalhava incansavelmente, muitas vezes até tarde da noite. E Luía fazia o que podia para apoiá-lo. Mas em meio ao caos, algo inesperado começou a florescer. A crise revelou uma força em seu relacionamento que eles não sabiam que tinham. Trabalhando lado a lado para superar os desafios, descobriram que eram melhores juntos do que separados.
“Obrigado, Bernardo”, disse uma noite, quando finalmente conseguiram um momento de paz. Por quê? Por estar aqui, por me aguentar nesses últimos dias, por Ele hesitou, procurando as palavras certas. “Por ser você?” Ela sorriu tocando seu rosto com carinho. Não existe outro lugar onde eu gostaria de estar. E era verdade.
Apesar de tudo, das ameaças de Caio, do estresse das últimas semanas, das incertezas do futuro, Luía nunca se sentira mais em casa do que ali, nos braços daquele homem. Mas o destino ainda guardava surpresas e a próxima viria na forma de uma carta que mudaria tudo. A carta chegou numa manhã de quarta-feira, misturada entre contas e correspondências rotineiras da fazenda.
Bernardo quase não anotou, mas algo no envelope amarelado chamou sua atenção. Não havia remetente, apenas seu nome escrito em uma caligrafia tremida que ele não reconheceu. Ele abriu com curiosidade, sem imaginar que as palavras ali dentro virariam seu mundo de cabeça para baixo. Querido Bernardo, se você está lendo isto, significa que tomei coragem para enviá-la mesmo depois de tantos anos.
Meu nome é Helena e fui a mulher pela qual seu pai se apaixonou há três décadas. Não escrevo para me justificar, nem para pedir perdão. Escrevo porque estou doente e não quero partir deste mundo com mentiras entre nós. Eu não abandonei seu pai por falta de amor.
Abandonei porque sua mãe me fez uma proposta: ir embora e nunca mais voltar em troca de uma quantia em dinheiro que salvaria minha família da miséria. Minha mãe estava doente. Meus irmãos pequenos não tinham o que comer. Eu fiz o que qualquer pessoa desesperada faria. Nunca parei de amar Antônio e nunca me perdoei pelo que fiz.
Sei que nada disso muda o sofrimento que você presenciou, mas espero que pelo menos ajude a entender que a história que você conhece não é a história completa. Desejo-lhe toda a felicidade do mundo. Helena, Bernardo ficou imóvel por longos minutos, relendo as palavras várias vezes, como se esperasse que elas mudassem. sua mãe, a mulher que ele sempre vira como vítima, como mártir que segurou a família quando o pai desmoronou. Ela havia expulsado Helena, havia comprado seu silêncio.
Quando Luía o encontrou horas depois, ele ainda estava no escritório, a carta amassada entre os dedos, o olhar perdido no nada. Bernardo ela se ajoelhou diante dele, preocupada. O que aconteceu? Ele não respondeu de imediato, apenas estendeu a carta, deixando que ela lesse. O silêncio que se seguiu foi pesado.
Luía leu uma vez, duas vezes, depois olhou para ele com os olhos cheios de compaixão. “Meu Deus”, ela sussurrou. “A toda a minha vida!” A voz de Bernardo estava rouca, carregada de uma dor antiga recém despertada. “Toda a minha vida eu culpei aquela mulher. Odiei ela por ter destruído meu pai. E agora descubro que que a verdade é mais complicada do que você pensava.
Ele balançou a cabeça, uma risada amarga escapando de seus lábios. Minha mãe, a mulher que me criou, que me ensinou a ser o homem que sou. Ela mentiu para mim a vida inteira. Ela estava protegendo o casamento dela, a família dela. Luía segurou suas mãos. Não estou dizendo que foi certo, mas pessoas fazem coisas desesperadas quando têm medo de perder o que amam.
E meu pai, ele sabia isso? Você só vai descobrir se perguntar. Antônio Monteiro vivia agora em uma casa de repouso na cidade, a mente debilitada pela idade e pelos anos de bebida. Bernardo o visitava regularmente, mas as conversas eram difíceis. Seu pai nem sempre o reconhecia.
