Você já se sentiu invisível ao lado de alguém que deveria te ver mais do que qualquer outra pessoa no mundo? Clara viveu 14 meses casada com um dos homens mais poderosos de São Paulo e nunca foi beijada por ele. Esta é uma história sobre desaparecer dentro do próprio casamento e encontrar a coragem de escolher a si mesma.
Antes de começarmos, me conta de onde você está assistindo. Deixa nos comentários. E se você acredita que todo mundo merece ser visto e amado de verdade, se inscreve no canal e deixa aquele like para que mais pessoas encontrem essa história. Agora, prepare-se para uma jornada emocionante. O sol da manhã entrava pelas janelas panorâmicas da cobertura nos jardins, banhando o mármore branco em tons dourados.
Clara Santos Romano observava o marido do outro lado da mesa de jantar, uma peça de design italiano que custava mais do que ela ganhava em um ano inteiro como escritora freelance. Rafael Mendes Almeida, 42 anos, CEO de um conglomerado de tecnologia avaliado em bilhões, tomava seu expresso enquanto respondia e-mails no celular. Ela contou mentalmente, 17 segundos.
Foi quanto tempo ele olhou para ela desde que acordaram. Bom dia, Clara murmurou. Mais por hábito do que por esperança de resposta. Bom dia. Rafael respondeu automaticamente, os olhos ainda grudados na tela. Sua voz era educada, profissional, como se ela fosse uma assistente competente e não sua esposa. Você vai ao evento beneficente da ACD hoje à noite? Sim.
Escolhi o vestido azul marinho que você pediu. Ótimo. Ele tomou o último gole do café e se levantou, ajeitando o palitó Armani com movimentos precisos. Tenho reuniões o dia todo. Volto às 7 para nos arrumarmos. Clara observou enquanto ele caminhava em direção à porta, cada passo ecoando no piso de mármore, alto, ombros largos, cabelo preto perfeitamente penteado. Rafael era o tipo de homem que fazia cabeças virarem por onde passava.
E ela era sua esposa legalmente, contratualmente, Rafael, ela se ouviu chamar, a voz saindo mais vulnerável do que pretendia. Ele parou e virou-se, franzindo levemente a testa. Sim. As palavras morreram na garganta de Clara. O que ela ia dizer? Me beija antes de sair? Me olha como se eu importasse. Me vê? Nada. Tenha um bom dia.
O leve franzir na testa dele se desfez, substituído por um sorriso cordial e vazio. Você também. A porta se fechou com um clique suave e Clara ficou sozinha novamente, sozinha no apartamento de 500 m², decorado por um designer premiado, repleto de obras de arte caras e vazio de qualquer coisa que parecesse um lar. Ela caminhou até o espelho do corredor.
A mulher que a encarava de volta usava um hob de seda la perla. Tinha o cabelo castanho escuro perfeitamente hidratado em um salão de luxo, unhas feitas, pele tratada com produtos importados. Aos 38 anos, Clara nunca havia se parecido tão bem fisicamente e nunca se sentiu tão invisível. Suas mãos tremeram enquanto tocava o próprio reflexo.
Quando foi a última vez que Rafael a tocou espontaneamente? Um beijo de bom dia, um abraço sem motivo, um olhar que dissesse: “Estou feliz por você estar aqui”. 14 meses, 14 meses casados e ele nunca havia beijado de verdade. O beijo no altar foi rápido, casto, protocolar, uma assinatura em um contrato, não uma declaração de amor.
Clara fechou os olhos, lembrando-se de como chegou ali 14 meses antes. “Preciso de R$ 200.000”, ela havia dito à amiga Nana Oliveira no café páginas em grãos no Tatuapé, tentando não desmoronar. A dívida hospitalar da minha mãe está crescendo. Os juros da hipoteca da casa, Nana, vão executar a casa onde cresci. Nana segurou sua mão, os olhos cheios de compaixão. Clara, você já tentou empréstimos? Todos me recusaram.
A voz dela falhou. Minha renda freelance não é suficiente como garantia. E mamãe não pode trabalhar com o tratamento da diabetes e hipertensão. Eu não sei mais o que fazer. Foi Nana quem mencionou quase sem querer. Tem um cara no clube do meu irmão, um CEO bilionário.
Ele está procurando uma esposa para eventos sociais. Nada romântico, tipo um acordo de negócios. Na época, a ideia pareceu absurda, mas quando Clara voltou para a casa apertada no tatuapé, viu a mãe Maria Santos, 65 anos, tentando esconder a dor nas juntas, tentando sorrir como se não estivesse preocupada. A proposta absurda começou a fazer sentido.
Três semanas depois, Clara estava sentada em um café sofisticado na Faria Lima, de frente para Rafael Mendes Almeida. Deixe-me ser direto, Senrita Santos. Ele disse, sem rodeios. Preciso de uma esposa apresentável para eventos sociais e negociações com parceiros mais conservadores.
Alguém refinada, inteligente, que possa conversar sobre arte, literatura, negócios. Em troca, ofereço estabilidade financeira completa. Quanto tempo? Clara perguntou à garganta seca. Do anos inicialmente, com opção de renovação. 2 anos. 730 dias. Clara fez as contas mentalmente. Conseguiria pagar todas as dívidas da mãe salvar a casa. Ainda teria uma reserva financeira.
poderia voltar a escrever sem o desespero constante de precisar aceitar qualquer trabalho freelance medíocre só para pagar as contas. E quanto às expectativas conjugais, ela forçou as palavras para fora. Rafael a estudou com aqueles olhos castanhos escuros e impenetráveis. Teremos quartos separados. Não espero nada além de companheirismo público.
Você terá sua privacidade. Eu terei a minha. Algo dentro de Clara se partiu naquele momento, mas ela empurrou o sentimento para baixo. Isso não era sobre romance, era sobrevivência, sobre dar à mãe os cuidados médicos que merecia, sobre salvar a casa onde o pai, que morrera 5 anos antes, havia criado tantas memórias felizes quando precisaria da resposta.
Esta semana tenho um evento importante em Brasília na próxima segunda-feira e preciso comparecer acompanhado. Clara olhou pela janela do café. vendo as pessoas passarem apressadas pela Faria Lima, executivos de terno, empresários fechando negócios, o coração pulsante do capitalismo paulistano. Esse não era o mundo dela.
Ela vinha do tatu a pé, tinha crescido pegando o metrô lotado, estudara em escola pública, conseguira a faculdade de letras com bolsa, mas o mundo dela estava desmoronando. E às vezes, para salvar quem amamos, precisamos fazer escolhas impossíveis. Aceito. De volta ao presente, Clara abriu os olhos, encarando novamente seu reflexo no espelho da cobertura. 14 meses. Havia pago todas as dívidas da mãe. A casa no tatuapé estava segura.
Maria Santos tinha os melhores médicos, os melhores remédios, tratamento de ponta. E Clara. Clara estava desaparecendo. Não fisicamente. Fisicamente ela nunca esteve melhor. Personal trainer três vezes por semana. nutricionista, dermatologista, cabeleireiro.
Mas por dentro, pedaço por pedaço, dia após dia, ela sentia sua essência se dissolvendo. Havia parado de escrever. Seu romance, que estava na metade quando se casou, permanecia entocado no laptop. As palavras simplesmente não vinham mais. Como poderia escrever sobre emoções humanas quando havia se tornado uma boneca de porcelana em uma vitrine de luxo? Seu celular vibrou. Uma mensagem de Nana.
Almoço hoje. Sinto sua falta, amiga. Clara digitou rapidamente. Não posso. Evento beneficente à noite. Preciso ir ao salão. Três pontinhos apareceram e desapareceram várias vezes antes da resposta de Nana. Você está feliz, Clara? A pergunta ficou pendurada na tela como uma acusação. Clara bloqueou o celular sem responder. Feliz. Que conceito estranho. Ela estava segura.
Estava confortável. Sua mãe estava saudável. Tecnicamente tinha tudo, exceto ela mesma. Clara caminhou até a janela, olhando São Paulo se estender até onde a vista alcançava. Em algum lugar lá embaixo, no meio de 22 milhões de pessoas, havia uma versão dela que ainda sonhava, que ainda escrevia histórias sobre gente de verdade com problemas de verdade, que ainda ria genuinamente, que ainda acreditava que podia ser amada.
Mas essa clara estava enterrada sob camadas de seda importada, jantares protocolares e conversas vazias. O interfone tocou, o porteiro anunciando que o motorista particular estava esperando para levá-la ao salão de beleza. Clara pegou a bolsa Prada, outro presente de Rafael dado com a mesma emoção com que se entrega um brinde corporativo e foi em direção à porta.
Hoje à noite seria igual a todas as outras noites. Ela usaria o vestido caro, faria papel de esposa perfeita, sorriria nos lugares certos, conversaria sobre temas apropriados. Rafael posaria ao seu lado para fotos, a mão na parte baixa das suas costas, o único toque que recebia, e mesmo esse era performático para as câmeras.
E então voltariam para a cobertura silenciosa. Ele iria para seu escritório, ela iria para seu quarto e ambos continuariam sendo estranhos, elegantes, vivendo sob o mesmo teto de luxo. Mas enquanto Clara esperava o elevador, algo diferente aconteceu. Ela viu seu reflexo nas portas espelhadas e, pela primeira vez em 14 meses, não reconheceu a mulher que a encarava de volta.
E uma pergunta terrível, inevitável, impossível de ignorar, tomou forma em sua mente. Quanto tempo mais até eu desaparecer completamente. O Grand Hiat São Paulo estava impecável, como sempre. Lustres de cristal lançavam luz dourada sobre as 300 pessoas mais influentes da cidade. Mulheres em vestidos de alta costura, homens em smokings impecáveis, garçons circulando com champanhe francês e canapés elaborados.
O evento beneficente da AACD havia atraído a elite paulistana, todos dispostos a abrir as carteiras em nome da caridade e, é claro, das oportunidades de networking. Clara estava ao lado de Rafael, sorrindo educadamente enquanto ele conversava com um grupo de investidores internacionais. Seu vestido azul marinho Valentino, escolhido por Rafael porque transmitia elegância sem chamar atenção excessiva, caía perfeitamente em seu corpo.
Os sapatos Lobutã de salto alto faziam suas panturrilhas arderem, mas ela mantinha a postura impecável. A aquisição da Techfow representa uma expansão estratégica para o mercado asiático. Rafael explicava em inglês fluente, gesticulando com o copo de whisky escocês. Projetamos um crescimento de 40% no próximo trimestre fiscal. Clara tinha decorado todos esses números.
havia passado a tarde toda lendo os relatórios financeiros da empresa de Rafael, preparando-se para conversas como essa. Era parte de seu trabalho ser capaz de contribuir inteligentemente quando necessário, mas nunca ofuscar o marido. E a senhora Romano, um dos investidores, um americano de cabelos grisalhos chamado Richard Blackwell, voltou-se para ela com um sorriso cort.
Ouvi dizer que a escritora ou Clara respondeu surpreendida por alguém demonstrar interesse genuíno. Escrevo principalmente ficção contemporânea. Fascinante. Publicou algo recentemente? A pergunta foi como um soco no estômago. Estou trabalhando em um novo projeto. Era mentira.
Ela não escrevia uma palavra há meses, mas Rafael já havia se virado, puxado para outra conversa por um empresário japonês. A mão dele abandonou a parte baixa das costas dela, o único ponto de contato entre eles. E de repente, Clara estava sozinha novamente, mesmo cercada por centenas de pessoas.
“Com licença!”, ela murmurou para Richard Blackwell, que já havia se distraído com outra conversa. Clara navegou pela multidão em direção ao terraço. Precisava de ar. precisava de um momento onde não tivesse que sorrir, acenar, representar o papel de esposa perfeita de CEO bilionário. O terraço estava quase vazio, o ar noturno de São Paulo, surpreendentemente fresco para um fevereiro.
As luzes da cidade piscavam no horizonte, milhões de vidas acontecendo simultaneamente. Em algum lugar lá embaixo, pessoas riam de verdade, choravam de verdade, viviam de verdade. Fugindo também, Clara se virou. Uma mulher de aproximadamente 50 anos estava encostada na bala austrada, segurando uma taça de vinho tinto.
Ela usava um vestido verde esmeralda e tinha uma expressão cansada, mas gentil no rosto. Desculpe, não queria incomodar. Clara começou. Por favor, incomode. Estou desesperada por uma conversa que não envolva ações, fusões ou quanto dinheiro alguém ganhou este ano. A mulher estendeu a mão. Beatriz Carneiro. Meu marido é o dono da Carneiro Engenharia. Clara Romano. Elas apertaram as mãos. Meu marido é Rafael Mendes.
Eu sei, todo mundo sabe. Beatriz deu um sorriso irônico. Ele é basicamente a estrela do rock do mundo corporativo paulistano. Clara não pôde evitar uma risada. amarga. Sim, suponho que seja. Beatriz a estudou com olhos perspicazes. Quanto tempo vocês estão casados? 14 meses. Ah, havia um peso naquele Ah, como se explicasse tudo.
E ele ainda mal olha para você. Aposto Clara sentiu o sangue gelar. Eu, querida, estou casada há 28 anos. Beatriz tomou um gole do vinho. Reconheço uma mulher invisível quando vejo uma. As palavras cortaram mais fundo do que Clara esperava. Ela piscou rapidamente, tentando impedir que as lágrimas se formassem. Não aqui, não agora.
Ela era a esposa imaculada de Rafael Mendes. Esposas Imaculadas não choram em eventos beneficentes. Desculpe, Beatriz disse mais suavemente, tocando o braço de Clara. Fui insensível. Não conheço sua história. Não há história. Clara respondeu automaticamente. Então, surpreendentemente, as palavras começaram a sair. Ou melhor, essa é a história. Um casamento sem história.
14 meses vivendo com um homem que mal sabe meu segundo nome, Santos. Beatriz disse gentilmente. Seu segundo nome é Santos. Li sobre você em uma matéria da revista Veja quando vocês se casaram. Escritora freelance do Tatuapé, formada em letras pela USP, uma das poucas pessoas normais que penetraram a bolha da elite paulistana.
Clara se virou completamente para Beatriz, os olhos arregalados. Você leu sobre mim, querida? Você foi a sensação do ano passado. Beatriz sorriu. Todo mundo estava curioso sobre quem havia capturado o coração do Rafael Mendes, o orcaholic mais cotado de São Paulo, o homem que havia jurado nunca se casar depois. Ela parou abruptamente, mas era tarde demais.
Depois do quê? Clara exigiu sentindo algo se agitar em seu peito. Uma necessidade de entender, de saber qualquer coisa sobre o homem com quem dividia um teto. Beatriz hesitou mordendo o lábio. Você realmente não sabe? Sei o quê? Sobre Juliana e Isabela. Os nomes caíram como pedras. Clara repetiu-os mentalmente, procurando alguma memória, alguma menção. Nada.
Rafael nunca havia falado desses nomes, nunca havia falado de nada pessoal, na verdade. Quem são elas? Clara sussurrou. Beatriz a encarou por um longo momento, claramente em conflito. Então, suspirou profundamente. Não é minha história para contar, mas acho que você merece saber que seu marido tem razões para manter distância, razões devastadoras.
Antes que Clara pudesse pressioná-la por mais informações, a porta do terraço se abriu. Rafael surgiu, os olhos varrendo o espaço até encontrá-la. Clara, sua voz era educada, mas havia uma nota de algo que ela não conseguia identificar. Irritação, preocupação. Estão servindo o jantar. Precisamos nos sentar. Claro. Clara se virou para Beatriz.
Foi um prazer conhecê-la. O prazer foi meu, querida. Beatriz tocou sua mão novamente, apertando de leve. Em voz baixa, apenas para Clara ouvir, ela acrescentou: “Ninguém merece ser invisível. Lembre-se disso. Clara seguiu Rafael de volta para o salão, mas sua mente estava em turbilhão.
Juliana e Isabela, quem eram essas mulheres? Por que Beatriz achava que ela merecia saber? Durante o jantar, salmão defumado seguido de medalhão ao molho Madeira, Clara ficou quieta, empurrando a comida no prato enquanto Rafael conversava com os empresários sentados à mesa. À sua direita, uma socialite falava sem parar sobre a última coleção da Hermes.
