A casa não estava silenciosa, ela estava sem som. Às 5:40 da manhã, antes mesmo de São Paulo acordar, Ricardo Almeida ficou parado no meio da cozinha de vidro, segurando uma xícara de café que já havia esfriado. Do lado de fora, a chuva caía fina, contínua, batendo no vidro, como dedos impacientes.

 Lá dentro nada respondia. Não havia música, não havia passos apressados, não havia risadas atravessando o corredor, só o som seco do relógio na parede, tictac, marcando um tempo que parecia não levar a lugar nenhum. Ricardo tinha 45 anos, comandava um dos maiores grupos de investimentos da cidade, tomava decisões que movimentavam milhões em poucos minutos.

 Mas naquela manhã, como em tantas outras, ele não conseguiu dar um único passo em direção à mesa de jantar. A mesa era grande. Oito cadeiras de madeira clara, perfeitamente alinhadas. Apenas três eram usadas todos os dias. Mesmo assim, ele sentia que uma delas gritava mais alto do que todas as outras, a cadeira vazia.

 Ricardo desviou o olhar, sempre desviava. A mansão no Morumbi era tudo o que revistas de arquitetura chamariam de perfeita. Iluminação indireta, janelas amplas, um jardim que parecia um recorte de catálogo. Mas por dentro aquela casa havia se transformado em algo diferente. Não era mais um lar, era um espaço bonito, onde ninguém sabia exatamente como respirar.

 O cheiro de café fresco não despertava ninguém. O piano de calda na sala permanecia fechado, com uma camada fina de poeira cobrindo a tampa, como se o instrumento estivesse de luto. A luz da manhã entrava suave pelas cortinas, mas não aquecia. Ricardo levou a xícara aos lábios e não sentiu gosto algum.

 Oito meses antes, aquela mesma cozinha era barulhenta. Isabela cantava desafinada enquanto preparava o café. Lia corria pelo corredor com o cabelo bagunçado e Davi reclamava porque o pão de queijo estava quente demais. O som da vida era tão natural que ninguém percebia até desaparecer. Isabela morreu numa terça-feira chuvosa no meio da Marginal Tietê.

 Um acidente simples, disseram, um impacto rápido, um telefonema curto demais para caber em uma vida inteira. Ricardo lembrava de cada detalhe daquele dia, embora tentasse não lembrar de nada. O reflexo vermelho das luzes no asfalto molhado, a voz do policial, o silêncio logo depois, quando o mundo continuou girando, mas o dele parou desde então, ele passou a viver como se estivesse sempre atrasado para um lugar que já não existia. Davi, seu filho mais velho, tinha 8 anos.

Antes falava sem parar, fazia perguntas demais, ria alto demais. Agora passava horas sentado na cama, o tablet apoiado nos joelhos, os olhos fixos na tela, como se aquilo fosse um escudo. Respondia com monossílabus. Não reclamava, não pedia, não chorava. Era como se tivesse desligado o som por dentro. Lia de 5 anos, era o oposto.

 Chorava por motivos pequenos, recusava comida. Acordava à noite chamando pela mãe. Andava pela casa arrastando uma boneca velha de pano com um vestido já desbotado, a única que não aceitava trocar. Ricardo observava os dois todas as manhãs, sentado à mesa, fingindo ler mensagens no celular. Ele sabia que estava ali.

 Eles sabiam que ele estava ali. Mas havia um espaço invisível entre os três. Um espaço feito de cuidado, mal direcionado e medo. Medo de falar, medo de lembrar, medo de piorar tudo. Ele tentou resolver do único jeito que conhecia. contratou os melhores psicólogos infantis da cidade. Sessões caras, salas claras, brinquedos terapêuticos.

 Comprou videogames importados, montou uma sala inteira só para diversão, instalou balanços no jardim. Nada funcionou. Davi continuou distante. Lia continuou sem comer direito. As babás vinham e iam embora. A primeira ficou três semanas. disse que as crianças eram difíceis demais. A segunda aguentou 15 dias. Disse que a casa era pesada. A terceira não completou uma semana.

 Ricardo, que comandava reuniões com dezenas de executivos, que negociava contratos internacionais, que nunca perdia o controle em público, sentia-se completamente perdido dentro da própria casa. E como todo homem que não sabe lidar com o que sente, ele fez o que parecia mais lógico. Trabalhou mais, saía antes das 6 da manhã, voltava depois das 10 da noite.