Mas no dia seguinte ele foi até lá, a carta queimando em seu bolso. Encontrou o pai em um de seus dias bons, sentado em uma cadeira na varanda, olhando para as montanhas ao longe. “Pai, Bernardo se sentou ao lado dele. Preciso te perguntar uma coisa. Sobre Helena. O nome fez algo despertar nos olhos embaçados de Antônio. Uma luz que Bernardo não via há anos.
Helena!”, o velho sussurrou, um sorriso triste brincando em seus lábios. “Minha Helena! Você sabia? Sabia que a mamãe pagou para ela ir embora? O silêncio foi longo, então Antônio assentiu, uma única lágrima escorrendo por seu rosto enrugado. Descobri anos depois, mas já era tarde. Helena tinha sumido. Sua mãe estava doente. Você era adulto.
O que adiantaria revolver o passado? Adiantaria eu saber a verdade? A verdade? Antônio repetiu a voz carregada de arrependimento. É que fui fraco. Deixei sua mãe controlar tudo porque não tinha coragem de enfrentá-la. E quando perdi Helena, me perdi junto. Pai e filho ficaram em silêncio por um longo tempo, cada um processando décadas de dor e segredos. Quando Bernardo finalmente se levantou para ir embora, seu pai segurou sua mão com uma força surpreendente.
“Não cometa meu erro”, ele disse, os olhos subitamente lúcidos. Essa moça que você ama, não deixe nada, nem ninguém separá-los. Lute por ela de um jeito que eu nunca lutei por Helena. Bernardo apertou a mão do pai, as palavras se gravando em seu coração. Eu vou, pai, eu prometo. As semanas que se seguiram a descoberta da carta foram um período de reconstrução para Bernardo.
Ele precisou reprocessar toda a sua história, questionar as verdades que sempre acreditou e, de alguma forma encontrar paz com o passado. Luía esteve ao seu lado em cada momento. Nas noites em que ele acordava perturbado por sonhos antigos, ela estava lá para abraçá-lo. Nos dias em que a raiva da mãe, já falecida há 5 anos, ameaçava consumi-lo, ela o lembrava de que guardar rancor só faria mal a ele mesmo. Ela errou.
Luía disse uma noite, quando eles estavam sentados na varanda olhando as estrelas. Mas você não pode deixar o erro dela definir quem você é. Como você consegue ser tão sábia? Ele perguntou genuinamente admirado. Ela deu de ombros um sorriso suave nos lábios. Não é sabedoria, é só observação. Minha família não era perfeita também.
Meus pais se separaram quando eu tinha 12 anos. Passaram anos brigando na justiça, me usando como munição um contra o outro. Ela fez uma pausa perdida em memórias. Durante muito tempo, tive raiva dos dois, mas aí percebi que a raiva só me prendia ao passado. Quando perdoei, me libertei. Você perdoou? Perdoei. Não significa que esqueci ou que acho que o que fizeram foi certo.
Significa que escolhi não deixar aquilo me definir. Bernardo pensou naquelas palavras por muito tempo e aos poucos começou a entender. Numa tarde de domingo, ele tomou uma decisão, sentou-se à escrivaninha do escritório e escreveu uma carta para Helena, o endereço extraído do envelope que ela enviara.
escreveu sobre sua infância, sobre o pai que viu se destruir, sobre os anos de raiva mal direcionada. Escreveu que a perdoava, que entendia agora as escolhas impossíveis que ela havia enfrentado, e escreveu que esperava de alguma forma que ela encontrasse a paz que merecia. Duas semanas depois, recebeu uma resposta. Helena agradecia suas palavras. contava que estava em tratamento contra um câncer, mas que as palavras dele haviam aliviado um peso que ela carregava há décadas. “Você me deu um presente que nem sabia que estava dando”, ela escreveu. “O presente do perdão. Agora
posso partir em paz.” Quando Helena faleceu três meses depois, Bernardo chorou, não pela mulher que não conheceu, mas pelo pai que ela amou, pela história que poderia ter sido diferente e pela capacidade humana de superar a dor através do amor e do perdão.