À sua esquerda, um investidor discutia Bitcoin e Clara estava ali presente fisicamente, mas completamente ausente em espírito, pensando em nomes que não conhecia de uma vida que seu marido nunca compartilhou. Quando o mestre de cerimônias subiu ao palco para o leilão beneficente, Clara se pegou, observando Rafael, realmente observando. Seu perfil patrício, a linha forte da mandíbula, a maneira como seus dedos tamborilavam no copo de whisky, um gesto raro de inquietação. Quem era esse homem? Ela havia concordado em se casar com ele, viver a 14 meses sob o mesmo teto e não
sabia absolutamente nada sobre quem ele realmente era. Lance de 50.000 por uma semana em Paris. O leiloeiro anunciava: “Alguém dá 60?” Rafael levantou discretamente sua plaqueta. 60.000. 70. Alguém da mesa ao lado gritou. 80. Rafael retrucou sua voz firme. Clara o observou. Ele gostava de Paris.
Já havia estado lá. Sonhava em ir. Ela não sabia. Não sabia nada. 100.000. Outro competidor entrou na disputa. 150.000. Rafael disse calmamente e o salão ficou em silêncio. Vendido para Rafael Mendes. Aplausos educados. Rafael acenou com a cabeça, guardando a plaqueta. Clara esperou que ele dissesse algo, qualquer coisa. Sempre quis voltar para Paris.
Lembro de uma viagem mágica lá. Até mesmo isso vai impressionar os clientes franceses, seria algo, mas ele simplesmente tomou outro gole de whisky e voltou a verificar e-mails no celular sob a mesa. R$ 150.000. Joguei sem pestanejar em uma viagem que provavelmente nem faria. Clara sentiu algo se romper dentro dela.
Não era raiva, não era mágoa, era algo pior, era indiferença. A percepção lenta e terrível de que ela poderia desaparecer daquela mesa, daquela festa, daquela vida. E Rafael provavelmente nem notaria até precisar de uma acompanhante para o próximo evento.
Três horas depois, no caminho de volta para casa, no banco de couro do Mercedes S Class, Clara finalmente quebrou o silêncio. Rafael, hum, ele estava como sempre focado no laptop. Quando foi a última vez que compartilhamos algo de verdade. Os dedos dele pararam sobre o teclado. Lentamente, ele levantou os olhos para ela. Como assim? uma conversa, um momento, qualquer coisa que não envolvesse seus negócios ou obrigações sociais.
Rafael franziu a testa, claramente confuso pela pergunta. Conversamos todos os dias. Não, você me dá instruções e eu obedeço. As palavras saíram mais duras do que Clara pretendia, mas ela não as retirou. Mas quando foi a última vez que você perguntou como estou, o que estou pensando? O que me faz feliz ou triste? Ele fechou o laptop com um clique suave. virando-se completamente para ela.
Pela primeira vez em semanas, Rafael estava verdadeiramente olhando para Clara e havia algo em seus olhos. Surpresa, desconforto? Eu Ele hesitou. Pensei que você estava satisfeita. Tem tudo o que precisa. Sua mãe está bem cuidada. A casa no tatuapé está segura. Você tem acesso ilimitado a coisas. Clara interrompeu.
Você me deu acesso a coisas. Mas e quanto a você? Quando vou ter acesso a você? O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de 14 meses de palavras não ditas. Este era o acordo. Rafael finalmente disse, sua voz baixa e controlada. Deixei claro desde o início que que seria um casamento de conveniência. Eu sei. Clara sentiu as lágrimas queimarem. Masa e segurou.
Mas não sabia que conveniência significaria me sentir invisível. Não sabia que significaria desaparecer. Rafael abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Pela primeira vez desde que ela o conhecera, ele parecia perdido, sem um script pronto, sem uma resposta de executivo ensaiada. O carro parou em frente ao prédio da cobertura. O porteiro já estava correndo para abrir a porta.
Boa noite, senor Mendes. Senora Romano? Ele cumprimentou alegremente. Rafael saiu do carro esperando que Clara o seguisse, mas ela ficou sentada por um momento, olhando para o prédio de luxo. 23 andares de vidro e aço, um monumento à riqueza e ao sucesso, e ela, uma prisioneira voluntária em um castelo dourado.
Quando finalmente entrou no elevador privativo ao lado de Rafael, Clara percebeu que não tinham se tocado uma única vez durante todo o evento, nem na chegada, nem durante o jantar, nem na saída. A única vez que ele havia colocado a mão em suas costas foi para a foto oficial do evento. E mesmo aquele toque havia sido mecânico, ensaiado.
As portas do elevador se fecharam e Clara observou seus reflexos no espelho, dois estranhos lindamente vestidos, separados por 30 cm de espaço e anos luz de distância emocional. E ela soube, com uma certeza que a aterrorizou e libertou ao mesmo tempo. Não poderia viver assim para sempre. Os dias seguintes ao evento beneficente foram idênticos aos dias anteriores.
Rafael saindo cedo, voltando tarde, trocando poucas palavras educadas no café da manhã. Mas algo havia mudado. Clara não conseguia mais ignorar. Cada silêncio pesava mais. Cada refeição solitária doía mais. Era quinta-feira de manhã quando ela finalmente tomou uma decisão.
Vestiu jeans, verdadeiros jeans, não as calças de grife que enchiam seu closet e uma blusa simples de algodão que encontrou enterrada no fundo das gavetas. Pegou o metrô pela primeira vez em 14 meses. A linha vermelha estava lotada como sempre. Corpos comprimidos, conversas sobrepostas, o cheiro de café e perfume misturados. Era desconfortável, caótico e real, maravilhosamente real. Clara desceu na estação Tatu a pé e caminhou pelas ruas familiares de sua infância, a padaria onde pegava pão quente todas as manhãs antes da escola, a praça onde havia aprendido a andar de bicicleta, a banca de jornal do seu Osvaldo que ainda a reconheceu mesmo depois de tanto tempo. “Clarinha!”, Ele gritou, o rosto
enrugado se abrindo num sorriso enorme. Quanto tempo, menina, está rica e famosa agora. Esqueceu dos pobres mortais. Clara riu. Uma risada genuína, leve. Nunca esqueceria de você, seu Osvaldo. Vi sua foto na revista, toda chique com aquele maridão. Sua mãe deve estar orgulhosa, hein? Está bem de saúde, graças a Deus.
Clara sentiu um aperto no peito. O único motivo pelo qual aceitara aquele casamento, a única coisa que tornava tudo suportável. Manda um abraço e volta mais vezes. Seu Osvaldo já estava atendendo outro cliente. Clara continuou andando até parar em frente a um lugar que pensava nunca mais ver, o café páginas em grãos. A pequena cafeteria ocupava um espaço apertado entre uma farmácia e uma loja de roupas, mesas de madeira com marcas de uso, cadeiras desemparelhadas, uma estante improvisada lotada de livros usados disponíveis para a troca. O aroma de café coado na hora a envolveu assim que
ela abriu a porta. “Não acredito.” Clara se virou. Alex Silva, poeta, professor de literatura e velho amigo do grupo de escritores, estava de pé ao lado do balcão, segurando duas xícaras de café. Ele tinha 32 anos, cabelo castanho claro, levemente bagunçado, olhos verdes que sempre pareciam estar observando o mundo com uma curiosidade constante.
Usava uma camisa xadrez de botões e de jeans surrados. Alex, Clara sentiu uma onda de emoção inesperada. Oi. Oi. Ele colocou a xícara sobre uma mesa e caminhou até ela. Desaparece por mais de um ano. Fica famosa, casa com um bilionário e tudo que tem o direito é um “i”.
” Mas ele estava sorrindo e quando a puxou para um abraço apertado, Clara sentiu algo dentro dela começar a rachar. “Não a frieza calculada que havia construído para sobreviver. “Algo mais profundo, mais perigoso. Senti sua falta.” Ela sussurrou contra o ombro dele. Também senti a sua. Alex se afastou, segurando os ombros dela enquanto a estudava. Você está diferente. Diferente bem ou diferente? Mal. Diferente, polida.
Como uma escultura em mármore, bonita, mas fria. Ele franziu a testa. O que aconteceu com você, Clara Santos? Ela queria dizer nada. queria sorrir brilhantemente e inventar uma história sobre como estava feliz, realizada, vivendo um conto de fadas. Mas ao olhar para Alex, Alex, que a conhecia desde os tempos de faculdade, que havia lido seus primeiros contos terríveis, que havia ficado ao seu lado no funeral do pai, ela não conseguiu mentir.
“Eu me perdi”, Clara disse simplesmente. Alex não respondeu imediatamente. Pegou uma das xícaras de café que havia deixado na mesa e estendeu para ela. Ainda toma com açúcar mascavo e um pouco de leite? Clara pegou a xícara surpreendida. Nos últimos 14 meses, Rafael nunca havia perguntado como ela gostava do café, nunca havia oferecido para preparar uma xícara, nunca havia demonstrado o menor interesse em pequenos detalhes sobre ela. “Você lembra?”, ela murmurou. “Claro que lembro.
” Alex indicou uma mesa no canto, longe da janela. Senta, me conta tudo. E ela contou. Não tudo. Existiam alguns detalhes do contrato matrimonial que eram legalmente confidenciais, mas o suficiente, a solidão, a invisibilidade, a sensação de desaparecer um pedaço por vez. Alex escutou sem interromper, apenas segurando a própria xícara de café enquanto ela falava.
Quando Clara finalmente parou, exausta pela confissão, ele ficou quieto por um longo momento. “Você ainda escreve?” Ele finalmente perguntou. Clara balançou a cabeça. Por quê? Não consigo. As palavras, elas simplesmente não vêm mais. Ela encarou o café, observando os pequenos redemoinhos de leite. Como posso escrever sobre emoções humanas quando me sinto como uma boneca de porcelana? Você não é uma boneca.
Alex disse firmemente. Você é Clara Santos. A mesma garota que escreveu aquele conto devastador sobre o pai dela trabalhando dupla jornada só para comprar livros para a filha. A mesma mulher que me fez chorar com a história sobre a senhora que vendia flores no metrô. Essa Clara morreu. Ela sussurrou. Mentira.
Alex estendeu a mão sobre a mesa, parando a centímetros da dela sem tocar. Ela só está enterrada, mas eu posso vê-la agora, Clara, nos seus olhos. Ela ainda está aqui lutando para respirar. As lágrimas que Clara havia segurado por 14 meses finalmente caíram. Silenciosas, quentes, libertadoras. Não sei como voltar”, ela confessou. “Não sei como ser eu mesma de novo”, começa pequeno.
Alex se levantou e caminhou até a estante de livros, retornando com um caderno de capa dura azul marinho e uma caneta. Colocou ambos na frente dela. Escreve uma frase, uma palavra, qualquer coisa, todos os dias. Promete. Clara pegou o caderno, passando os dedos pela capa lisa. Quanto tempo desde que havia segurado algo assim? Algo que não custava R$ 1.
000, que não era escolhido por um personal shopper, que não servia para impressionar ninguém. Alex, eu não posso aceitar. Sim, pode. E vai. Ele sorriu. Aquele sorriso fácil e genuíno que ela não via há tanto tempo. Considera pagamento adiantado. Quando você voltar a escrever de verdade e se tornar uma autora famosa, me dá um exemplar autografado do seu romance. Eu nem sei se vou terminar algum romance.
Vai. Ele disse com tanta certeza que Clara quase acreditou. E, enquanto isso, volta aqui toda semana, nem que seja para tomar café e reclamar da vida comigo. Tenho certeza que você tem coisas melhores para fazer do que ouvir meus problemas. Clara. Alex se sentou novamente, inclinando-se para a frente. Você está presa em uma gaiola dourada com um homem que não te vê.
Não tem amigos por perto, parou de fazer o que ama. Isso não é problema pequeno. E não vou deixar você afundar sozinha só porque tecnicamente tem uma conta bancária gorda. As palavras dele deveriam soar como pena, mas não soavam. soavam como amizade, como preocupação genuína, como alguém vendo ela realmente vendo pela primeira vez em muito tempo.
“Obrigada”, Clara disse, sua voz quebrando levemente. Eles ficaram ali por mais duas horas conversando sobre livros, política, a gentrificação do tatu aapé, o absurdo dos preços dos aluguéis em São Paulo, conversas normais, humanas reais. Quando Clara finalmente olhou para o celular, era quase 5 da tarde. Três mensagens perdidas de Rafael. Chego às 20 horas.
Jantar em casa? Clara, está tudo bem? Ela digitou rapidamente. Sim, chego logo. Preciso ir. Ela disse para Alex levantando-se. Ele também se levantou as mãos nos bolsos. Quinta-feira que vem, mesmo horário. Clara hesitou. Deveria? Mas então olhou para o caderno azul em suas mãos. sentiu o peso dele, a promessa dele e assentiu.
Quinta-feira, no metrô de volta para casa, Clara abriu o caderno. A primeira página estava em branco, uma vastidão branca e aterrorizante de possibilidades. Ela pegou a caneta que Alex havia dado, respirou fundo e escreveu: “Às vezes me pergunto se ele notaria se eu desaparecesse gradualmente, um pedaço por vez.
Primeiro meus sonhos, depois minha voz, então meu coração, até que sobrassem apenas roupas caras e sorrisos vazios, e ninguém saberia a diferença. Uma frase, era só uma frase, mas era a primeira coisa que Clara Santos havia escrito em 14 meses que vinha de um lugar verdadeiro. Era um começo. Quando chegou à cobertura às 7 da noite, Rafael estava no escritório ao telefone, gesticulando enfaticamente enquanto falava em mandarim. Ele acenou para ela, apontando para o relógio e levantando oito dedos. Oito minutos.
Clara foi para o quarto, trocou a roupa simples por algo apropriado, um vestido midi de linho bege, e se olhou no espelho. A mulher que a encarava de volta usava roupas caras e tinha o cabelo perfeitamente penteado. Mas em seus olhos, pela primeira vez em muito tempo, havia algo além de resignação.
Havia uma faísca, pequena, frágil, mas inegavelmente lá. E Rafael, ocupado demais para verdadeiramente olhar, não notou absolutamente nada. As quintas-feiras se tornaram o ritual secreto de Clara. Toda semana ela pegava o metrô até o tatuapé, encontrava Alex no café páginas em grãos e, por algumas horas, lembrava-se de quem costumava ser.
Na terceira semana, ela mostrou a ele o caderno, 21 frases, algumas eram apenas fragmentos, observações sobre a luz entrando pelas janelas da cobertura, a maneira como o silêncio pode ser ensurdecedor, o peso de um anel de casamento que deveria simbolizar amor, mas parecia apenas metal frio. “Está escrevendo de novo”, Alex disse, foliando as páginas com um sorriso orgulhoso. “Eu sabia que você voltaria. Não é bem escrever, são só pensamentos.
Todos os grandes livros começam com pensamentos. Ele devolveu o caderno. Continue. Não para mesmo quando doer. Especialmente quando doer. Mas não eram apenas as quintas-feiras que mudaram. Clara começou a fazer pequenas rebeliões. Na primeira, ela visitou a mãe sem avisar Rafael.
pegou um Uber até o tatu aapé numa terça-feira de manhã e passou o dia inteiro na casa onde cresceu. Maria Santos quase chorou ao vê-la. Minha filha, ela abraçou Clara com força, cheirando a sabão de coco e amor maternal. Quanto tempo! Estava começando a achar que havia esquecido o caminho de casa. Nunca esqueceria, mãe. Clara se acomodou na velha mesa da cozinha.
O mesmo lugar onde havia feito lições de casa, escrito seus primeiros contos. chorado suas primeiras decepções. Como está se sentindo? Bem, bem. Maria colocou a chaleira no fogão. Os remédios novos estão funcionando maravilhosamente. A pressão está controlada. O açúcar também. Graças a Deus. E graças a você e seu marido. Claro. Clara forçou um sorriso. Sim.