 Nos fins de semana, trancava-se no escritório sob a desculpa de pendências urgentes. Na verdade, era mais fácil encarar números do que o silêncio no jantar. A casa, que antes tinha cheiro de bolo e som de piano, passou a cheirar a produtos de limpeza e comida comprada fora. Sushi caro, massas de restaurantes famosos, doces perfeitos demais para serem tocados. As crianças mal provavam.

 Numa noite qualquer, Ricardo chegou mais cedo do que o normal. A chuva ainda caía fina. Ele entrou pela porta da frente sem acender todas as luzes. A casa o recebeu do mesmo jeito de sempre. Quietamente, ele passou pela sala, pelo piano fechado, pelo corredor longo, parou diante da mesa de jantar, puxou uma das cadeiras, depois, sem perceber, puxou outra.

 A cadeira de Isabela ficou de pé por alguns segundos, a mão apoiada no encosto. O gesto foi automático, quase inconsciente. Só depois percebeu o que estava fazendo. Retirou a mão rápido, como se tivesse tocado algo proibido. Na cozinha sobre a mesa havia um guardanapo dobrado de forma simples, limpo, branco, um detalhe pequeno demais para chamar atenção, mas que não estava ali na noite anterior.

 Ricardo franziu a testa, olhou ao redor, sentindo algo que não soube nomear. Não era esperança ainda, não. Era apenas a sensação estranha de que naquela casa sem som algo muito pequeno havia começado a se mover. Na segunda-feira seguinte, Ricardo Almeida acordou com a mesma sensação dos últimos meses. O corpo levantou, mas a alma ficou sentada na cama. Ele se vestiu no automático.

Camisa clara, relógio caro, sapatos engrachados, tudo impecável, tudo distante. Ao passar pelo corredor, ouviu passos suaves vindo da área de serviço. Um som novo, curto, quase tímido. Havia alguém na casa. Na cozinha, uma mulher ajeitava os produtos de limpeza sobre a bancada com movimentos cuidadosos, como se cada objeto tivesse um lugar exato para existir.

 Ela usava um uniforme azul marinho simples, o cabelo preso num coque baixo, sem maquiagem. Os sapatos eram baixos, gastos pelo tempo. Ricardo parou por um segundo, olhou rápido demais, classificou rápido demais. Bom dia, disse já pegando as chaves. A empresa explicou o serviço. Limpeza geral, cozinha, quartos, roupa de cama. A mulher ergueu o olhar.

 Tinha olhos atentos, escuros, daqueles que observam mais do que falam. Bom dia, senhor, respondeu com voz firme, mas baixa. Pode deixar. Ricardo assentiu e saiu. Não perguntou o nome dela, não achou necessário. No carro, preso no trânsito da Marginal Pinheiros, ele nem se lembrou daquele encontro. A mente já estava em planilhas, gráficos, reuniões. Pessoas como aquela mulher existiam no fundo da casa, como paredes ou portas, importantes, sim, mas invisíveis.

 Quando Ricardo voltou à noite, a casa estava limpa demais. O cheiro forte de produto de limpeza preenchia o ar, apagando qualquer resquício de comida caseira que um dia existira ali. Os brinquedos de Davi estavam alinhados em caixas transparentes, as bonecas de Lia organizadas em prateleiras. Tudo parecia correto. As crianças estavam na mesa com a nova babá Bruna. Uma jovem de 20 e poucos anos, recém formada em pedagogia.

Ela falava animada, mostrando cartões coloridos. “Davi, qual é a cor dessa figura?” “Aul”, respondeu ele sem levantar os olhos. Lia empurrou o prato devagar. Não comeu. Ricardo observou a cena de longe, com aquela sensação incômoda de estar olhando algo que deveria funcionar, mas não funcionava. Jantou rápido, respondeu algumas mensagens e foi para o escritório.

 Na manhã seguinte, saiu cedo novamente. Não viu a mulher da limpeza, só percebeu pequenos detalhes novos espalhados pela casa. A poeira do piano estava diferente, não totalmente limpa, apenas um trecho, como se alguém tivesse passado a mão com cuidado, sem coragem de abrir a tampa. Ricardo parou diante do instrumento por um instante, franziu o senho, depois seguiu em frente.

 quarto de Davi. Os brinquedos caros estavam arrumados, mas um caderno antigo havia sido colocado sobre a escrivaninha, aberto numa página em branco. Ricardo não lembrou de ter visto aquele caderno ali antes. No quarto de Lia, a boneca velha estava sentada na cama, coberta com um lençol fino, como se alguém tivesse tido o cuidado de colocá-la para dormir.