E naquele momento de luto e cura, ele soube exatamente o que precisava fazer. Era hora de dar o próximo passo com Luía. O convite veio numa manhã de sábado, quando o inverno começava a ceder lugar a uma primavera tímida. “Vista algo bonito”, Bernardo disse, um brilho misterioso nos olhos. “Vamos viajar?” “Viajar? Para onde?” Surpresa. Luía não conseguiu arrancar mais informações dele. Não importava quanto tentasse.
Então, simplesmente se rendeu, vestiu um vestido florido que sabia que ele adorava e entrou no carro sem fazer mais perguntas. A viagem durou pouco mais de duas horas, serpenteando por estradas montanhosas que revelavam paisagens cada vez mais deslumbrantes. Quando finalmente chegaram ao destino, Luía soltou uma exclamação de surpresa: “Tira dentes!” A cidade histórica se desdobra diante deles como uma pintura em tons de ocre e terracota.
Casarões coloniais ladeavam ruas de pedra, igrejas barrocas erguiam suas torres contra o céu azul e uma atmosfera de outro tempo pairava sobretudo. Sempre quis te trazer aqui Bernardo disse estacionando o carro. Você me contou uma vez que sonhava em conhecer. Ela havia contado uma vez numa conversa casual meses atrás e ele lembrava: “O dia foi mágico.
” Caminharam pelas ruas históricas, visitaram igrejas centenárias, almoçaram em um restaurante com vista para as montanhas. Bernardo estava diferente, mais leve, mais presente, como se uma carga houvesse sido tirada de seus ombros. À noite, ele a levou a uma pousada encantadora no alto de uma colina, onde um quarto com varanda os esperava. E ali, sob a luz de velas que ele próprio havia providenciado, aconteceu o momento que Luía jamais esqueceria.
Bernardo se ajoelhou diante dela, tirando do bolso uma caixinha de veludo que fez o coração dela parar. “Luía”, ele começou, a voz embargada de emoção. “Há 5 anos você entrou na minha fazenda como veterinária e acabou curando muito mais do que os animais. Você curou feridas que eu nem sabia que tinha.
me ensinou a amar, a confiar, a me abrir para a vida de novo. Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dela enquanto ele abria a caixinha, revelando um anel de ouro com uma pequena esmeralda, verde como as montanhas de Minas, verde como os olhos dela. “Eu não sou perfeito”, ele continuou. Ainda tenho medos, ainda tenho cicatrizes, mas o que sei com absoluta certeza é que quero passar o resto da minha vida ao seu lado, acordar com você todas as manhãs, dormir com você noites e enfrentar tudo o que vier junto. Ele tomou a mão dela entre as
suas. Luía Fernandes, você me daria a honra de ser minha esposa? O silêncio que se seguiu durou apenas uma fração de segundo, mas pareceu uma eternidade. Sim, ela sussurrou. Depois repetiu: “Mais alto, mais certo?” “Sim, mil vezes sim.
” Ele deslizou o anel em seu dedo, depois se levantou e a tomou nos braços, girando-a pelo quarto, enquanto os dois riam e choravam ao mesmo tempo. Naquela noite, celebraram o noivado de todas as formas que dois apaixonados podem celebrar. E quando amanhã chegou, encontrou-os abraçados na varanda, observando o nascer do sol sobre as montanhas de Minas Gerais.
Senhora Monteiro! Bernardo murmurou em seu ouvido. Gosto do som disso. Luía sorriu, o anel brilhando em seu dedo como uma promessa. Eu também. Mas ela ainda não sabia que o caminho até o altar guardaria uma última surpresa, uma que testaria seu amor como nunca antes. Os preparativos para o casamento estavam a todo vapor.