Rafael havia pagado todos os tratamentos, mas era porque ele havia assinado um contrato, não porque amava Clara ou se importava genuinamente com Maria. Era obrigação contratual, não bondade. E você, filha? Maria se sentou com duas xícaras de chá caseiro. Está feliz? Claro. Clara mentiu automaticamente. Mas Maria Santos não era boba. Havia criado uma filha sozinha depois que o marido morreu.
Havia trabalhado três empregos simultaneamente para pagar a faculdade de Clara. Conhecia cada expressão, cada tom de voz, cada mentira da filha. Clarinha. Ela segurou a mão de Clara sobre a mesa. Você pode me contar a verdade. E Clara, cansada de mentir, cansada de fingir, deixou as palavras saírem. Ele não me ama, mãe. Ele nem me conhece. Somos estranhos vivendo na mesma casa. Maria não pareceu surpresa, apenas triste.
Você fez isso por mim, não foi? O casamento. Aceitou-se casar com ele por causa das minhas dívidas. Eu quis fazer. Clara disse rapidamente: “Você é minha mãe. Daria qualquer coisa, mas não deveria ter que dar sua felicidade. Maria apertou sua mão. Nunca deveria ter que sacrificar sua vida por mim.
Não foi sacrifício, foi escolha. E agora? Ainda é sua escolha continuar?” A pergunta ficou suspensa no arreas. Clara não tinha resposta. ficaram em silêncio, tomando chá, até que Maria falou novamente. Seu pai costumava dizer que a vida era muito curta para viver na metade. Ou você vive completamente ou está apenas existindo.
Ela tocou o rosto de Clara. Qual você está fazendo, minha filha? Clara não conseguiu responder porque a verdade doía demais. A segunda rebelião aconteceu numa sexta-feira à noite. Rafael havia mencionado casualmente no café da manhã que tinha um jantar de negócios importante com investidores coreanos.
Vista algo elegante, mas conservador, ele instruiu, como sempre. Eles são tradicionais. Nada muito ousado. Clara acenou com a cabeça, como sempre. Mas quando chegou a hora de se arrumar, ela abriu o closet e pela primeira vez escolheu algo que ela queria usar. Um vestido vermelho Versach que Rafael havia comprado, mas ela nunca ousara usar.
Era ousado, era chamativo, era completamente inapropriado para um jantar com investidores conservadores. Era perfeito. Quando Rafael a viu, ele congelou. Eles estavam no hall, o motorista já esperando lá embaixo. Rafael abriu a boca. Fechou. Abriu novamente. Clara, eu pedi para você escolher algo conservador. Eu sei. Ela pegou a bolsa de mão. Mas eu gostei deste. Os coreanos vão achar.
Vão achar o quê? Que sua esposa tem personalidade própria. Que não sou apenas uma boneca que você veste do jeito que acha apropriado. As palavras saíram mais afiadas do que Clara pretendia. Rafael piscou claramente pego de surpresa. Nos 14 meses de casamento, Clara nunca havia respondido assim, nunca havia questionado, nunca havia se rebelado. Não era minha intenção implicar.
Ele parou, passando a mão pelo cabelo, numa demonstração rara de frustração. Está bem, use o que quiser. Mas durante o jantar inteiro no Fazano, um dos restaurantes mais exclusivos de São Paulo, Rafael estava visivelmente desconfortável. Os coreanos, para a surpresa de ambos, foram extremamente educados e encantadores com Clara.
A esposa do CEO principal até elogiou seu vestido. No caminho de volta, o silêncio no carro era tenso. Você me fez parecer um idiota. Rafael finalmente disse. Não, eu me vesti do jeito que quis. Clara manteve a voz calma. Você fez você mesmo parecer controlador ao presumir que eu não saberia me comportar apropriadamente.
Não é sobre controle, é sobre é sobre você me tratar como um acessório. Clara se virou para encará-lo. Você me instrui sobre o que vestir, como agir, o que dizer. Sou sua esposa, Rafael, não sua funcionária. Tecnicamente, ele começou, mas parou quando viu a expressão dela. Clara sentiu algo quebrar. Vai dizer isso? Vai dizer que tecnicamente nosso casamento é uma relação de trabalho? Rafael ficou em silêncio, mas o silêncio foi resposta suficiente. Para Clara, disse subitamente para o motorista.
Para o carro, senhora Romano? O motorista hesitou, olhando para Rafael pelo espelho retrovisor. Para o carro. O Mercedes parou no acostamento da Avenida Paulista. Clara abriu a porta e saiu. Clara, o que você está fazendo? Rafael saiu atrás dela claramente confuso. Andando, vou andar. Andar? São 11 da noite. É perigoso. E viver com você não é.
Ela se virou para encará-lo às luzes da avenida, iluminando o seu rosto. Todo dia eu acordo e me sinto um pouco menos real, um pouco menos eu. Isso não é perigoso, Rafael. Eu nunca pedi para você mudar. não pediu, apenas criou um ambiente onde ser eu mesma não é permitido, onde cada escolha precisa passar pela sua aprovação, onde eu existo, apenas em função de você.
As lágrimas queimavam nos olhos dela, mas Clara não deixou cair. Você sabe qual foi a última coisa que escolhi sozinha antes de hoje? Aceitar me casar com você. E olha no que deu. Rafael deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco. Por um momento, ele parecia ter 15 anos a menos, vulnerável, perdido.
Eu não sabia que você se sentia assim, porque nunca perguntou. Clara pegou a bolsa e começou a andar. Vá para casa, Rafael. Eu vou ficar bem. Não vou deixar você andar sozinha pela Paulista à noite. Então ande atrás, mas me dê espaço. E ela andou pelas calçadas movimentadas da Paulista. passando por bares ainda abertos, casais rindo, vendedores ambulantes, vida real acontecendo ao redor dela.
Rafael a seguiu a uma distância de 10 m, as mãos nos bolsos completamente deslocado naquele cenário urbano e vibrante. O CEO bilionário, acostumado a ser servido e obedecido, caminhando atrás de uma mulher que finalmente havia dito não. Depois de 20 minutos, Clara parou em frente a uma banca de cachorro quente. O vendedor, um senhor de uns 60 anos, sorriu para ela. Boa noite, moça.
Vai querer um? Clara olhou para os cachorros quentes, tão distantes do salmão defumado, e medalhões ao molho de vinho que havia jantado. Comida de rua, comum, deliciosamente normal. Quero contudo, boa escolha. O vendedor começou a preparar enquanto falava animadamente. Noite linda, né? Quase sem nuvens. Lembro quando era garoto. São Paulo tinha tantas estrelas.
Hoje mal dá para ver com a poluição luminosa. Clara olhou para cima. Ele estava certo. Quase nenhuma estrela visível. Mas a lua estava lá, redonda e brilhante. Aqui está R$ 5. Clara pegou a carteira e congelou. Não tinha dinheiro. Nos últimos 14 meses. Ela nunca havia precisado de dinheiro vivo. Tudo ia no cartão de crédito Platinum de Rafael. Tudo era pago sem ela tocar em cédulas.
Eu começou sentindo as bochechas queimarem de vergonha. Eu pago Rafael disse, aparecendo ao lado dela e estendendo uma nota de R$ 20 para o vendedor. Obrigado, chefe. O vendedor pegou o dinheiro e deu o troco. Esposa sortuda ter um marido que paga cachorro quente à meia-noite. Rafael não respondeu, apenas ficou ali deslocado e claramente inseguro sobre o que fazer.
Clara mordeu o cachorro quente. Estava longe de ser gourmet. A salsicha era comum, o pão era básico, os condimentos eram genéricos e estava absolutamente delicioso, porque era real, porque ela havia escolhido, porque pela primeira vez em 14 meses não estava comendo o que Rafael ou algum chefe ou evento social determinava. “Quer?”, ela ofereceu para Rafael.
Ele olhou para o cachorro quente como se fosse um artefato alienígena. “Eu não como comida de rua desde”. Desde quando? Rafael hesitou. Desde que tinha 20 anos, acho 22 anos atrás. Clara calculou mentalmente. Você passou 22 anos sem comer um cachorro quente de rua. Tenho um nutricionista. Um plano alimentar balanceado.
Preocupações com conviver como uma pessoa normal? Clara terminou. Ela deu outra mordida, mastigou lentamente. É só comida, Rafael. Não vai matar você. Cautelosamente, quase cômicamente, Rafael pegou o cachorro quente e deu uma pequena mordida. Seus olhos se arregalaram. Está realmente bom. Bem-vindo ao mundo real. Clara sorriu pela primeira vez naquela noite.
Ficaram ali na calçada da paulista comendo cachorro quente enquanto o mundo passava ao redor. Não conversaram, mas pela primeira vez desde que se casaram, estavam genuinamente juntos no mesmo espaço, compartilhando a mesma experiência. Quando terminaram, Rafael finalmente falou: “Sinto muito, pelo quê? Por não perceber.” Ele olhou para ela e havia algo diferente em seus olhos.
Não apenas culpa, algo mais profundo, por te tratar como como um item a ser gerenciado ao invés de uma pessoa para ser conhecida. “Por que você faz isso?”, Clara perguntou suavemente. “Por que mantém todo mundo à distância?” Rafael abriu a boca, mas então fechou. O que quer que estivesse prestes a dizer, ele engoliu de volta. É complicado.
Juliana e Isabela Clara disse, as palavras saindo antes que pudesse pensar. Rafael congelou completamente. A cor fugiu de seu rosto. Como você? Alguém mencionou os nomes. Clara segurou o braço dele gentilmente. Não precisa falar sobre isso agora. Mas Rafael, seja lá o que aconteceu, seja lá quem elas eram, guardar tudo dentro.
está te matando e está matando qualquer chance que possamos ter de ser algo além de estranhos bem vestidos. Por um momento, Clara achou que ele fosse falar. Seus lábios se separaram, os olhos brilharam com algo que poderia ser lágrimas, mas então Rafael recuou, recompondo a máscara de controle. Devíamos voltar.
Está tarde. E Clara soube. Se quisesse sobreviver, teria que escolher entre afundar com ele ou aprender a nadar sozinha. Clara não mencionou o episódio do cachorro quente para ninguém, nem mesmo para Alex. Era um momento estranho, frágil, uma rachadura minúscula na fachada de mármore que Rafael havia construído ao redor de si mesmo.
Ela não sabia o que fazer com aquela rachadura: ampliá-la, ignorá-la, esperar que Rafael a consertasse e voltasse ao normal. Mas uma coisa havia mudado definitivamente. Clara parou de seguir as regras sem questionar. Na quinta-feira seguinte, no café Páginas em Grãos, ela contou a Alex sobre suas pequenas rebeliões.
“Estou orgulhoso de você”, ele disse mexendo o café. Está lutando de volta. Não sei se é lutar ou apenas existir, fazer pequenas escolhas que deveriam ser óbvias, mas parecem revolucionárias. Às vezes, a maior revolução é simplesmente recusar continuar invisível. Lex inclinou-se para a frente.
E a escrita? Como está o caderno? Clara abriu a bolsa e tirou o caderno azul. Estava mais preenchido agora. Não apenas frases, mas parágrafos inteiros. Observações sobre a vida na cobertura, reflexões sobre casamento e solidão, fragmentos de diálogos que ecoavam em sua mente. Alex leu algumas páginas, seu rosto se tornando cada vez mais sério. Quando finalmente levantou os olhos, eles estavam marejados.
Clara, isso é devastador e lindo. Você precisa transformar isso em algo maior. Como? Escreve a história. A história de verdade. Uma mulher presa em um casamento dourado, lutando para se lembrar de quem é. Ele devolveu o caderno. As pessoas precisam ler isso. Precisam saber que não estão sozinhas se sentirem assim. É muito pessoal. A melhor literatura sempre é.
Clara guardou o caderno pensativa. Será que conseguiria transformar sua dor em arte ou seria apenas mais uma maneira de se perder? Naquela noite, ela tomou uma decisão. Ia fazer algo completamente fora do roteiro, algo que não era permitido, não era esperado, não era parte do acordo matrimonial impecável. Ia cozinhar para Rafael. Não apenas cozinhar, ia preparar o prato favorito dele, moqueca capixaba.
Ela havia descoberto por acidente três meses atrás durante um jantar beneficente onde Rafael conversava com o governador do Espírito Santo. Ele havia mencionado casualmente que sua avó nascida em Vitória, costumava fazer a melhor moqueca do mundo. Ele não comia desde que ela morrera 7 anos atrás. 7 anos. O mesmo período desde Juliana e Isabela.
Clara passou a tarde inteira no mercado, escolhendo pessoalmente cada ingrediente. Peixe fresco, pimentões coloridos, tomates maduros, coentro, azeite de dendê verdadeiro. Ela gastou 3 horas na cozinha da cobertura, uma cozinha gourmet que raramente era usada, já que eles jantavam fora ou pediam comida de restaurantes sofisticados.
Às 6 da tarde, a moqueca estava pronta, fumegando na panela de barro. Clara colocou a mesa na varanda, não a mesa de jantar formal da sala, mas a pequena mesa de dois lugares na varanda com vista para o pôr do sol sobre São Paulo. Acendeu velas, colocou pratos simples de cerâmica que encontrou enterrados em um armário.
Às 6:15 mandou mensagem para Rafael: “Jantar em casa hoje às 20is, por favor, não marque nada. Às 6:20”, ele respondeu. Tenho uma teleconferência com Singapura. As Clara cortou a mensagem, digitando: “Por favor, três pontinhos apareceram e desapareceram várias vezes. Finalmente. Está bem.” Rafael chegou pontualmente às 20 olos, como sempre.
Clara ouviu a porta se abrir, ouviu seus passos no corredor, ouviu a pausa quando ele provavelmente notou as velas acesas. “Clara”, ele chamou, a voz cautelosa. “N varanda.” Ele apareceu usando o terno de trabalho, a gravata levemente afrouxada. Parou completamente ao ver a cena, a mesa posta, as velas, a panela de barro no centro. O que é isso? Jantar.
Clara serviu a moqueca em seu prato, o aroma de dendê e coentro preenchendo o ar. Senta. Rafael hesitou, claramente desconfortável com a mudança de rotina, mas se sentou, os olhos fixos na comida. Você cozinhou? Sim. Por quê? Clara encontrou seus olhos. Porque eu quis. Porque pensei que talvez você gostasse.
Porque ela respirou fundo? Porque estou cansada de vivermos como robô seguindo uma programação. Só por uma noite pensei que poderíamos jantar como pessoas normais, como um casal de verdade. Rafael pegou o garfo, cortou um pedaço de peixe, levou a boca e congelou. Clara observou enquanto ele mastigava lentamente, enquanto seus olhos se arregalavam, enquanto algo naquele rosto sempre controlado começava a se desintegrar. “Como você sabia?” Ele sussurrou.
“Que era seu prato favorito? Ouvi você mencionar numa vez.” “Não.” Rafael colocou o garfo de volta no prato, as mãos tremendo levemente. “Como você sabia fazer exatamente como minha avó fazia? O dendê, o coentro, a quantidade certa de leite de coco? Eu pesquisei, tentei seguir a receita tradicional capixaba. Ele ficou quieto por um longo momento, olhando para a moqueca.
Quando finalmente levantou os olhos, havia lágrimas neles. A última vez que comi isso foi 7 anos atrás, no funeral da minha avó. Minha Sua voz falhou. Juliana fez. Ela havia pedido a receita anos antes, planejando surpreender a vovó. Mas a vovó morreu antes. Então Juliana fez para o repasse para os convidados para me consolar. Juliana Clara segurou a respiração.
Ele havia finalmente dito o nome. Rafael limpou os olhos rapidamente, claramente envergonhado pela demonstração de emoção. Desculpe, isso foi inapropriado, não foi? Clara estendeu a mão sobre a mesa, parando a centímetros da dele. Quem era Juliana, Rafael? Ele olhou para a mão dela, para a comida, para as velas, tremulando na brisa leve da noite.
E então, pela primeira vez em 14 meses, Rafael Mendes começou a falar de verdade. Minha esposa, minha primeira esposa. As palavras saíram ásperas, dolorosas. Nos conhecemos na universidade. Ela estudava arquitetura, eu administração. Ela era brilhante, engraçada. via o mundo de uma maneira que eu nunca conseguiria. Casamos aos 25, tivemos Isabela aos 28.