 Nada disso parecia importante o suficiente para ser questionado. No terceiro dia, Ricardo chegou um pouco mais cedo do trabalho. O céu estava cinza, pesado. Ele entrou pela porta lateral e ouviu vozes vindas da cozinha. Não risadas, apenas vozes baixas. Ele diminuiu o passo. A mulher da limpeza estava ali. Agora ele sabia o nome porque ouvira a Bruna chamá-la mais cedo ao telefone. Cláudia.

 Cláudia lavava as mãos na pia enquanto Bruna reclamava em voz baixa, encostada na bancada. Essas crianças são complicadas. A menina quase não come. O menino não fala. Parece que nada adianta. Cláudia secou as mãos com calma. Criança fala quando se sente segura”, respondeu. “Às vezes não é hora de falar.” Bruna suspirou impaciente.

Eu estudei para isso. Sei o que estou fazendo. Cláudia não discutiu. Apenas assentiu e voltou ao trabalho. Ricardo sentiu um incômodo estranho. Não sabia dizer porquê. Nos dias seguintes, algo começou a mudar. Não de forma óbvia, não de forma espetacular. Eram pequenas fissuras no silêncio.

 Davi passou a sair do quarto alguns minutos antes do jantar. Ficava encostado no batente da porta, observando a cozinha. Não falava, mas ficava. Lia em uma tarde pediu um copo de leite. Apenas isso, um pedido simples. Ricardo quase não acreditou quando Bruna contou. Foi a Cláudia que trouxe”, disse a babá sem entusiasmo. “Eu nem vi quando a menina levantou.

Ricardo não comentou, mas aquela noite demorou mais para pegar no sono. Na quinta-feira, ele voltou para casa já de noite. A chuva tinha parado, o ar estava mais quente. Ao entrar, sentiu um cheiro diferente. Não era produto de limpeza, não era comida de restaurante, era algo simples, familiar.

 Um cheiro que não visitava aquela casa havia meses. Chocolate. Ricardo parou no corredor. O som vinha da cozinha. Um som leve, colheres batendo em uma tigela, um murmúrio baixo. Ele deu dois passos à frente, então ouviu. Mamãe fazia assim. A voz de Lia, pequena, quebrada. Ricardo congelou e ela deixava você mexer, perguntou Cláudia com doçura. deixava.

 Mesmo fazendo bagunça, houve uma pausa, um silêncio diferente, vivo. Ricardo sentiu o peito apertar. Ele não entrou, não interrompeu. Ficou ali encostado na parede fria do corredor, ouvindo algo que não escutava havia muito tempo. A casa respirava. Quando Bruna apareceu na porta da cozinha e viu Ricardo, levou um susto. Senr.

 Ricardo, eu começou aflita. A Cláudia deixou as crianças mexerem na cozinha. Eu ia avisar, mas Ricardo ergueu a mão, pedindo silêncio. Ele olhou por cima do ombro dela, viu Lia sentada no banquinho com a boneca velha ao lado. Viu Davi parado, observando atento. Viu Cláudia ajoelhada no chão, no mesmo nível das crianças, ouvindo, apenas ouvindo.

 E pela primeira vez, Ricardo Almeida não viu uma funcionária. viu alguém fazendo algo que ele com todo o dinheiro do mundo, não tinha conseguido fazer. Naquele instante, sem que ninguém dissesse uma palavra, algo se inverteu dentro dele. A mulher que sempre estivera ali, invisível, tinha acabado de ser vista.

 Ricardo cancelou a última reunião da tarde com uma frase curta, quase seca. Hoje não. O motorista estranhou o horário. Quase ninguém voltava para aquela casa antes das 7. O céu de São Paulo estava baixo, pesado, com nuvens que pareciam segurar a chuva por pura teimosia. No caminho, Ricardo observou as pessoas nas calçadas, apressadas, comuns, vivas.

 Pensou em Isabela sem querer. Pensou em como ela sempre dizia que certas decisões não precisavam de justificativa. Quando o carro parou diante do portão, ele respirou fundo. Não sabia exatamente o que esperava encontrar. Só sabia que, pela primeira vez em meses, não queria chegar tarde. A casa o recebeu com algo inesperado. Não foi silêncio, foi um cheiro.