A capelinha da fazenda havia sido escolhida como local da cerimônia, uma homenagem à tradição da família Monteiro, que celebrava seus momentos mais importantes ali há três gerações. Dona Fernanda havia assumido o comando da cozinha com uma determinação militar, planejando um banquete que deixaria todos os convidados falando por anos.
Gustavo coordenava a decoração do terreiro onde seria a festa e até Pedro e Joaquim haviam se voluntariado para ajudar onde fosse preciso. Faltavam duas semanas para o grande dia quando a carta chegou. Desta vez não era uma carta do passado, era uma proposta de trabalho. A Universidade Federal de Minas Gerais estava oferecendo a Luía uma posição como professora no departamento de veterinária.
Era o tipo de oportunidade que qualquer profissional sonharia. Salário excelente, chance de fazer pesquisa, de formar novos profissionais, de deixar uma marca na profissão e ela teria que se mudar para Belo Horizonte. Você deveria aceitar”, Bernardo disse quando ela lhe mostrou a carta. Luía o olhou incrédula. Como assim? E o casamento? E a fazenda? E nós nós vamos continuar existindo ele disse.
Mas havia uma tensão em sua voz que ela conhecia bem. Belo Horizonte não é tão longe. Podemos fazer funcionar. Fazer funcionar? Ela balançou a cabeça. Bernardo, você está amarrado a esta fazenda. Não pode simplesmente ir embora. E eu não posso pedir que você escolha entre mim e tudo o que sua família construiu aqui.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Ambos sabiam que haviam chegado a um impasse que nenhum bilhete carinhoso ou beijo apaixonado poderia resolver. Luía passou os dias seguintes em agonia. De um lado, a oportunidade profissional de uma vida inteira. Do outro amor de uma vida inteira. Como escolher? Ela procurou conselhos em todos os lugares. Dona Fernanda lhe disse para seguir o coração.
Gustavo, prático, como sempre, sugeriu que ela fizesse uma lista de prós e contras. Até Pedro e Joaquim opinaram, cada um de forma diferente, mas foi uma conversa inesperada que finalmente a ajudou a enxergar com clareza. Antônio Monteiro teve um de seus raros dias de lucidez e Luía o visitou sozinha pela primeira vez desde que começara a namorar Bernardo.
“Você é a moça do meu filho”, o velho disse, reconhecendo-a imediatamente. A veterinária sou, seu Antônio. Ele é feliz com você. Vejo no rosto dele quando fala de você. Os olhos embaçados se fixaram nela. Ele nunca foi feliz antes. Não, de verdade. Eu também sou feliz com ele. Luía admitiu, mas agora não sei o que fazer. E então, sem saber exatamente porquê, contou tudo ao velho.
A proposta da universidade, o dilema, o medo de escolher errado. Antônio ouviu em silêncio. Quando ela terminou, ele ficou quieto por um longo momento, como se processasse cada palavra. “Quer saber o que eu aprendi em 80 anos de vida?” Ele disse finalmente que carreiras podem ser reconstruídas, oportunidades voltam a aparecer, mas amor de verdade, ele balançou a cabeça.
Amor de verdade é raro e quando você encontra, precisa segurar com as duas mãos e nunca soltar. Luía sentiu as lágrimas chegarem. Mas e se eu me arrepender? E se anos depois eu olhar para trás e pensar no que poderia ter sido? E se você aceitar a proposta e passar o resto da vida pensando no amor que deixou para trás? Antônio contraargumentou: “A vida é feita de escolhas, menina, e toda escolha tem um custo.
A questão é: qual custo você está disposta a pagar?” Naquela noite, Luía finalmente soube a resposta. Encontrou o Bernardo na varanda da casa sede, olhando para as estrelas, como costumava fazer quando precisava pensar. sentou-se ao lado dele sem dizer nada, apenas entrelaçando seus dedos nos dele. “Eu recusei a proposta”, ela disse, a voz firme. Bernardo se virou para ela, surpreso. Luía, não me deixa terminar.