Clara sentiu as lágrimas picarem. Isabela, nossa filha. Um sorriso triste tocou os lábios de Rafael, 4 anos. Cabelo preto encaracolado como da mãe. Raia de tudo. Adorava desenhar. Queria ser artista como a mamãe. O que aconteceu? Clara perguntou suavemente, embora parte dela não quisesse saber, não quisesse carregar aquela dor junto com ele.
Rafael respirou fundo, os dedos apertando o garfo até os nós dos dedos ficarem brancos. 7 anos atrás, dia 13 de julho, foram visitar a avó em Vitória. Eu tinha uma reunião importante, não pude ir. Elas iam ficar o fim de semana, voltar segunda, mas houve um acidente na Via Dutra. Caminhão perdeu o freio, bateu em cinco carros. O delas foi.
Sua voz quebrou completamente. Rafael Clara sussurrou lágrimas rolando por seu rosto. Juliana morreu na hora. Isabela sobreviveu por 3 horas. Tempo suficiente para eu chegar ao hospital. Tempo suficiente para ela apertar minha mão e me pedir para não deixá-la ir. Ele olhou para Clara, os olhos vermelhos e devastados. E então ela se foi. E eu.
E Eu morri também, só que meu corpo não percebeu. Clara não pensou. levantou-se, contornou à mesa e se ajoelhou ao lado da cadeira dele, pegando suas mãos trementes nas dela. Sinto muito, sinto muitíssimo. Durante três anos só trabalhei. Não saía, não via amigos, não sentia nada. Construí a empresa em algo enorme, porque era a única coisa que fazia sentido.
Lucro, prejuízo, crescimento, expansão. Números não te deixam. Números não morrem em acidentes de carro. Ele olhou para as mãos deles entrelaçadas e então pensei que estava pronto, pronto para tentar de novo, mas com regras, com limites, sem vulnerabilidade. Pensei que se eu nunca me importasse de verdade, nunca sofreria de verdade. Por isso, o casamento de conveniência.
Por isso, você Rafael tocou o rosto dela pela primeira vez desde que se casaram, os dedos traçando sua linha da mandíbula. uma mulher linda, inteligente, que precisava de ajuda, um acordo limpo, sem emoções, sem riscos. Mas Clara perguntou, porque havia um mas naquela frase, mas você, ele fechou os olhos, você me faz sentir coisas clara e isso me aterroriza, porque se eu deixar me importar, se eu deixar me apegar e te perder também, você não vai me perder. Você não pode prometer isso. Rafael abriu os olhos.
Juliana também não podia. Ninguém pode. Tem razão. Não posso prometer que vou viver para sempre. Clara apertou suas mãos. Mas posso prometer que enquanto eu estiver aqui, vou querer mais do que isso. Mais do que cordialidade fria e silêncios educados. Eu mereço mais. E você também.
Rafael a encarou por um longo momento. Então, devagar, tão devagar que Clara pensou estar imaginando, ele se inclinou e pressionou sua testa contra a dela. “Não sei se consigo”, ele sussurrou. “Não sei se consigo deixar as paredes caírem. Então, derrube por vez.” Clara fechou os olhos. “Comece pequeno. Comece jantando comigo de verdade, conversando comigo, compartilhando comigo, vendo-me.
” Ficaram assim por longos minutos. Respirando o mesmo ar, compartilhando o mesmo espaço vulnerável. A moqueca esfriava no prato, as velas queimavam baixo e, pela primeira vez em 14 meses, Clara sentia que estava realmente casada. Não legalmente, isso já eram há 14 meses, mas emocionalmente, humanamente.
Quando finalmente se separaram, Rafael limpou os olhos e sorriu. Um sorriso trêmulo, incerto, mas genuíno. A moqueca está deliciosa. Clara riu, o som saindo molhado pelas lágrimas. Está fria agora. Não me importo. E eles jantaram, conversaram. Rafael contou sobre Isabela, como ela insistia em usar tutus para dormir, como fazia perguntas impossíveis, tipo: “Onde mora o vento?” Como desenhava retratos terríveis, mas adoráveis de toda a família.
Clara contou sobre seu pai, como ele trabalhava turnos duplos na fábrica, mas sempre encontrava tempo para ler com ela antes de dormir, como economizou por três anos para comprar sua primeira máquina de escrever. como acreditava que ela seria uma grande escritora um dia. Eram histórias de amor e perda, histórias que os tornavam humanos, imperfeitos, reais. Quando o relógio marcou meia-noite, Rafael finalmente se levantou. Preciso dormir.
Tenho reunião às 7. Clara também se levantou, começando a recolher os pratos. Clara? Rafael a chamou da porta da varanda. Sim. Obrigado pelo jantar, por me fazer lembrar que ainda sou uma pessoa e não apenas um executivo. Ele saiu antes que ela pudesse responder, mas enquanto Clara lavava os pratos sozinha, ouviu passos voltando.
Rafael surgiu na porta da cozinha incerto. Posso ajudar? Era uma pergunta simples, mas vinda de um homem que nunca havia sequer oferecido ajuda doméstica, que nunca havia entrado na cozinha, exceto para pegar água, era monumental. Pode, Clara disse, entregando-lhe um pano de prato.
E assim, a 030 de uma quinta-feira comum, Clara Santos Romano e Rafael Mendes Almeida lavaram pratos juntos pela primeira vez. Não falaram muito, mas o silêncio não era vazio, como de costume, era cheio, cheio de possibilidades, cheio de pequenos começos. E Clara pensou: “Talvez, apenas, talvez, haja esperança, afinal. Nos dias seguintes, ao jantar da moqueca, algo mudou.
Não dramaticamente, Rafael não se transformou magicamente em um marido amoroso e presente da noite para o dia, mas havia rachaduras na fachada de mármore que ele havia mantido por tanto tempo, pequenas coisas. Na sexta de manhã, ele perguntou como Clara havia dormido e realmente esperou pela resposta.
No sábado, ele cancelou uma reunião para almoçarem juntos na cobertura. No domingo, sugeriu um passeio no Parque Ibirapuera. Não lembro a última vez que estive lá. Rafael admitiu enquanto caminhavam pelas trilhas arborizadas. Era um domingo ensolarado e o parque estava cheio de famílias, corredores, ciclistas. Deve fazer 10 anos. Mais eu vinha aqui direto quando era mais nova.
Clara inalou o ar mais limpo, a sensação de verde ao redor, especialmente quando precisava escrever. Tinha um banco favorito perto do lago. Sentava lá por horas, só observando as pessoas. Por que parou? Clara o olhou surpresa pela pergunta. Rafael realmente estava ouvindo. Realmente queria saber. A vida ficou ocupada. Trabalhos freelance. Cuidar da minha mãe. E então casei com você.
Ela deu um sorriso triste. De alguma forma esqueci que isso existia. Ar fresco, espaços abertos, vida fora da cobertura. Rafael parou de caminhar. Eu te prendi? Não. Clara segurou seu braço. Eu me deixei ser presa. Há uma diferença. Continuaram andando em silêncio até chegarem a um pequeno café dentro do parque.
Rafael pediu dois cafés e Clara quase caiu da cadeira quando ele perguntou: “Você ainda toma com açúcar mascavo e leite? Você lembra?” Alex mencionou no café onde nos encontramos. Rafael pareceu levemente constrangido. Eu presto atenção às vezes quando não estou sendo um idiota completo, obsecado por trabalho. Clara riu.
E o som fez Rafael sorrir também, um sorriso genuíno que transformava completamente seu rosto. Mas a felicidade durou pouco. Na segunda-feira de manhã, tudo voltou ao normal. Rafael acordou às 5:30, estava saindo às 6:15. Mal falou três palavras no café da manhã. A terça foi igual. Na quarta ele viajou para o Rio de Janeiro e voltou apenas na sexta à noite, exausto demais para qualquer conversa.
Clara percebeu o padrão. Quando Rafael estava sob pressão, ele regredia. As paredes subiam de novo. Ela se tornava invisível de novo. Na quinta-feira, durante seu encontro semanal com Alex, ela desabafou. Foi só um momento, aquele jantar, aquele domingo no parque.
Mas então ele voltou a ser o CEO robótico e eu voltei a ser a esposa fantasma. Clara mexeu o café frustrada, como se aquele momento de conexão nunca tivesse acontecido. “Mudança leva tempo,” Alex disse gentilmente, especialmente quando você está lutando contra anos de trauma e mecanismos de defesa. Ele te contou sobre a esposa e a filha Clara.
Isso é enorme, eu sei, mas não posso viver de migalhas de atenção. Não posso ficar esperando que ele ocasionalmente lembre que sou uma pessoa de verdade. Ela olhou para o caderno azul sobre a mesa. Estava quase cheio. Agora estou escrevendo de novo, sentindo de novo, vivendo de novo e percebo o quanto estava morta nesses 14 meses.
Então, o que você vai fazer? Clara não tinha resposta. No sábado, Rafael estava em casa pela primeira vez em dias. Clara o encontrou no escritório, como sempre, cercado por documentos e telas de computador. Rafael, ela bateu na porta aberta. Hum. Ele mal levantou os olhos. Pensei que poderíamos fazer algo hoje. Talvez voltar ao parque ou ver um filme ou simplesmente Não posso.
Ele gesticulou para os papéis. A aquisição da empresa em Singapura está entrando em fase crítica. Preciso revisar todos os contratos. É sábado. Negócios não tem fim de semana, Clara. Ela ficou parada por um momento, observando-o, e então fez uma pergunta que vinha crescendo em sua mente há dias. Por que você se casou comigo? Rafael finalmente levantou os olhos, franzindo a testa.
O quê? Por que eu? Clara entrou no escritório, fechando a porta atrás de si. Você poderia ter contratado uma acompanhante profissional para eventos. Poderia ter fingido que tinha uma namorada. Por que criar um casamento legal, um contrato de dois anos, toda essa elaboração, já expliquei. Precisava de uma esposa apresentável para Não. Clara o interrompeu. Há algo mais.
Algo que você não está dizendo. Rafael se recostou na cadeira, estudando-a. Por um longo momento, ela achou que ele fosse desviar, mudar de assunto, erguer as paredes de novo. Mas então ele suspirou profundamente. Porque você era segura? Segura? Você precisava de dinheiro. Eu precisava de uma esposa.
Era uma transação clara, sem emoções complicadas. E ele hesitou. Você não é do meu mundo, Clara. Não é herdeira, não é socialite, não está interessada no meu dinheiro além do que foi acordado contra atualmente. Pensei que seria mais fácil manter distância de alguém que eu não teria nada em comum.
As palavras deveriam doer e doíam, mas também eram honestas. E Clara apreciava a honestidade acima de tudo. E está sendo mais fácil manter distância. Rafael encontrou seus olhos. Não está sendo impossível. O ar entre eles ficou carregado. Clara deu um passo para a frente, então outro até estar de pé ao lado da mesa dele. Então pare de tentar. Não é tão simples. É sim. Ela tocou o rosto dele, forçando-o a olhá-la.
Você está com medo de se importar, de se apegar, de perder de novo. Eu entendo. Mas, Rafael, você não está vivendo, está apenas existindo e está me fazendo existir também quando eu deveria estar vivendo. Eu não sei como fazer diferente, a voz dele saiu quebrada, vulnerável. Não sei como abrir mão do controle, como parar de usar trabalho como escudo, como deixar alguém entrar sem ter certeza absoluta de que não vou me destruir quando não há certezas absolutas.
Clara se sentou na beirada da mesa, ainda segurando o rosto dele. Essa é a parte aterrorizante e linda da vida, mas o que eu sei é isto. Do jeito que estamos agora, você já perdeu. Perdeu a chance de ter uma parceira de verdade. Perdeu a chance de ser feliz de novo.
Está tão ocupado, se protegendo da dor futura que está garantindo a dor presente. Rafael fechou os olhos e uma lágrima solitária rolou por seu rosto. Clara a limpou com o polegar. Me dê uma chance, Rafael. Não de ser sua esposa contratual, de ser sua esposa de verdade, sua parceira, sua amiga, alguém que te vê, te conhece e escolhe ficar mesmo assim. Ele abriu os olhos e havia tanto medo ali que Clara quase recuou.
Mas também havia desejo. Desejo de acreditar, desejo de tentar. E se eu não conseguir? E se eu continuar falhando? Então falha. Clara sorriu levemente, mas pelo menos falha tentando, não desistindo. Antes de começar, Rafael a puxou para um abraço, o primeiro abraço real que trocavam.
Seus braços a envolveram forte, rosto enterrado em seu pescoço, e Clara sentiu o corpo dele tremer com soluços silenciosos. “Sinto sua falta”, ele sussurrou contra sua pele. “Sinto falta de Juliana e Isabela todos os dias. Sinto falta de quem eu era quando elas estavam vivas. Sinto falta de me importar, de sentir, de estar vivo de verdade. Então volte. Clara segurou-o firmemente. Volte para a vida comigo.
Ficaram assim por longos minutos, segurando um ao outro como se fossem a única coisa sólida em um mundo instável. Quando finalmente se separaram, Rafael limpou os olhos e deu um sorriso vacilante. Pode levar um tempo. Vou estragar tudo várias vezes. Eu sei. E você? Ele tocou o rosto dela. O que você precisa de mim? A pergunta pegou clara, de surpresa.
Ninguém havia perguntado, nem Rafael, nem ninguém, o que ela precisava em 14 meses. Quero ser vista. Quero que você me pergunte sobre meu dia e ouça de verdade. Quero conversas reais sobre coisas que importam. Quero rir com você, chorar com você, ter discussões apaixonadas sobre bobagens e assuntos sérios. Ela respirou fundo e quero que você me beije de verdade.
Não beijo protocolar de casamento, um beijo que diga: “Eu te escolho”, mesmo com todas as suas falhas e todos os seus medos. Rafael engoliu em seco. Devagar, deu a Clara espaço para recuar. Quando ela não recuou, ele se inclinou. O beijo começou hesitante, como se ele estivesse redescobrindo como fazê-lo. Mas então Clara respondeu, puxando-o mais perto, e o beijo se aprofundou.
Havia lágrimas de ambos, havia anos de solidão, havia medo e esperança misturados. Havia o começo de algo real. Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes. Rafael encostou sua testa na dela. Estou apavorado. Eu também, mas vou tentar. Ele beijou sua testa, seu nariz, seus lábios novamente. Vou realmente tentar.
E pela primeira vez, desde que aceitara aquele casamento impossível, Clara acreditou que talvez, apenas talvez, pudesse funcionar. Afinal, as semanas seguintes foram uma dança estranha e descoordenada de dois passos para a frente, um passo para trás. Rafael tentava, claro, havia o esforço em cada pequeno gesto, mas era como assistir alguém tentar aprender um novo idioma.
Depois de anos de silêncio, ele começou a fazer perguntas no café da manhã. Como você dormiu? Tem planos para hoje? O que você está lendo? No início, as perguntas eram formais, quase roteirizadas, mas Clara respondia com honestidade, compartilhando pequenos pedaços de si mesma. E lentamente, Rafael começou a fazer perguntas de verdade.
“Por que você gosta tanto de pegar metrô?”, Ele perguntou numa terça-feira, genuinamente curioso. Poderia usar o motorista para qualquer lugar. Clara estava descascando uma laranja e parou para pensar. Por que no metrô eu me sinto parte de algo maior? Todos aqueles corpos, todas aquelas histórias indo para algum lugar. Me lembra que existo, que sou real no carro particular? Ela hesitou.
Me sinto como uma boneca sendo transportada de uma vitrine para outra. Rafael processou isso em silêncio. No dia seguinte, ele estava no home office quando Clara saiu para sua quinta-feira com Alex. Em vez de acenar distraídamente, ele se levantou. Posso ir com você? Clara piscou surpresa. No metrô? Sim, quero entender.
E assim, pela primeira vez em provavelmente 15 anos, Rafael Mendes Almeida pegou o metrô. Ele estava visivelmente desconfortável. o CEO de terno meio deslocado entre estudantes, trabalhadores, mães com crianças, mas se manteve ao lado de Clara, observando tudo com atenção. “É claustrofóbico”, ele murmurou quando o vagão encheu na estação sé. “É vida”.