 Ricardo fechou a porta atrás de si e ficou imóvel no hall por alguns segundos. O ar estava morno, denso, carregado de algo doce, chocolate, açúcar aquecido, uma memória antiga que vinha antes das palavras. O som também era diferente, não alto, não organizado, um som vivo, talheres tocando a borda de uma tigela, um forno trabalhando, um murmúrio infantil.

 Ele caminhou devagar pelo corredor, como se qualquer passo em falso pudesse quebrar aquele instante. A cozinha estava acesa. A luz amarela refletia no piso claro, criando sombras longas. E então ele viu. Lia estava sentada no chão com as pernas cruzadas, abraçando a boneca velha contra o peito. O rosto estava vermelho, os olhos inchados.

 Chorava baixo, como quem já chorou demais, e agora só tinha restos de voz. “Eu quero o bolo da mamãe”, sussurrou. “Aquele que ela fazia para mim. Bruna estava de pé, perto da bancada, segurando uma caixa de bolo comprado. O rótulo era elegante, o preço alto, o gesto apressado. “Esse aqui é bom, Lia. Olha, é de chocolate também”, disse tentando sorrir.

 Lia empurrou a caixa com a mão pequena num movimento fraco, mas decidido. “Não é igual.” Ricardo sentiu algo se partir dentro do peito. Não entrou, não falou, ficou ali à margem, como se não tivesse direito de atravessar aquela cena. Cláudia estava ajoelhada no chão diante de Lia. Não tocava na criança, não tentava calar o choro, apenas se inclinou um pouco mais perto até ficar da mesma altura.

 Me conta como era o bolo dela”, disse com a voz baixa, quase um convite. Lia levantou os olhos molhados. Demorou um segundo antes de responder. “Tinha cheiro de casa.” A frase atravessou Ricardo como um golpe silencioso. Ela deixava eu quebrar os ovos. Continuou Lia, engolindo o choro, mesmo quando caía tudo no chão. E ela ria, sempre ria. Cláudia a sentiu devagar, como se estivesse ouvindo algo precioso.

E depois, depois a gente mexia juntas. Lia fez um gesto circular com a mão e ela fazia carinhas no bolo com creme branco e colorido. A cozinha parecia menor, mais quente. O tempo ali dentro tinha outra velocidade. Bruna respirou fundo, impaciente. Lia, você não devia estar falando disso agora.

 Seu pai não vai gostar”, disse num tom que misturava preocupação e incômodo. “E a senhora? Você é só da limpeza?” Ricardo sentiu a frase bater contra ele antes de alcançar Cláudia, mas Lia não olhou para Bruna. Continuou olhando para Cláudia. Mamãe cantava, disse, cantava mesmo quando não era aniversário. Davi apareceu na porta da cozinha naquele instante. A mochila ainda pendurada em um dos ombros, parou ao ver a irmã sentada no chão falando da mãe.

 Normalmente ele teria virado e ido direto para o quarto, mas algo o manteve ali. Cláudia ergueu os olhos e percebeu Davi. Não o chamou, não fez perguntas. apenas abriu o espaço. “E você, Davi,” disse depois de um momento. Também ajudava? Ele demorou a responder, olhou para o chão, depois para a mesa. A voz saiu baixa, quase tímida. Eu fazia as bolinhas de biscoito.

 Cláudia sorriu de leve. Então você era o responsável pelas bolinhas. Davi piscou surpreso. Uma curva quase imperceptível apareceu no canto da boca. Um sorriso pequeno, frágil, mas real. Ricardo sentiu as pernas fraquejarem. Aquele sorriso não existia havia 8 meses. Bruna cruzou os braços, desconfortável. Isso não é apropriado, murmurou.

 As crianças vão se confundir. Ricardo percebeu pela primeira vez que Bruna falava de regras. Cláudia falava de pessoas. Cláudia se levantou devagar e foi até um armário baixo. Abriu uma gaveta que ninguém mexia há meses. Tirou de lá um avental antigo manchado de farinha seca. O tecido estava gasto, familiar. Lia esticou a mão e tocou o pano, como se reconhecesse algo vivo.

 É da mamãe disse. A gente pode usar, respondeu Cláudia. Se você quiser. Ricardo desviou o rosto. O nó na garganta era grande demais. O forno foi ligado. A tigela passou de mão em mão. O chocolate derreteu devagar. A casa absorveu aquele ritmo simples, quase esquecido. Ricardo se afastou alguns passos, encostando na parede do corredor.