Ela respirou fundo. Recusei porque percebi que nenhuma oportunidade profissional vale mais do que o que temos, que eu posso ser uma boa veterinária em qualquer lugar, mas só posso ser feliz de verdade ao seu lado. Eu nunca pedi para você sacrificar. Não é sacrifício. Ela o interrompeu. É escolha. E escolho você.
Escolho esta fazenda, esta vida, este amor todos os dias pelo resto da minha vida. Bernardo a envolveu em seus braços, apertando-a com uma intensidade que dizia tudo o que palavras não conseguiam expressar. “Eu te amo”, ele sussurrou mais do que achava possível amar alguém. “Eu sei”, ela respondeu, sorrindo contra seu peito. “Eu também te amo.
” Ficaram ali por um longo tempo, abraçados sob o céu estrelado de Minas Gerais, enquanto a brisa suave da serra acariciava seus rostos. O dilema havia sido resolvido, o amor havia vencido e em duas semanas celebrariam essa vitória diante de todos. O dia do casamento amanheceu perfeito. O céu estava límpido, de um azul tão profundo que parecia pintado à mão, e o sol banhava a fazenda Serra Dourada com uma luz dourada que fazia ju ao seu nome.
A capelinha havia sido decorada com flores silvestres colhidas das montanhas ao redor, hortências azuis, rosas campestres, lavanda da serra. O cheiro era de frescor e promessas. Luía se olhou no espelho do quarto, mal reconhecendo a mulher que via refletida. O vestido de noiva era simples, elegante, exatamente como ela queria. Os cabelos estavam soltos em ondas suaves, enfeitados apenas com uma pequena coroa de flores.
Mas era o brilho em seus olhos que a transformava, o brilho de quem finalmente encontrou seu lugar no mundo. “Você está linda”, dona Fernanda disse entrando no quarto com os olhos já marejados. a noiva mais bonita que já vi em todos os meus anos. Luía sorriu, abraçando a mulher que se tornara uma segunda mãe para ela.
Obrigada por tudo, não só por hoje, mas por todos esses anos. Ora, menina, agradeça é ao destino que trouxe você até aqui. O resto foi só consequência. A cerimônia foi íntima, como ambos queriam. Apenas funcionários da fazenda, alguns familiares distantes e o padre da cidade vizinha que conhecia os Monteiros há décadas.
Quando Luía surgiu no final do corredor improvisado, de braços dados com Gustavo, que aceitara a honra de conduzi-la ao altar, Bernardo sentiu o mundo parar. Ela estava radiante, mais linda do que em qualquer um dos sonhos que ele tivera nos últimos 5 anos. Seus olhos se encontraram através da distância e naquele momento tudo ao redor desapareceu.
Havia apenas eles dois, duas almas que finalmente se encontravam após uma vida inteira de busca. Os votos foram simples, vindos do coração. Bernardo Luía começou a voz trêmula de emoção. Eu cheguei a esta fazenda como uma veterinária recém formada, sem saber o que queria da vida, além de cuidar de animais.
Você me mostrou que o amor existe, que vale a pena arriscar, que as melhores coisas da vida são aquelas pelas quais lutamos. Prometo te amar e honrar nos dias bons e nos difíceis, nas alegrias e nas tristezas, até que a morte nos separe. Luía Bernardo tomou suas mãos, os olhos brilhando. Você entrou na minha vida e derrubou todos os muros que eu havia construído.
Me ensinou a sentir novamente, a confiar, a acreditar que o amor pode curar qualquer ferida. Prometo passar cada dia do resto da minha vida merecendo você. Prometo deixar bilhetes no estábulo, consertar cercas desnecessárias e te seguir em jantares quando achar que você está com o homem errado. Risos suaves ecoaram pela capelinha. Prometo te amar.
Ele continuou mais sério agora, com cada fibra do meu ser por todos os dias que me restarem nesta terra. Quando o padre os declarou marido e mulher, o beijo que se seguiu foi aplaudido com entusiasmo por todos os presentes. Dona Fernanda chorava abertamente, Gustavo aoava o nariz discretamente e até o velho Antônio, trazido especialmente da casa de repouso, tinha um sorriso no rosto enrugado. A festa que se seguiu foi memorável.