Clara apontou para uma mulher idosa segurando um bebê no colo, para um grupo de adolescentes rindo de um vídeo no celular, para um músico tocando violão perto das portas. Histórias acontecendo em todos os lugares. É sobre isso que eu costumava escrever. Costumava. Estou voltando. Clara sorriu lentamente. Quando chegaram ao tatuapé, Rafael parou na entrada do café páginas Angrãos.
Você se encontra com alguém aqui? Toda quinta. Com Alex, um velho amigo escritor. Clara observou cuidadosamente sua reação. Ele tem me ajudado a voltar a escrever. Ela esperava ciúmes ou no mínimo desconforto, mas Rafael apenas a sentiu. Posso conhecê-lo? Alex estava no canto usual, duas xícaras de café já esperando.
Ele levantou os olhos quando Clara entrou e congelou ao ver Rafael atrás dela. Alex, este é Rafael, meu marido. Rafael Alex Silva, poeta e um dos meus melhores amigos. Os dois homens se encararam por um momento tenso. Então Alex estendeu a mão. O famoso Rafael Mendes. Clara fala muito de você. Espero que coisas boas. Rafael apertou a mão. A voz cautelosa. Isso depende da semana. Alex sorriu sem malícia.
Algumas semanas você é o vilão corporativo sem coração. Outras é o homem ferido tentando consertar o que quebrou. Rafael piscou claramente não esperando tanta honestidade. Então, surpreendentemente ele riu. Uma risada genuína. Justo quer sentar? Alex ofereceu. Há uma cadeira extra. Rafael hesitou, olhou para Clara.
Ela assentiu e ele se sentou desajeitadamente na cadeira de madeira antiga, tão diferente das cadeiras ergonômicas de couro de seu escritório. Durante a hora seguinte, Clara observou algo extraordinário, Rafael conversando como pessoa normal. Ele e Alex discutiram literatura. Rafael havia estudado Machado de Assis na faculdade e ainda se lembrava de trechos inteiros.
Falaram sobre São Paulo, sobre como a cidade havia mudado, sobre gentrificação e desigualdade. Falaram sobre a morte. Alex havia perdido o irmão mais novo para câncer 5 anos atrás. Não fica mais fácil, Rafael disse suavemente. As pessoas dizem que sim, que o tempo cura, mas não cura, só ensina você a carregar o peso melhor. É verdade. Alex olhou para Clara.
Mas acho que o amor de novo ajuda. Não substitui o que perdemos. Mas lembra a gente porque vale a pena continuar. A mensagem era clara e Rafael a captou. Ele segurou a mão de Clara sobre a mesa, o primeiro toque espontâneo e público entre eles. Quando finalmente saíram do café, Rafael estava quieto no caminho de volta. Clara não forçou conversa, deixando-oar.
Só quando estavam no elevador da cobertura, ele falou: “Alex te ama. Não dessa maneira.” Clara apertou sua mão. Ele é meu amigo, um dos poucos que não desistiu de mim quando desapareci na vida de esposa de CEO, mas ele se importa com você de uma maneira que eu não me permiti. Rafael encostou na parede do elevador.
Ele sabe seu café favorito. Sabe quando você está triste só de olhar, sabe fazer você rir. E eu eu mal sei qual é sua cor favorita. Azul. Azul turquesa especificamente, como o mar em Noronha. Clara se virou para ele e a sua, verde escuro, como as árvores na mata quando chove. Rafael sorriu levemente.
Isso é meio patético, não é? Casados há 14 meses e acabamos de trocar cores favoritas. É um começo. As portas se abriram no andar deles, mas Rafael não se moveu imediatamente. Me ensina, Clara, como fazer isso direito, como ser um marido de verdade e não apenas um provedor financeiro. Não há manual. Clara tocou o rosto dele.
Só fique presente, faça perguntas, ouça as respostas, compartilhe coisas, pequenas coisas, grandes coisas, qualquer coisa. Posso começar agora? Claro. Rafael tomou coragem. Quero ler o que você está escrevendo. No caderno azul que Alex te deu, Clara sentiu seu estômago apertar. O caderno era sua alma exposta no papel, sua solidão, sua raiva, sua esperança, sua dor. Mas se queria que Rafael se abrisse, precisava fazer o mesmo.
Está bem, mas seja gentil. São só fragmentos. Pensamentos cruz. Naquela noite, depois do jantar, que comeram juntos, conversando sobre trivialidades e coisas profundas simultaneamente, Clara entregou o caderno a Rafael. Ele o segurou como se fosse algo precioso e frágil. Posso ler no escritório? Sim.
Mas Rafael Clara o parou antes que saísse. Algumas coisas ali vão doer. Vão ser sobre você, sobre nós, sobre como me senti nestes 14 meses. Eu sei. Ele beijou sua testa. E preciso ler. Preciso entender. Clara foi para seu quarto, mas não conseguiu dormir. Ficou deitada, olhando para o teto, imaginando Rafael lendo suas palavras mais honestas.
Será que ele ficaria com raiva, magoado, distante de novo? Duas horas depois, a porta do quarto se abriu suavemente. Rafael entrou, o caderno na mão, o rosto marcado por lágrimas. Clara, sua voz estava destruída. Ela se sentou na cama, o coração disparando. Foi muito duro? Não. Quero dizer, sim, foi, mas não do jeito que você pensa. Rafael se sentou na beirada da cama.
Foi como ver através dos seus olhos pela primeira vez. entender o quanto eu te machuquei sem perceber o quanto você sofreu em silêncio. Ele segurou o caderno com cuidado reverente. Isto é lindo, Clara, devastador e lindo. Você precisa transformar isso em um livro. Um livro? Sua história. Nossa história. Rafael segurou sua mão com nomes mudados.
Claro. Mas quantas pessoas estão presas em casamento sem amor? Quantas mulheres se sentem invisíveis? Quantos homens estão tão assustados de sentir de novo que destróem qualquer chance de felicidade. Ele aproximou o rosto dela. Escreva, Clara. Escreva como se sua vida dependesse disso, porque de certa forma depende.
E você não vai se importar se eu colocar tudo isso no papel? Nossas lutas, nossos erros? Rafael pensou por um longo momento: “Será constrangedor, mas será verdadeiro? E talvez, talvez, se eu ver nossa história refletida de volta, escrita pela sua perspectiva, finalmente entenda o que estive fazendo de errado.” Ele colocou o caderno nas mãos dela. “Prometa que vai terminar.
” Prometo. Ele se levantou para sair, mas Clara segurou seu pulso. Fica aqui no seu quarto. É nosso quarto. Fomos designados quartos separados por você, mas se estamos realmente tentando fazer isto funcionar. Ela deu tapinhas no espaço ao lado dela na cama. Então compartilha o espaço comigo. Não precisa ser sexual ainda.
Só fica, durma ao meu lado, deixe-me acordar e saber que você está ali. Rafael hesitou por apenas um segundo. Então tirou os sapatos, despiu o palitó e se deitou sobre as cobertas ao lado dela, rígido, desconfortável, mas presente. Clara apagou a luz. No escuro, ela sentia o calor dele ao lado. Ouvia sua respiração começando a desacelerar. Rafael, ela sussurrou. Sim, obrigada por tentar.
Ele encontrou a mão dela no escuro, entrelaçando os dedos. Obrigado por não desistir de mim. E pela primeira vez em 14 meses, Clara Santos Romano dormiu ao lado de seu marido, sentindo-se menos sozinha do que havia se sentido em muito, muito tempo. Os próximos dias foram diferentes. Rafael não havia voltado para seu próprio quarto desde aquela noite.
Eles acordavam juntos. Não abraçados, ainda mantendo uma distância respeitosa, mas juntos. Tomava um café da manhã conversando. Às vezes ele saía para reuniões, mas sempre voltava para jantar. Sempre perguntava sobre o dia dela, sempre ouvia de verdade. Clara voltou a escrever com fervor. O caderno azul já estava cheio.
Então ela começou um novo, depois outro. As palavras fluíam de uma maneira que não fluíam há anos. Ela escrevia sobre uma mulher presa, sobre um homem assombrado, sobre o espaço impossível entre duas pessoas querendo se conectar, mas sem saber como. “Está nascendo um livro”, ela contou a Alex numa quinta-feira, um romance completo. “Mal posso acreditar.
Sempre soube que voltaria”. Alex sorriu orgulhoso. “E Rafael? As coisas estão melhores?” “Muito melhores. Ele está tentando de verdade.” Clara tomou um gole do café. Ontem ele cancelou uma reunião para me levar ao pass e ele realmente estava presente.
Conversamos sobre Tarcila do Amaral, sobre cores e emoções, sobre como a arte pode mudar perspectivas. Parece que ele está se abrindo. Está. Clara sorriu, mas havia uma ponta de preocupação em sua voz. Tenho medo que seja temporário, que ele entre em piloto automático de novo quando o trabalho ficar estressante. Pode acontecer. Alex foi honesto. Velhos padrões morrem devagar. Mas o fato de ele estar tentando já é enorme, Clara. Significa que ele te vê finalmente.
Mas Alex estava certo sobre os velhos padrões. Na segunda-feira seguinte, a bomba explodiu. Clara acordou sozinha. A cama ao lado estava vazia, ainda quente, mas desocupada. Ela encontrou o Rafael no escritório, já vestido com terno, telefone colado na orelha, voz tensa. Não, isso é inaceitável.
Tinha um acordo com o conselho. Não podem simplesmente Ele parou, ouvindo. Entendo. Sim. Estarei no primeiro voo para Hong Kong. Pausa. Não sei. Duas semanas, talvez três. Clara sentiu seu estômago afundar. Rafael desligou e finalmente notou sua presença. Bom dia, Hong Kong. Problema com a aquisição asiática.
Preciso ir pessoalmente. Ele estava voltando ao modo CEO. Voz controlada, emoções trancadas. Vou saia ao meio-dia. Por quanto tempo? Duas ou três semanas? Três semanas. Clara repetiu, sentindo a antiga invisibilidade começar a se infiltrar sem nem me avisar antes, sem nem discutir. É trabalho, Clara. Ele estava arrumando documentos em uma pasta, não olhando para ela.
Não há o que discutir. Claro que há. Clara entrou no escritório, fechando a porta. Há três semanas você me prometeu que ia tentar, que ia me incluir na sua vida e agora vai simplesmente desaparecer por três semanas. Rafael finalmente parou e olhou para ela. O que você quer que eu faça? Rafael repetiu frustração vazando em sua voz.
Recusar, deixar a empresa entrar em colapso, ignorar responsabilidades que afetam milhares de funcionários? Não. Clara manteve a voz firme, embora seu coração estivesse acelerado. Quero que você me inclua. Quero que me conte sobre o problema antes de tomar decisões unilaterais. Quero que considere como sua ausência me afeta.
Quero ser sua parceira, não apenas uma moradora conveniente desta cobertura. Rafael passou a mão pelo cabelo, aquele gesto que ela já reconhecia como sinal de estresse. Clara, não tenho tempo para isso agora. Preciso estar no aeroporto em 3 horas. Claro. Ela sentiu a antiga frieza começar a se instalar em seu peito. Porque trabalho sempre vem primeiro.
Não é justo, não? Clara cruzou os braços. Nas últimas três semanas. Você tentou? Realmente tentou. Mas no primeiro sinal de pressão, volta ao padrão antigo. Eu desapareço de novo. Volto a ser invisível. Você não é invisível. Rafael se aproximou, mas Clara recuou. Não. Então me diga, quando você tomou a decisão de ir para Hong Kong, pensou em mim? Pensou em como eu me sentiria, pensou em pelo menos me ligar e avisar antes de simplesmente aparecer com as malas prontas? O silêncio foi resposta suficiente.
Foi o que pensei. Clara virou-se para sair. Clara, espera. Não. Ela parou na porta sem se virar. Vai para Hong Kong. Faz o que precisa fazer. Mas quando voltar, se voltar, precisamos ter uma conversa séria sobre o que realmente queremos. Porque eu não posso viver assim. Não, de novo.
Ela saiu antes que ele pudesse responder, foi direto para o quarto e trancou a porta. ouviu Rafael do outro lado, sua mão na maçaneta. Clara, por favor, não vamos terminar assim. Você tem um avião para pegar. Sua voz saiu mais fria do que pretendia. Ela ouviu seus passos se afastando, ouviu o som de malas sendo arrastadas, ouviu a porta da cobertura se fechar e então, sozinha novamente, Clara Santos Romano se permitiu chorar. Os primeiros três dias sem Rafael foram os mais difíceis.
A cobertura parecia maior, mais fria, mais vazia. Clara tentou manter a rotina. Escrevia de manhã, almoçava sozinha, escrevia mais à tarde, mas as palavras saíam amargas, carregadas de raiva e decepção. Rafael mandava mensagens diárias, curtas, formais. Reuniões foram produtivas. Como você está? Tempo aqui está quente. Negociações lentas? Penso em você. Clara respondia com monossílabus. Bem, ok, legal.
Na quinta-feira, ela encontrou Alex no café, mas estava tão distraída que mal conseguiu conversar. Ele foi embora. Ela finalmente admitiu. Três semanas em Hong Kong e voltamos à estaca zero. Voltaram? Alex questionou gentilmente. Ou você está assumindo o pior antes de dar a ele chance de explicar. Ele nem me avisou.
Alex simplesmente decidiu e ponto. É o padrão dele. Alex tomou um gole do café. Mas Clara, você viu ele tentando mudar? Isso não apaga só porque teve um deslize. Mudança é bagunçada, não é linear. Então, o que eu faço? Apenas aceito, fico esperando que ele talvez possivelmente melhore um dia? Não.
Você comunica, estabelece limites, deixa claro o que precisa. Alex inclinou para a frente. Mas também precisa decidir. Vale a pena lutar por isso, por ele ou já desistiu? A pergunta ecoou na mente de Clara nos dias seguintes. Vale a pena lutar? Na segunda semana, Rafael começou a ligar não apenas mensagens, mas ligações de vídeo reais.
A primeira vez que Clara atendeu já era meia-noite em São Paulo, o que significava meiodia em Hong Kong. Oi. Rafael parecia exausto, a gravata afrouxada, o cabelo bagunçado. Sei que é tarde aí. Desculpa. Está tudo bem. Clara estava deitada na cama. O laptop ao lado. Como estão as coisas? Complicadas. O conselho de lá está resistindo a algumas cláusulas. Ele parou, respirou fundo.
Mas não quero falar de trabalho. Como você está de verdade? A pergunta tão simples, mas tão carregada de significado, quase desfez clara. Com raiva de você. Ela decidiu pela honestidade e com saudade também. as duas coisas ao mesmo tempo. Rafael assentiu lentamente. É justo. Eu estraguei tudo de novo, não foi? Um pouco.
Clara se ajeitou, abraçando um travesseiro. Mas Alex me lembrou que mudança não é perfeita, então estou tentando entender. Não era minha intenção te excluir. Rafael olhou diretamente para a câmera, seus olhos intensos mesmo através da tela. Entrei em modo de crise e voltei aos velhos hábitos. Mas Clara, toda a noite aqui, sozinho neste quarto de hotel, tudo que consigo pensar é em você, em como estraguei, em como quero voltar e fazer melhor.
Então, por que não volta? Porque se eu voltar agora, sem resolver isso, vou perder a empresa que construí. E se perder a empresa, ele parou, vulnerável. Temo que me perca também, que volte a ser aquele homem morto por dentro que você conheceu. Trabalho é a única coisa que me manteve funcional depois de perder Juliana e Isabela. Era a primeira vez que ele admitia isso, que trabalho não era apenas ambição, mas sobrevivência.
Entendo, Clara disse suavemente. Mas, Rafael, você precisa entender algo também. Se você só consegue existir através do trabalho, nunca vai conseguir realmente viver. Nunca vai ter espaço para mim, para nós, para qualquer coisa além de planilhas e negociações. Eu sei”, ele esfregou o rosto cansado. “Por isso estou tentando resolver isso o mais rápido possível. Quero voltar para casa.
Para você, Lar?” Clara repetiu a palavra, testando-a. É a primeira vez que você chama a cobertura de lar. Rafael sorriu levemente. Porque lar não é um lugar. É onde você está. Conversaram por mais uma hora. Rafael contou sobre Hong Kong. As luzes, o calor opressivo, como a cidade nunca dormia.