 Fechou os olhos por um segundo, não chorou, mas respirou fundo, como alguém que volta à superfície depois de muito tempo submerso. Aquela mulher, ajoelhada no chão, com um avental velho e uma colher de madeira, tinha feito algo que ele não soubera fazer. Ela tinha aberto uma porta. Quando Ricardo abriu os olhos, a luz do forno iluminava a cozinha com um tom quente, quase dourado. O cheiro do bolo começava a se espalhar pela casa.

Entrando nos quartos, passando pela sala, tocando o piano fechado. Pela primeira vez em muito tempo, a casa não parecia vazia, parecia acordando. Naquela noite, Ricardo voltou tarde. Não tão tarde quanto antes, mas tarde o suficiente para que a casa já estivesse apagada. Se fosse como sempre, só que não estava.

 Ao estacionar, ele notou primeiro a luz, uma faixa dourada escapando pela janela da cozinha, como se alguém tivesse deixado o dia aceso ali dentro. Ricardo ficou alguns segundos dentro do carro, com a mão no volante, ouvindo o próprio coração. O cheiro ainda estava no ar, mesmo do lado de fora, misturado com a umidade do jardim, chocolate e açúcar queimando de leve. Ele entrou sem fazer barulho.

 No corredor, o silêncio não era mais um vazio, era só um intervalo, como se a casa estivesse prendendo a respiração, esperando alguma coisa acontecer. Quando Ricardo chegou à porta da cozinha, parou. Davi e Lia estavam acordados, sentados à mesa, com as bochechas sujas de chocolate, uma tigela no meio, uma colher de madeira ao lado, migalhas espalhadas como se tivessem acontecido ali de verdade.

 E havia algo que Ricardo não via há meses. Os dois estavam juntos no mesmo espaço, no mesmo mundo. mastigava devagar, concentrada, como se cada pedaço fosse importante demais para desperdiçar. Davi segurava um prato com cuidado. Não era o cuidado de quem tem medo de derrubar, era o cuidado de quem não quer perder.

 Bruna estava na sala ao lado, de pé, o celular na mão, o rosto fechado. Assim que viu, Ricardo, atravessou a porta como quem segura uma reclamação no peito. “Senor Ricardo, preciso falar com o senhor agora.” A voz dela era firme, quase ofensiva. A Cláudia deixou as crianças fazerem bagunça na cozinha. Elas mexeram em tudo e agora não querem me obedecer. Isso não é trabalho dela, ela é da limpeza.

Ricardo ouviu a frase inteira, mas o que realmente entrou nele foi a última parte. Ela é da limpeza. Aquelas palavras tinham um peso, não só na boca de Bruna, dentro da casa, dentro do mundo, como se existisse um lugar certo para cada pessoa, e a Cláudia tivesse ousado ultrapassar o seu. Ricardo olhou para Davi, depois para Lia.

 Os dois o encaravam com uma atenção frágil, desconfiada, como se estivessem esperando o momento em que ele destruiria aquilo. Ricardo sentiu o corpo inclinar para a decisão antiga, mandar dormir, pedir desculpas para o ababá, apagar a luz, voltar para o escritório. A decisão antiga era fácil. Ele respirou uma vez, duas.

 Então Lia deslizou do banco e correu até ele com o prato nas mãos. Papai, ela disse sem fôlego. A gente fez bolo. O prato tremia um pouco. O pedaço não era bonito. Tinha o canto torto, a cobertura irregular. Não parecia coisa de confeitaria, parecia casa. Olha, ficou igual. Igual o da mamãe. Ricardo não respondeu de imediato, só olhou. Naquele segundo, ele percebeu um detalhe que o atravessou como uma lâmina. Lia estava falando da mãe sem desabar.

 Falando e ficando em pé. Ele pegou o prato com cuidado, como se fosse frágil demais para existir. Deu uma mordida. O gosto não era perfeito, era doce, simples, com uma leve lembrança de queimado no fundo, mas havia algo ali que nenhuma comida cara da cidade tinha trazido de volta.

 A sensação de que alguém fez aquilo pensando em alguém. Ricardo engoliu devagar. A garganta fechou. Por um instante ele viu Isabela na cozinha. Não como fantasma, como memória, o avental manchado, o cabelo preso às pressas, o riso fácil, a mão guiando as mãos pequenas das crianças. Ele piscou forte, tentando impedir que o rosto se entregasse. Não adiantou. Os olhos arderam.

 Davi levantou-se devagar, como se estivesse testando um chão novo. A Cláudia falou que eu era o chefe das bolinhas. Disse com a voz baixa. E por incrível que parecesse, um sorriso apareceu pequeno, quase escondido. Mas ali Ricardo olhou para o filho. O mundo inteiro pareceu parar nesse gesto mínimo. Bruna cruzou os braços, insistindo. Senr.