O banquete de dona Fernanda superou todas as expectativas com feijão tropeiro, tutu de feijão, frango ao molho pardo e todas as delícias da culinária mineira. A música misturava modas de viola com valsas clássicas e os noivos dançaram até o sol se pôr sobre as montanhas.
5 anos depois, o sol da tarde iluminava a varanda da casa sede, onde uma cena de pura felicidade se desenrolava. Luía estava sentada na cadeira de balanço, uma xícara de café esquecendo de esfriar em suas mãos. Enquanto observava Bernardo no terreiro, ele corria atrás de duas crianças que gargalhavam, Miguel, de 4 anos com os olhos castanhos do pai e Helena, de dois com os cabelos claros da mãe. “Papai, você não pega a gente!”, Miguel gritava, desviando hábilmente dos braços do pai.
Ah, não pego. Bernardo fingia indignação, aumentando a velocidade. Vou pegar vocês dois e fazer cosquinha até chorarem. Os gritos de alegria das crianças ecoavam pelos cafezais enquanto Luía sorria. O coração tão cheio que às vezes doía. 5 anos de casamento. Duas crianças lindas.
Uma vida construída tijolo por tijolo, dia por dia, com amor, paciência e dedicação. Não havia sido sempre fácil. Houve noites mal dormidas com bebê que não paravam de chorar, preocupações com a fazenda durante safras difíceis, momentos de tensão e cansaço. Mas havia também manhãs de domingo preguiçosas, tardes de risadas em família, noites de conversas sussurradas após as crianças dormirem.
Bernardo finalmente alcançou os filhos, erguendo um em cada braço, enquanto eles gritavam de prazer. Ele olhou para Luía na varanda e sorriu, aquele sorriso que ainda fazia seu coração disparar mesmo depois de todos esses anos. Mamãe! Helena chamou, estendendo os bracinhos. Vem brincar. Luía deixou a xícara de lado e desceu os degraus da varanda para se juntar à sua família.
Bernardo a envolveu com um braço, as crianças espremidas entre eles em um abraço coletivo. “Eu te amo”, ele sussurrou em seu ouvido. “Eu sei”, ela respondeu como sempre respondia. “Eu também te amo.” Mais tarde, naquela noite, depois que as crianças estavam dormindo e a casa finalmente silenciosa, Luía foi até a cozinha buscar um copo d’água e ali, pregado na porta da geladeira, estava um bilhete.
“Obrigado por me escolher todos os dias”. B. Ela sorriu pegando o papel e guardando-o com cuidado. Tinha uma caixa cheia deles agora. Centenas de bilhetes acumulados ao longo dos anos, cada um uma pequena declaração de amor. Voltou para o quarto onde Bernardo a esperava acordado. “Achei seu bilhete”, ela disse, deitando-se ao lado dele. E ele ergueu uma sobrancelha. “E eu escolheria você de novo, mil vezes.
” Ele a puxou para mais perto, beijando sua testa com ternura. Eu também, Luía, eu também. Do lado de fora, a lua iluminava as montanhas de Minas Gerais, os cafezais que se estendiam até o horizonte, a fazenda que testemunha o nascimento de um amor improvável. E em algum lugar, talvez, as almas de Antônio e Helena, unidos finalmente em algum lugar além das estrelas, sorriam ao ver que a história de amor que eles não puderam viver tinha encontrado uma segunda chance em seus descendentes. Porque é isso? que o amor verdadeiro faz. Ele encontra um caminho sempre
moabol. E assim, entre as montanhas e cafezais de Minas Gerais, uma veterinária que nunca havia sido beijada e um fazendeiro que jurou nunca se apaixonar, provaram que as melhores histórias são aquelas que escrevemos com coragem, entrega e uma fé inabalável de que o amor, quando verdadeiro, é capaz de transformar absolutamente tudo.
O amor não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção. Antoine de San Perry. M.