Clara contou sobre seu romance, sobre como estava crescendo em algo maior do que imaginara, sobre como escrever, estava salvando-a. Quando finalmente desligaram, Clara sentiu algo mudar. A raiva ainda estava lá, mas amenizada. A esperança, tão frágil começava a crescer novamente. Na terceira semana, Rafael ligava duas vezes por dia, de manhã, noite dele, e à noite, manhã dele.
Conversavam sobre tudo e nada. Livros que estavam lendo, séries que assistiam, memórias da infância. Ele contou sobre crescer com pais ausentes, passando mais tempo com babás e motoristas do que com família. Ela contou sobreites, ajudando o pai na oficina mecânica, como ele sempre cheirava a gracha e amor.
Deve ter sido especial, Rafael disse durante uma ligação. Ter pais presentes. Meu pai era, minha mãe é. Clara olhou pela janela. Sabe o que ele dizia? Que não importava o quanto trabalhasse, sempre reservaria tempo para o que realmente importava. E o que importava éramos eu e minha mãe. Ele era sábio. Era. Clara sentiu o aperto familiar no peito. Você teria gostado dele? Tenho certeza que sim.
No viéso dia, Rafael finalmente deu a notícia. Fechamos o acordo. Volto depois de amanhã. Clara deveria estar feliz, mas sentia medo. Medo de que quando ele voltasse, tudo voltasse ao normal. Medo de que a distância tivesse criado uma ilusão de conexão que desapareceria quando estivessem no mesmo espaço novamente. Clara. A voz de Rafael invadiu seus pensamentos. Você ainda está aí? Estou só nervosa.
Eu também, ele admitiu. Mas tenho algo para você. Uma surpresa. Vai gostar, espero. Não precisa de presentes, Rafael. Não é um presente, é algo diferente. Ele sorriu misteriosamente. Vai ver quando eu chegar. E Clara passou os próximos dois dias oscilando entre esperança e terror, sem saber qual venceria. quando Rafael Mendes finalmente voltasse para casa.
O voo de Rafael chegava às 18 horas de uma sexta-feira. Clara passou o dia inteiro numa montanha russa emocional, arrumando a cobertura, mudando de roupa três vezes, começando a cozinhar e então parando, sem saber o que fazer consigo mesma.
Às 17:30, ela finalmente se decidiu por um vestido simples de algodão azul turquesa, sua cor favorita, e deixou o cabelo solto. Nada de armadura de grife, nada de versão polida e performática de si mesma, apenas clara. Quando ouviu a chave na porta às 18:45, seu coração disparou. Rafael entrou carregando uma mala e uma pasta de couro. Parecia exausto, olheiras profundas, barba por fazer, o terno amarrotado de viagem, mas quando seus olhos encontraram os dela, seu rosto inteiro se iluminou.
Oi? Ele deixou a mala cair no chão. Oi? Clara ficou parada, sem saber se deveria correr até ele ou manter distância. Rafael resolveu o dilema por ela. Em três passos longos, ele a alcançou e a puxou para um abraço desesperado, rosto enterrado em seu cabelo, braços apertados ao redor dela, como se estivesse segurando uma tábua de salvação.
“Senti tanto sua falta”, ele sussurrou contra seu pescoço. “Tanto Clara se permitiu derreter no abraço, seus próprios braços circulando às costas dele. Também senti.” Ficaram assim por longos minutos, apenas segurando um ao outro, respirando juntos. Quando finalmente se separaram, Rafael tocou o rosto dela com ternura. Você está linda. Estou um bagaço.
Passei o dia inteiro nervosa. Um bagaço lindo. Ele sorriu. Então ficou sério. Clara sobre como saí. Foi errado. Completamente errado. Deveria ter conversado com você, te incluído na decisão, considerado os seus sentimentos. deveria. Ela não ia facilitar para ele. Precisava que entendesse de verdade. Estou aprendendo. Rafael pegou suas mãos.
Mas preciso que saiba. Cada noite em Hong Kong, sozinho naquele quarto de hotel percebi algo. Trabalho sempre foi meu escudo. Minha razão para não sentir, não viver, não me arriscar. Mas você você está quebrando esse escudo, Clara, tijolo por tijolo. E me assusta e me liberta ao mesmo tempo. E agora? Clara perguntou.
voltou ao seu escudo ou está pronto para ser vulnerável comigo? Quero tentar ser vulnerável. Ele respirou fundo. Por isso tenho algo para você. Rafael pegou a pasta de couro e tirou vários documentos. Clara os pegou confusa, e começou a ler. Seus olhos se arregalaram à medida que processava as palavras. eram papéis de uma fundação, a Fundação Clara Romano para Alfabetização e Artes Criativas, registrada legalmente com um fundo inicial de R$ 5 milhões deais.
“Rafael, o que Durante as noites sem sono em Hong Kong? Fiquei pensando, ele explicou ansioso, você desistiu de tantas coisas para se casar comigo. Sua escrita, sua vida, sua identidade. E, embora você esteja voltando a escrever, queria dar algo mais, algo significativo. Clara continuou lendo. A fundação ofereceria oficinas gratuitas de alfabetização e escrita criativa em comunidades carentes de São Paulo, bolsas para escritores emergentes, programas em escolas públicas.
Você criou tudo isso nas últimas três semanas, entre reuniões, Rafael parecia um garoto esperando aprovação. Queria que fosse perfeito, algo que realmente importasse para você. As lágrimas começaram a cair antes que Clara pudesse detê-las. Por quê? Porque você me fez perceber que existe mais na vida do que lucro e crescimento.
Porque quero criar algo que ajude pessoas da maneira que você sempre quis ajudar através de suas histórias. Ele limpou suas lágrimas com o polegar. E por te amo, o mundo parou. O quê? Clara sussurrou, não confiando em seus ouvidos. Eu te amo. Rafael repetiu sua voz firme, mas vulnerável. Lutei contra isso, neguei, tentei manter distância, mas a verdade é que me apaixonei por você, Clara Santos Romano, pela maneira como você vê o mundo, pela sua força, pela sua gentileza, pela forma como você me desafia e me entende ao mesmo tempo. Rafael, a voz dela falhou. Não precisa dizer de volta.
Ele se apressou em acrescentar. Sei que ainda estou consertando o que quebrei. Sei que tenho muito caminho pela frente, mas precisava que soubesse. Precisava ser honesto. Clara olhou para ele. Realmente olhou. viu o medo em seus olhos, a esperança, a vulnerabilidade absoluta. Este era o homem que havia passado 7 anos construindo muros emocionais tão altos que ninguém poderia alcançá-lo.
E agora estava derrubando esses muros, tijolo por tijolo, por ela. Também te amo. As palavras saíram antes que ela pudesse pensá-las, mas eram verdade. Em algum momento das últimas semanas, talvez durante o jantar da moqueca, talvez na noite que ele leu seu caderno, talvez nas ligações de vídeo de Hong Kong, ela havia se apaixonado pelo homem complexo, ferido e tentando desesperadamente ser melhor. O alívio que inundou o rosto de Rafael foi palpável.
Ele a puxou para um beijo, não hesitante como o primeiro, mas seguro, profundo, carregado de promessa e desejo. Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Tenho mais uma coisa. Rafael disse, levando-a pela mão até a varanda. Clara notou pela primeira vez que havia algo coberto por um lençol no canto.
Rafael o puxou, revelando uma mesa antiga de madeira, claramente de brechó, restaurada com amor. Sobre ela, uma máquina de escrever vintage, um abajur de bronze e uma placa de madeira gravada. Espaço da Clara. Sei que você escreve no laptop, Rafael explicou. Mas pensei, talvez você quisesse um espaço só seu, onde pudesse ver a cidade, sentir o ar fresco, criar sem distrações. Ele tocou a máquina de escrever.
Esta pertenceu a um escritor paulistano famoso nos anos 60. Achei num antiquário em Hong Kong. Pensei que você apreciaria a história. Clara não conseguiu falar. Apenas abraçou Rafael com toda a força, chorando contra seu peito. Lágrimas de alegria, de alívio, de amor. Obrigada. Ela finalmente conseguiu dizer por me ver, por me ouvir, por tentar.
Obrigado por não desistir de mim, Rafael assegurou firmemente. Por acreditar que eu poderia mudar mesmo quando eu não acreditava. Eles jantaram na varanda. Pizza delivery, nada chique. Apenas eles dois conversando e rindo. Rafael contou histórias absurdas de reuniões em Hong Kong. Clara compartilhou atualizações sobre seu romance.
Era fácil, natural, real. Quando a noite caiu completamente, eles permaneceram na varanda olhando as luzes de São Paulo. Rafael abraçou Clara por trás, o queixo apoiado em seu ombro. “Sabe o que percebi em Hong Kong?”, Ele disse suavemente, que poderia ter todo o sucesso do mundo, toda a riqueza, todo o poder, e nada disso importaria sem você.
Você é meu lar, Clara, o único lar real que tive desde que perdi Juliana e Isabela. Clara se virou nos braços dele. Não sou substituta delas. Nunca seria. Rafael tocou sua testa com a dele. Elas terão sempre uma parte do meu coração, mas você tem o resto dele. Todo o resto. Eles se beijaram novamente, mais lentamente desta vez, saboreando o momento.
E quando Rafael a pegou no colo e a carregou para o quarto, o quarto deles agora, não mais quartos separados, Clara soube que algo havia mudado definitivamente. Não estava mais invisível. Finalmente, gloriosamente, ela era vista. E aquela noite, pela primeira vez desde que haviam se casado, Clara e Rafael não apenas dividiram uma cama, eles dividiram intimidade real, vulnerabilidade real, amor real.
Os meses seguintes foram uma montanha russa de altos e baixos. Rafael não se transformou magicamente em um marido perfeito. Ainda tinha dias onde o trabalho o consumia, onde ficava distante, onde esquecia de perguntar sobre o dia de Clara. Mas a diferença era que agora ele percebia e pedia desculpas e tentava fazer melhor no dia seguinte. Clara também não era perfeita.
Havia dias onde sua própria insegurança a fazia duvidar. Será que ele realmente a amava ou apenas se sentia culpado? Estava com ela por escolha ou por obrigação contratual? Mas então, Rafael fazia algo pequeno, mas significativo. Deixava um bilhete carinhoso antes de sair cedo, ligava só para ouvir sua voz, a surpreendia com seu autor favorito autografado e suas dúvidas se dissolviam. A Fundação Clara Romano começou a tomar forma.
Rafael contratou uma equipe dedicada, mas insistiu que Clara estivesse envolvida em cada decisão. Eles visitaram comunidades juntos, Heliópolis, Paraisópolis, Capela do Socorro. Clara conversava com crianças e adultos sobre sonhos e histórias, enquanto Rafael silenciosamente observava, às vezes com lágrimas nos olhos, “Ver você com eles.
” Ele disse depois de uma visita particularmente emocionante. É como assistir você brilhar. Este é seu propósito, Clara. Nosso propósito ela corrigiu pegando sua mão. Você tornou isso possível. Numa quinta-feira de manhã, Clara estava terminando um capítulo do seu romance.
Quando Rafael entrou no home office dela, o antigo espaço na varanda que ela havia transformado em santuário criativo. “Posso interromper?”, ele perguntou, tocando suavemente seu ombro. Clara salvou o documento e virou-se. “Claro. O que foi?” Rafael se ajoelhou ao lado da cadeira, nervoso. “Lembra do nosso contrato matrimonial?” O coração de Clara afundou. “Sim, expira em dois meses.” Ele segurou suas mãos. “E precisamos conversar sobre o que vai acontecer.
Clara sentiu o pânico começar a subir. Eles estavam tão bem, estavam felizes, estavam apaixonados, mas tecnicamente ainda era um casamento contratual com data de vencimento. O que você quer que aconteça? Ela forçou a pergunta para fora. Rafael respirou fundo. Quero rasgar o contrato. Clara sentiu as lágrimas picarem. Então era isso. Ele queria terminar.
Espera, deixa eu terminar. Rafael viu a mudança em sua expressão. Quero rasgar o contrato porque não quero que nosso casamento seja baseado em obrigação legal. Quero nos casar de novo, de verdade, desta vez, por amor, por escolha, porque acordo todo dia e escolho você. Rafael Clara mal conseguia respirar. Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso e a abriu.
Dentro havia um anel, não o anel de casamento formal que ele havia escolhido unilateralmente 16 meses atrás. Mas algo diferente. Um anel simples de ouro com pequenas pedras azul turquesa encrustadas. Não é ostentoso. Não é tradicional, Rafael explicou. Mas é você, único, lindo, significativo. Ele tirou o anel da caixa.
Clara Santos Romano, você me ensinou a viver de novo, a sentir de novo, a amar de novo. Vai se casar comigo de verdade, desta vez, sem contratos, sem obrigações, apenas amor. As lágrimas rolavam livremente. Agora, sim. Mil vezes sim. Rafael deslizou o anel em seu dedo, substituindo o anel frio e sem significado que ela havia usado por 16 meses.
Então a beijou profundamente, segurando seu rosto como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo. “Tem certeza?”, Clara? Perguntou quando finalmente se separaram. “Não vai se arrepender quando o trabalho ficar estressante e eu for irritante? Vou me arrepender de muitas coisas na vida.” Rafael sorriu. “Mas nunca de você.
Eles planejaram uma cerimônia pequena e íntima, nada como o casamento formal e vazio da primeira vez. Desta vez seria apenas família próxima e amigos verdadeiros. Maria Santos, a mãe de Clara, chorou de felicidade quando soube. Sempre soube que vocês encontrariam o caminho.
Ela abraçou Rafael pela primeira vez com verdadeiro afeto maternal. Bem-vindo à família, filho. De verdade desta vez. Nana Oliveira, a amiga que havia sugerido aquele casamento impossível 16 meses atrás, riu quando Clara contou as novidades. Então, o plano maluco funcionou, afinal, de uma maneira tortuosa, dolorosa e completamente não planejada. Clara admitiu, mas sim, funcionou.
Alex veio ajudar Clara a escolher leituras para a cerimônia. Eles se sentaram no café páginas em grãos, foliando livros de poesia. Estou orgulhoso de você”, Alex disse de repente, “pela maneira como lutou por si mesma, por ele, por vocês dois. Não poderia ter feito sem você.” Clara pegou sua mão sobre a mesa.
“Você me lembrou de quem eu era quando estava me perdendo. E Rafael, ele está te lembrando de quem você pode ser?” Rafael, por sua vez, convidou pessoas que não via há anos, amigos da faculdade, colegas antigos, até seu antigo terapeuta que o havia ajudado após a morte de Juliana e Isabela. “Vou convidar a família de Juliana também”, ele disse a Clara numa noite.
“Eles eram são importantes para mim e quero que conheçam você. Quero que saibam que estou vivendo de novo.” “Você tem certeza?” Clara perguntou gentilmente. “Não vai ser difícil para eles?” Talvez, Rafael admitiu, mas seria mais difícil escondê-los. Eles fazem parte da minha história e você é meu futuro.
Quero que meu passado e meu futuro possam coexistir. A sogra de Rafael, Carmen, mãe de Juliana, veio visitá-los uma semana antes do casamento. Clara estava aterrorizada. O que você diz para a mãe da primeira esposa do seu marido? Mas Carmen era gentil, de cabelos grisalhos e olhos bondosos. Ela abraçou Clara longamente quando chegou. “Obrigada”, ela sussurrou no ouvido de Clara. “Pelo quê?” “Por trazer ele de volta.
” Carmen se afastou, os olhos marejados. Depois que perdemos Juliana e Isabela, Rafael morreu também, não fisicamente, mas por dentro. Vê-lo sorrir de novo, viver de novo, é um presente. Elas conversaram por horas. Carmen contou histórias de Juliana, como era engraçada, criativa, apaixonada por arquitetura de Isabela, como era esperta, curiosa, cheia de vida. Você não está substituindo elas.
Carmen segurou as mãos de Clara. Está honrando suas memórias ao fazer Rafael feliz novamente. Juliana iria gostar de você, tenho certeza. E Clara, carregando o peso de ser a segunda chance de um homem assombrado pela tragédia, decidiu que honraria esse peso, sendo completamente autêntica.