 Ricardo, eu preciso que o senhor coloque limites, senão amanhã vai ser pior. Ricardo virou o rosto para ela. Não havia raiva, havia clareza, uma coisa rara nele nos últimos meses. “Obrigado, Bruna”, ele disse. A voz saiu baixa, mas definitiva. “Amanhã a gente conversa”. Bruna abriu a boca surpresa.

 Mas amanhã, repetiu Ricardo e o amanhã carregava uma porta fechada. Bruna ficou parada por um segundo, como se não acreditasse, depois saiu resmungando, o salto batendo no piso com agressividade. O som sumiu pelo corredor e Ricardo ficou ali com as crianças. Lia puxou a manga da camisa dele, sujando de chocolate, sem perceber.

 Ela já foi embora, disse, mas amanhã ela volta e vai ensinar brigadeiro. Ricardo soltou uma risada curta, quase sem som. Uma risada que doeu porque lembrava outra vida. Ele olhou para a mesa bagunçada, para a tigela, para a colher, para as migalhas, e ao invés de mandar alguém limpar, ele puxou uma cadeira e sentou.

Não na ponta, não como chefe, como pai. Eu senti falta disso”, ele disse e a frase saiu quebrada, verdadeira. de vocês aqui perto. Davi não respondeu, só empurrou o prato na direção do pai, oferecendo mais um pedaço, um gesto pequeno demais para ser chamado de perdão, mas grande o suficiente para ser um começo.

 Ricardo estendeu a mão, hesitou e então tocou o cabelo do filho com cuidado, como se estivesse reaprendendo o lugar da própria mão. Amanhã eu fico em casa de manhã, ele disse, mais para si do que para eles. Eu quero aprender. Lia bocejou e encostou a cabeça no braço dele, pesada, confiando. Ricardo sentiu o corpo da filha relaxar, como se por alguns minutos a casa tivesse voltado a ser segura.

 Mais tarde, quando finalmente os colocou na cama, Ricardo passou pela sala e parou diante do piano. A tampa ainda estava fechada. A poeira agora parecia menos espessa, não porque alguém limpou mais, mas porque ele estava olhando diferente. No dia seguinte, Ricardo realmente ficou. O sol apareceu tímido depois de dias de chuva, clareando o jardim com uma luz pálida.

Às 8 da manhã, o interfone tocou. Ricardo abriu a porta. Cláudia estava ali com o mesmo uniforme simples, a mesma bolsa de pano, mas o olhar dela carregava uma tensão discreta, como quem se prepara para ser acusada. Bom dia, senor Ricardo. Ricardo segurou a maçaneta por um segundo. Sentiu vergonha.

 Aquela vergonha silenciosa de quem percebe tarde demais, que passou meses ignorando a pessoa que salvou sua casa. Ele respirou. Cláudia, disse, finalmente usando o nome dela como deveria ter usado desde o início. Obrigado. Ela piscou. Surpresa, não sorriu. Não fez drama, só ficou. Ricardo continuou com a voz baixa, quase um pedido. Eu não vi você e ontem eu vi. Cláudia abaixou o olhar por um instante, como se escolhesse as palavras.

 Eu só escutei, senhor, respondeu. Criança precisa disso. Alguém que escute sem pressa. Ricardo assentiu. A garganta apertou de novo. Você pode me ensinar? Ele perguntou. E aquela frase, na boca de um homem acostumado a mandar, soou como algo completamente novo. A serpai aqui dentro. Cláudia não respondeu na hora, apenas olhou para dentro da casa, onde Lia apareceu no corredor, esfregando os olhos, e Davi surgiu atrás, mais acordado do que de costume.

Lia correu até Cláudia. Hoje tem brigadeiro? Perguntou com uma alegria tímida. Cláudia finalmente sorriu. Tem, mas só se o papai ajudar. Ricardo ficou parado um segundo, sem saber se ria ou se chorava. Então Davi passou por ele e antes de ir para a cozinha encostou a mão no piano de leve, como quem pede permissão.

 Ricardo viu o filho olhar para a tampa fechada e levantar um pouquinho, só o suficiente para deixar escapar um único som, pequeno, falho, mas real. Um plim tímido. Ricardo sentiu o som atravessar a sala inteira e com ele alguma coisa dentro da casa também se abrindo.