Não uma cópia de quem veio antes, mas absolutamente ela mesma. Faltavam três dias para a cerimônia quando Clara recebeu uma ligação inesperada, um número desconhecido. Alô, Clara Romano, uma voz masculina, profissional. Meu nome é Fernando Aguiar, sou agente literário. Recebi seu manuscrito. Clara congelou. Meu manuscrito, a invisível, uma história de amor e recomeço.
Um amigo seu, Alex Silva, me enviou os primeiros 10 capítulos. Espero que não se importe. Clara faria uma nota mental para matar a Alex depois. Eu não, não me importo. Mas é brilhante. Fernando cortou. Devastador, honesto, necessário, representa a experiência de tantas mulheres presas em casamentos sem amor, mas também oferece esperança. Quero representá-lo. Tenho editoras interessadas.
Editoras Plural, três grandes, e duas independentes, que publicam obras literárias premiadas. Ele soava animado. Quando pode terminar o manuscrito? Clara olhou para a tela do computador. Estava no capítulo 23 de um romance que previa ter 30 capítulos. Duas semanas. Perfeito. Mande assim que terminar. Clara, este livro pode mudar vidas, incluindo a sua.
Quando desligou, Clara ficou sentada em choque por 5 minutos inteiros. Então correu para encontrar Rafael, que estava no escritório revisando números da fundação. Rafael. Ela irrompeu pela porta. Alguém quer publicar meu livro? Rafael levantou-se de um pulo, um sorriso enorme iluminando seu rosto. O quê, Clara? Isso é incrível. Conta tudo.
Ela contou sobre a ligação, sobre as editoras interessadas, sobre como Fernando estava entusiasmado. Rafael a pegou no colo e girou, os dois rindo como crianças. Você vai ser uma autora publicada. Ele a colocou de volta no chão. Sempre soube que seria. Foi Alex. Clara admitiu. Ele enviou os capítulos sem me contar.
Lembre-me de agradecer a ele. Rafael beijou sua testa. Você merece isso, Clara. Merece ter sua voz ouvida. Mas a alegria foi temperada com nervosismo. O livro é sobre nós, sobre nosso casamento, sobre tudo que passamos. Eu sei. E você tem certeza que não se importa? Que não vai se arrepender quando pessoas lerem sobre suas falhas nossos problemas? Rafael pensou por um momento: “Vão me julgar. Vão me ver como o vilão corporativo sem coração”, ele deu de ombros.
E tem razão nisso. Fui esse cara. Mas mudei. Estou mudando. E se nossa história ajudar outras pessoas a mudarem também, vale a pena qualquer constrangimento. Eu te amo. Clara disse, significando cada palavra. Eu te amo”, Rafael respondeu, beijando-a profundamente. Dois dias antes da cerimônia, Clara estava finalizando detalhes quando recebeu uma mensagem de Nana.
“Preciso falar com você, urgente. Posso ir aí?” Clara respondeu imediatamente. Claro. Tudo bem. Nana chegou 40 minutos depois, carregando uma caixa grande. Ela parecia nervosa, ansiosa. “O que aconteceu?” Clara a conduziu para a sala. Lembra quando você se casou com Rafael há 16 meses? Nana colocou a caixa sobre a mesa de centro. Você me deu algumas coisas para guardar.
Coisas que não queria trazer para a cobertura porque eram muito pessoais. Clara havia esquecido completamente o que tinha lá. Seus cadernos antigos, manuscritos não terminados, fotos da época da faculdade, cartas que seu pai escreveu antes de morrer. Nana abriu a caixa. Pensei que você gostaria de ter de volta. especialmente agora que está construindo uma vida de verdade aqui. Clara pegou a caixa, os olhos ardendo.
Dentro estava sua história. Quem ela era antes de Rafael, antes do casamento, antes de se perder. Obrigada. Ela abraçou Nana firmemente. Por guardar isso, por guardar mim. Nana assegurou com força. Você sempre foi forte e clara. Só precisava lembrar. Naquela noite, Clara e Rafael sentaram no chão da sala, explorando o conteúdo da caixa juntos. Ela mostrou fotos dela com 20 anos.
Cabelo pintado de vermelho, roupas esquisitas, sorriso enorme. “Você era punk?” Rafael riu segurando uma foto dela com uma jaqueta de couro coberta de pates. Tinha uma fase. Clara admitiu rindo também. Durou três meses antes de perceber que não era minha vibe. Rafael pegou um caderno velho cheio de histórias escritas à mão. “Posso ler? Vão te fazer rir. São terríveis.
” Mas ele leu mesmo assim, comentando sobre os enredos, os personagens, a evolução de sua voz ao longo dos anos. Tratava sua história com reverência, como se cada palavra escrita fosse preciosa. Perto do fundo da caixa, Clara encontrou um envelope lacrado. Seu nome estava escrito na letra tremida de seu pai.
Ela o abriu com dedos trêmulos e encontrou uma carta dentro. Minha querida Clarinha, se você está lendo isso, significa que finalmente parti. Desculpe deixá-la, filha. Gostaria de ter mais tempo. Quero que saiba algo. Você sempre foi minha maior alegria. Ver você crescer, ver você descobrir o amor pelas palavras, ver você se tornar essa mulher incrível, foi o presente da minha vida.
Não importa para onde a vida te leve, rico ou pobre, famosa ou desconhecida, lembra de uma coisa. Você é completa sozinha. Não precisa de ninguém para validar seu valor. Mas se escolher compartilhar sua vida com alguém, certifique-se de que seja alguém que te veja, realmente te veja. Não uma versão editada, mas você inteira. Defeitos, medos, sonhos, tudo.
Esse é o verdadeiro amor. Clarinha. Não diamantes, não grandes gestos, apenas ser vista e escolhida todos os dias. Te amo para sempre, papai. As lágrimas caíam livremente enquanto Clara relia a carta várias vezes. Rafael a puxou para seu colo, segurando-a enquanto ela chorava. Ele teria gostado de você. Clara finalmente disse.
Eventualmente depois de te matar por como me tratou no começo. Rafael riu molhado. Mereceria. Mas espero que aprovasse quem estou tentando ser agora. Aprovaria. Clara beijou-o suavemente. Porque você me vê finalmente, gloriosamente? Você me vê e véspera do casamento, cercados por memórias do passado e promessas do futuro, Clara e Rafael sabiam que estavam prontos para recomeçar, não como estranhos assinando um contrato, mas como parceiros escolhendo amor.
A manhã do dia anterior ao casamento amanheceu nublada, com ameaça de chuva. Clara acordou cedo, o nervosismo começando a se instalar. Amanhã, amanhã ela se casaria com Rafael de novo, de verdade, desta vez. Rafael ainda dormia ao seu lado, o rosto relaxado, mais jovem no sono. Clara observou-o por um momento, maravilhada com sua vida havia mudado. 16 meses atrás, ela havia aceitado um contrato frio com um estranho.
Agora estava se casando com o amor de sua vida. Mas Velhos medos têm o hábito de ressurgir nos momentos mais inoportunos. E se ele mudar de ideia? E se perceber que preferia a versão sem complicação do casamento? E se o amor não fosse suficiente, quando o trabalho ficasse estressante de novo, consigo ouvir você pensando. A voz rouca de Rafael a arrancou de seus pensamentos.
Seus olhos estavam abertos, agora, focados nela. O que está remoendo aí? Nada, Clara. Ele se apoiou no cotovelo. Sem mentiras. Não mais. Ela suspirou. E se não funcionar? E se o amor não for suficiente? Rafael processou a pergunta por um momento, então sentou-se completamente, puxando-a para fazer o mesmo.
“Não posso prometer perfeição”, ele disse honestamente. “Vou ter dias ruins. Vou recair em velhos padrões. Vou decepcionar você às vezes.” Ele segurou suas mãos. Mas posso prometer presença, posso prometer esforço, posso prometer que quando falhar e vou falhar, admitirei, pedirei desculpas e tentarei melhor, e o trabalho sempre será parte de mim.
Rafael admitiu, mas não será mais tudo de mim. Você é prioridade agora, Clara. Nós somos prioridade, prometo. As palavras deveriam acalmar seus medos e acalmavam, mas Clara conhecia a si mesma o suficiente para saber que ansiedade não era lógica. “Preciso sair”, ela disse de repente. “Preciso de ar.
Quer companhia? Preciso processar sozinha?” Clara o beijou rapidamente. “Não estou fugindo, prometo. Só preciso de uma hora.” Rafael a deixou ir, embora pudesse ver a preocupação em seus olhos. Clara trocou de roupa rapidamente e pegou o metrô até o tatuapé. Não era quinta-feira, mas sabia onde encontraria Alex, no café páginas em grãos, corrigindo provas de alunos, como fazia todo sábado de manhã. Ele levantou os olhos quando ela entrou, preocupação instantânea cruzando seu rosto.
“Clara, que aconteceu? Estou entrando em pânico. Ela se sentou pesadamente. Caso amanhã e estou entrando em pânico. Alex pediu dois cafés e esperou que ela elaborasse. E se eu estiver cometendo um erro? Clara despejou.
E se estiver me apaixonando pela ideia de Rafael ao invés do Rafael real? E se ele voltar a ser aquele homem frio quando a novidade passar? São medos válidos. Alex disse calmamente. Mas são medos ou verdade? Como assim? Você está com medo porque há sinais reais de que ele não mudou? Ou está com medo porque isso é bom demais para ser verdade e você não se permite acreditar em finais felizes? A pergunta acertou em cheio.
Não sei. Clara admitiu em voz baixa. Deixa eu perguntar diferente. Alex se inclinou para a frente. Quando você olha para Rafael agora, o que você vê? Clara fechou os olhos pensando. Vejo um homem tentando. Vejo alguém que me pergunta sobre meu dia e realmente escuta. Vejo alguém que criou uma fundação inteira em meu nome porque sabia que era importante para mim.
Vejo alguém que lê meu romance e chora porque finalmente entende minha dor. Ela abriu os olhos. Vejo alguém imperfeito, mais presente, alguém assustado, mas corajoso, alguém que me ama. Então, por que está aqui em vez de lá com ele? Clara riu molhado. Boa pergunta, Clara. Você passou 16 meses no casamento mais solitário do mundo.
Alex pegou suas mãos sobre a mesa. É compreensível que tenha medo de voltar àquele lugar, mas o Rafael de agora não é o Rafael de então. E você também não é a mesma Clara. Vocês cresceram juntos e individualmente. E se ele parar de crescer? Aí você tem uma escolha.
Alex disse firmemente: “Fica e luta ou sai e se protege mais, Clara, não sabote algo bom porque tem medo do que pode dar errado. Isso não é viver, é apenas se proteger da vida.” As palavras ecoaram algo que seu pai havia escrito na carta: “Viver completamente ou apenas existir? Como você ficou tão sábio?”, Clara perguntou limpando os olhos.
“Perdi meu irmão quando ele tinha 25 anos.” Alex disse suavemente: “Aprendi da maneira mais difícil que vida é curta demais para desperdiçar com medo. Se você ama ele, case com ele, construa uma vida com ele e se não funcionar, pelo menos terá tentado.” Clara voltou para a cobertura duas horas depois, mais calma.
Rafael estava na cozinha preparando panquecas, algo que havia aprendido a fazer nas últimas semanas. “Oi!”, Ele se virou quando ela entrou, vulnerabilidade clara em seu rosto. Você voltou? Claro que voltei. Clara o abraçou por trás. Desculpa ter surto. Não pede desculpas por sentir. Rafael virou-se nos braços dela. Está assustada. Apavorada. Eu também. Ele admitiu.
Mas tipo, bom apavorado, apavorado empolgado. Clara riu. Bom apavorado. Gosto disso. Passaram o resto do dia cuidando de últimos detalhes. Maria Santos chegou para ajudar Clara com o vestido. Nana apareceu com flores. Alex trouxe os poemas que leriam na cerimônia. À noite, Rafael e Clara quebraram a tradição de dormir separados na noite anterior ao casamento.
“Já fizemos isso”, Rafael argumentou. E foi horrível. Quero acordar ao seu lado amanhã, como será todos os dias daqui para frente. Deitados no escuro, dedos entrelaçados, Clara quebrou o silêncio. Rafael. Hum. Não importa o que aconteça amanhã, quero que saiba, estes últimos meses, eles foram, ela procurou as palavras certas. Foram a primeira vez na vida que me senti completamente vista, completamente amada, não por uma versão polida de mim, mas por mim inteira. Defeitos, medos, bagagem e tudo.
Rafael virou-se para encará-la mesmo na escuridão. Você me devolveu minha vida, Clara. Não sei como agradecer por isso. Case comigo amanhã. Ela sorriu de verdade desta vez. pode contar com isso. E enquanto dormiam abraçados pela última vez como tecnicamente casados por contrato, tanto Clara quanto Rafael, sabiam que acordariam como algo completamente diferente.
Parceiros escolhendo amor acima de tudo. O dia do casamento amanheceu ensolarado, sem nuvens, um contraste completo com a manhã anterior. Clara acordou às 6, nervosismo e empolgação, batalhando em seu estômago. Rafael já estava acordado, observando-a. Bom dia, quase esposa. Ele sorriu. Bom dia, quase marido de novo. Clara se esticou. Pronto para isso. Nasci pronto.
Mas às 10 horas, quando os preparativos estavam em pleno andamento, Rafael recebeu uma ligação. Clara viu seu rosto mudar, de relaxado para tenso em segundos. Quando? Ele perguntou ao telefone. Quanto tempo temos? Pausa. Entendo. Não, eu. Ele olhou para Clara, conflito óbvio em seus olhos. Me dá 5 minutos. Ele desligou passando a mão pelo cabelo naquele gesto que ela já conhecia como estresse. Rafael.
Clara sentiu seu estômago afundar. O que foi? Crise em Hong Kong. A empresa que adquirimos está tendo problemas legais sérios. Se eu não intervir nas próximas 48 horas, podemos perder tudo. 50 milhões de dólares, 500 empregos, tudo. Ele parecia destroçado. Clara, eu Você precisa ir. Clara disse, embora cada palavra doesse. Não.
Rafael segurou seus ombros. Não desta vez. Não no nosso dia de casamento. Não depois de tudo que passamos. Mas eu escolho você”, ele disse firmemente. “50 milhões de dólares, 500 empregos são importantes, mas você é mais importante. Posso mandar meu CFO, posso fazer videoconferências, posso encontrar outro caminho, mas não posso. Não vou abandonar você hoje de novo.” Clara sentiu as lágrimas picarem.
Este era o teste, o momento que determinaria se Rafael realmente havia mudado ou se era apenas temporário. “Tem certeza?”, ela sussurrou. “Absolutamente.” Rafael puxou-a para um abraço apertado. Passei 7 anos colocando trabalho acima de tudo.
Perdi a chance de tantos momentos com Juliana e Isabela, porque achava que reuniões eram mais importantes. “Não vou cometer esse erro de novo. Você é minha prioridade sempre.” Ele ligou de volta, delegando autoridade para seu time em Hong Kong. Clara ouviu-o dar instruções precisas, estabelecer limites claros, confiar em outros para resolver o problema. Quando desligou, ele respirou fundo.
Pronto, resolvido. Ele tocou o rosto dela. Agora, onde estávamos? Ah, sim. Casando com o amor da minha vida. Clara o beijou com tanta força que ambos quase perderam o equilíbrio. Eu te amo tanto. Eu te amo mais. Eu, a cerimônia seria às 16 horas no jardim do Parque Ibirapuera, o mesmo lugar onde haviam caminhado e reconectado meses atrás.
Apenas 30 convidados, família e amigos verdadeiros. Clara usava um vestido simples, mas elegante, branco, com detalhes azul turquesa, sem vé, sem exageros, cabelo solto, maquiagem natural. Apenas ela. Rafael usava um terno azul marinho, sem gravata, menos formal que seu visual corporativo usual, mais humano.
Quando Clara entrou de braços com sua mãe, ao som de violão ao vivo, ela viu Rafael esperando sob um arco de flores silvestres e viu suas lágrimas começarem a cair antes mesmo dela chegar até ele. Maria entregou a mão de Clara para Rafael, sussurrando: “Cuida dela com minha vida!” Rafael prometeu: “O celebrante era um amigo de Alex, um poeta que havia escrito votos personalizados. Mas antes que começasse, Rafael pediu para falar clara.
” Ele segurou suas mãos voz trêmula mais firme. Há 16 meses, eu estava de pé em um cartório com você, trocando votos vazios, prometendo fidelidade sem amor, comprometimento sem conexão e você merecia muito mais do que aquilo. Ele limpou os olhos. Hoje, de pé aqui, quero prometer coisas de verdade.
Ele respirou fundo. Prometo-te ver todos os dias. Não apenas olhar, mas realmente ver. Seus medos, suas alegrias, seus sonhos. Prometo ouvir não só com ouvidos, mas com coração. Prometo presença. Mesmo quando o trabalho chamar, mesmo quando for difícil, estarei presente. Sua voz quebrou. Prometo honrar a coragem que você teve de me confrontar quando eu era um idiota.
A paciência que teve enquanto eu aprendia a ser humano de novo, o amor que me deu mesmo quando eu não merecia. Clara estava chorando agora, lágrimas rolando livremente. Prometo nunca deixar você se sentir invisível de novo. Rafael terminou. Porque você é a pessoa mais viva, mais brilhante, mais essencial da minha vida e vou passar o resto dos meus dias te lembrando disso.
Clara tentou falar, mas a emoção travou suas palavras. Finalmente ela conseguiu. Rafael, você você me salvou de tantas maneiras, mas sabe como me salvou mais? Ela tocou o rosto dele. Me ensinou que posso ser forte e vulnerável ao mesmo tempo, que posso exigir ser vista e ainda ser gentil, que posso escolher a mim mesma e ainda escolher amar você. Ela limpou suas próprias lágrimas.
Prometo nunca desistir de nós, mesmo quando for difícil. Mesmo quando você recair em velhos padrões, prometo comunicar, honestamente, mesmo quando doer, prometo crescer ao seu lado, não na sua sombra. Ela sorriu através das lágrimas. E prometo te lembrar sempre que necessário, que você é mais do que suas conquistas, mais do que seu trabalho. Você é humano, imperfeito e completamente amado.
Não tinha um olho seco entre os convidados. Maria Santos estava soluçando no ombro de Nana. Alex limpava os olhos discretamente. Até Carmen, a sogra de Rafael, estava chorando lágrimas de alegria. O celebrante, também visivelmente emocionado, limpou a garganta. Bem, acho que não há palavras que eu possa adicionar a isso. Ele sorriu.
Rafael Mendes, você aceita a Clara Santos como sua esposa para amar, honrar e respeitar em todos os momentos de suas vidas? Aceito. Rafael disse sem hesitação. Com todo meu coração. Clara Santos, você aceita Rafael Mendes como seu marido para amar, honrar e respeitar em todos os momentos de suas vidas? Aceito. Clara sorriu através das lágrimas com toda a minha alma.
Então, pelo poder que me foi conferido e testemunhado por todos aqui presentes, declaro vocês marido e mulher. Ele sorriu. Rafael, pode beijar sua esposa de verdade desta vez. E Rafael beijou Clara, não o beijo casto e protocolar de 16 meses atrás, mas um beijo profundo, apaixonado, cheio de promessa e amor.
Um beijo que dizia: “Eu escolho você mais claramente do que qualquer palavra poderia”. Quando finalmente se separaram, os convidados explodiram em aplausos e vivas. Mas enquanto caminhavam de volta pelo corredor de cadeiras como marido e mulher, oficialmente, legalmente, emocionalmente, Clara notou algo. Rafael tinha parado, olhando para o céu.
Ela seguiu seu olhar e viu um arco-íris perfeito, brilhante, arqueando sobre São Paulo. Juliana adorava arco-íris. Rafael disse suavemente, sua voz cheia de emoção. Ela dizia que eram pontes entre o céu e a terra. entre quem perdemos e quem ainda está aqui. Ele olhou para Clara, lágrimas nos olhos, mas sorrindo. Acho que ela aprova.
Clara segurou sua mão firmemente. Tenho certeza que aprova. E enquanto caminhavam em direção ao futuro, imperfeito, incerto, mas completamente deles, Clara percebeu algo fundamental. Às vezes, as maiores histórias de amor não são sobre encontrar alguém perfeito, são sobre duas pessoas imperfeitas, escolhendo crescer juntas, ver uma à outra completamente e amar corajosamente, apesar de todos os medos.
O sol de uma manhã de domingo entrava pelas janelas da cobertura, pintando tudo em tons dourados. Clara acordou lentamente, sentindo o braço de Rafael ao redor de sua cintura, seu corpo quente contra suas costas. Seis meses casados, realmente casados, e ele ainda dormia abraçado a ela toda a noite. Ela se virou cuidadosamente para observá-lo. Mesmo dormindo, Rafael parecia mais relaxado do que costumava ser.
As linhas de tensão ao redor de seus olhos haviam diminuído. Ele sorria mais, ria mais, vivia mais, como se sentisse seu olhar. Rafael abriu os olhos. Bom dia, esposa. Bom dia, marido. Clara sorriu. Ainda gosto de como soua. Eu também. Ele a puxou para mais perto, beijando sua testa. Que horas são? 7:30. Clara se aconchegou contra ele. Podíamos ficar na cama o dia inteiro. Tentador.
Rafael desenhou círculos preguiçosos em suas costas. Mas você está esquecendo algo importante. O quê? Hoje é o lançamento do programa da fundação em Eliópolis. Ele sorriu. A inauguração oficial da primeira biblioteca comunitária Clara Romano. Clara sentou-se de repente. É hoje. Como esqueci? Porque ontem você passou 15 horas finalizando seu manuscrito.
Rafael também se sentou, que por sinal mandou para o agente literário. Mandei às 3 da manhã. Clara passou a mão pelo cabelo. Estou apavorada. E se ninguém quiser publicar? E se for terrível? E se? Rafael acalou com um beijo. Vai ser lindo. Vai ser publicado. Vai tocar vidas. Ele segurou seu rosto. Tenho tanta certeza disso quanto tenho certeza de que te amo.
Eles tomaram café da manhã juntos na varanda, um ritual que haviam mantido religiosamente. Rafael contou sobre uma reunião difícil na sexta, sobre como teve que demitir um executivo que estava cometendo fraudes. Clara compartilhou atualizações sobre os workshops de escrita que estava ministrando na fundação. Tem uma garota, Amanda, 14 anos. Clara contou.
Os olhos brilhando, escreveu um conto sobre a mãe trabalhando dupla jornada para sustentar cinco filhos. Rafael foi de partir o coração. Ela tem tanto talento. Consegue conseguir uma bolsa para ela? Rafael perguntou. Para continuar estudando, desenvolver a escrita, já estou trabalhando nisso. Clara sorriu. Viu? Você está virando macio. Você me fez macio. Ele admitiu sem vergonha.
e está sendo a melhor coisa que poderia ter acontecido. Às 14 horas chegaram a Heliópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo. A biblioteca estava instalada em um espaço reformado, pintado de azul turquesa, ideia de clara, com murais coloridos nas paredes, pintados por artistas locais. Dentro havia estantes cheias de livros doados, computadores para acesso livre, mesas para estudo e um espaço dedicado para oficinas de escrita e alfabetização. Clara estava nervosa enquanto cortavam a fita inaugural.
Moradores da comunidade se aglomeravam, crianças curiosas, adultos céticos, mas esperançosos, idosos emocionados. Quero dizer algumas palavras. Clara pediu. Sua voz tremendo levemente. Rafael apertou sua mão encorajadoramente. Meu pai cresceu pobre. Clara começou. Parou de estudar na quinta série para trabalhar, mas ele amava histórias, amava palavras.
E quando eu nasci, ele prometeu que eu teria todas as oportunidades que ele nunca teve. Suas lágrimas ameaçaram cair. Ele economizou por anos para comprar minha primeira máquina de escrever. Trabalhou turnos duplos para pagar minha faculdade. Acreditou em mim quando eu nem acreditava em mim mesma. Ela olhou para a comunidade reunida. Esta biblioteca, estes programas são dedicados a todos os pais como o meu, a todas as crianças que merecem ter chance de sonhar, a todas as histórias que merecem ser contadas. Ela limpou os olhos. Vocês merecem ser vistos.
Vocês merecem ter voz. E espero que este espaço ajude nisso. Os aplausos foram ensurdecedores. Crianças correram para dentro para explorar os livros. Uma senhora idosa abraçou Clara chorando. “Obrigada”, ela sussurrou. Nunca tive chance de aprender a ler direito, mas agora posso aprender. Aos 67 anos, vou finalmente aprender. Rafael observava de longe orgulho estampado em seu rosto.
Quando Clara finalmente conseguiu se desvencilhar da multidão, ele a puxou para um abraço. “Você é incrível”, ele disse contra seu cabelo. “Absolutamente incrível. Nós somos Clara corrigiu. Não teria sido possível sem você. Passaram o resto da tarde na biblioteca, conversando com moradores, ouvindo histórias, registrando mais pessoas para os programas.
Quando finalmente voltaram para casa às 20 horas, ambos estavam exaustos, mas radiantes. Na cobertura, Clara encontrou um envelope sobre a mesa, seu nome escrito à mão na frente. O que é isso? Ela olhou para Rafael. Abra. Dentro havia um convite elaborado para o lançamento de um livro. Seu livro Invisível, uma história de amor e recomeço por Clara Santos Romano.
Data de publicação, três meses. Como você? Clara olhou para Rafael, boquia aberta. Fernando ligou ontem. Três editoras fizeram ofertas. Você foi com a que mais amou seu livro, não a que ofereceu mais dinheiro. Assinou o contrato esta manhã enquanto dormia. Rafael sorriu culpado. Ele me mandou uma cópia do convite de lançamento como prévia. Vou ser publicada.
Clara disse, ainda não acreditando. Meu livro vai ser publicado e vai ser um bestseller. Rafael previu confidentemente. Clara não conseguiu segurar as lágrimas. Meu pai teria ficado tão orgulhoso. Ele está. Rafael a abraçou. Onde quer que esteja, ele está explodindo de orgulho.
Mais tarde, naquela noite, depois do jantar, Clara estava no computador quando recebeu um e-mail de Amanda, a garota de 14 anos que havia mencionado no café da manhã, dona Clara. Obrigada por acreditar em mim. Ninguém nunca acreditou que eu podia ser escritora. Disseram que menina pobre de favela não escreve livro, mas a senhora disse que eu posso e estou começando a acreditar. A senhora me deu mais que aulas de escrita, me deu esperança. Obrigada por me ver, Amanda.
Clara leu o e-mail para Rafael, a voz quebrando. Isso, isso é por isso que fazemos tudo. É. Rafael concordou suavemente. E é por isso que você é quem é. Clara se levantou e caminhou até a janela, olhando São Paulo se estender até onde a vista alcançava. Em algum lugar lá embaixo, Amanda estava escrevendo. A senhora de 67 anos estava aprendendo a ler.
Centenas de pessoas estavam encontrando suas vozes. E aqui, nesta cobertura que já foi uma prisão dourada, Clara havia encontrado a sua. Rafael. Ela chamou sem se virar. Sim. Obrigada. Pelo quê? Ela se virou para encará-lo, por me ver, por aprender a me amar de verdade, por mudar e crescer e tentar todos os dias. Ela caminhou até ele por me dar um lar de verdade.
Rafael se levantou, puxando-a para seus braços. Você me deu algo maior. Me deu uma razão para viver de novo, para sentir de novo, para acreditar que posso ser feliz de novo. Mesmo depois de tanta perda, eles se beijaram, lento e profundo. Não havia pressa. Tinham o resto de suas vidas. Quando se separaram, Rafael tocou sua testa com a dele.
Sabe o que percebi? O quê? Juliana e Isabela sempre terão uma parte do meu coração”, ele disse honestamente. “Mas você você tem o resto todo e tem espaço suficiente para tudo, o passado e o futuro, a dor e a alegria, a perda e o amor novo.” Tem Clara concordou. Porque amor não é finito, não é algo que acaba porque você já amou antes. Amor cresce, expande, abrange.
Exatamente. Rafael sorriu. Quando você ficou tão sábia? Aprendi com um CEO orcaholic que descobriu que vida é muito mais do que planilhas. Clara brincou. E eu aprendi com uma escritora invisível que me ensinou a verdadeiramente ver. Três meses depois, no lançamento do livro invisível em uma livraria lotada no centro de São Paulo, Clara estava de pé no pequeno palco, segurando um exemplar de seu romance publicado, o primeiro livro físico com seu nome na capa.
Rafael estava na primeira fila, sorrindo orgulhosamente. Ao lado dele, Maria Santos, Nana, Alex e até Carmen, todos que a haviam apoiado nessa jornada impossível. Quero ler a última linha do livro. Clara anunciou abrindo na última página. Sua voz estava firme, confiante, porque ela resume tudo que aprendi, tudo que vivi, ela leu.
Às vezes, as maiores histórias de amor não são sobre pessoas perfeitas se encontrando, são sobre pessoas imperfeitas aprendendo a se ver de forma clara, completa e corajosa. Os aplausos foram ensurdecedores, mas Clara só tinha olhos para Rafael, que estava de pé, aplaudindo com lágrimas nos olhos. Depois, enquanto autografava exemplares, uma jovem de aproximadamente 20 anos chegou até ela.
“Obrigada por este livro.” Ela disse, os olhos vermelhos. “Estou em um casamento onde me sinto invisível, mas você me deu coragem para exigir ser vista ou para sair. Você merece ser vista.” Clara segurou a mão dela. Sempre mereceu. E naquele momento, Clara entendeu sua história, toda a dor, toda a solidão, toda a jornada. tinha valido a pena porque estava ajudando outras pessoas a encontrarem suas próprias vozes.
Naquela noite, de volta à cobertura, Clara e Rafael estavam no quarto, não mais um espaço estéril e sem vida, mas um ambiente verdadeiramente deles. Fotos nas paredes, livros empilhados nos criados mudos, plantas vivas nas prateleiras. “Sabe o que ainda me impressiona?”, Rafael disse, puxando Clara para seus braços enquanto se deitavam.
Como você transformou algo tão doloroso em algo tão lindo? Transformamos. Clara corrigiu. Você também mudou, Rafael. Do homem frio que conhecia o homem que seguro agora. É incrível. Ainda tenho dias ruins. Ele admitiu. Dias onde quero me esconder no trabalho, onde fico distante. Eu sei. Clara beijou seu pescoço. E nesses dias eu te puxo de volta.
Te lembro de estar presente e você deixa. Essa é a diferença. É, Rafael concordou. E você? Ainda tem dias onde se sente invisível? Às vezes, Clara foi honesta. Velhos medos não desaparecem completamente, mas agora sei meu valor. Sei que mereço ser vista. E se você esquecer, eu te lembro. Justo.
Rafael sorriu, puxando-a mais perto. Então é isso, nosso final feliz? Não é um final. Clara disse pensativamente: “É um começo de verdade desta vez.” Ela olhou para ele. Casamentos não terminam em finais felizes. Eles continuam em milhares de pequenos momentos. Cafés da manhã, discussões sobre besteiras, apoio mútuo, crescimento constante. O feliz não é um destino, é uma escolha diária.
“Eu me escolhe?”, Rafael perguntou. Vulnerabilidade ainda presente em sua voz, mesmo depois de tudo. Todos os dias. Clara prometeu: “E, todos os dias.” Ele ecoou para sempre. Eles adormeceram abraçados duas pessoas imperfeitas que haviam aprendido a mais importante lição. Amor verdadeiro não é encontrar alguém sem falhas, é encontrar alguém cujas falhas você pode aceitar, cujo crescimento você apoia e cuja presença torna sua vida significativamente melhor.
E ao amanhecer de um novo dia em São Paulo, com a cidade acordando lá embaixo, Clara Santos Romano acordou ao lado de Rafael Mendes Almeida e soube com certeza absoluta. Ela não era mais invisível. Ela era vista, amada e completamente viva.