Camila Oliveira sobe às escadas da mansão Rodrigues pela primeira vez, carregando sua bolsa simples e o nervosismo de quem está começando um trabalho novo. Aos 26 anos, cabelos pretos presos num coque, vestido simples, mas bem passado, ela parece pequena diante da imponência da casa de três andares no bairro mais nobre de São Paulo.

 A mansão é um espetáculo de arquitetura moderna. Vidros espelhados, mármore por toda parte, uma escadaria que parece saída de filme. Jardins perfeitamente cuidados, uma piscina que reflete o céu, garagem para seis carros. Mas o que mais impressiona Camila é o silêncio absoluto que reina pela casa.

 Para uma residência onde vive um bebê, o silêncio é estranho demais. Você deve ser a nova babá. Uma voz cortante ecoa pelo hall de entrada decorado com obras de arte caríssimas. É Vera Santos, a governanta da casa há 10 anos, uma mulher de 45 anos com expressão severa e postura militar. Seus cabelos grisalhos estão presos num coque apertado e ela usa um uniforme impecável que parece saído de uma revista. Camila Oliveira, certo? Sim, senhora. Bom dia.

Bom dia. Espero que tenha estudado bem as instruções que enviamos por e-mail. Camila confirma com a cabeça, lembrando da lista extensa de regras. Não acordar o bebê desnecessariamente. Seguir exatamente os horários de alimentação estabelecidos pela nutricionista. Não fazer barulho durante o período de sono da criança.

 Não alterar nada no quarto sem autorização prévia. Não dar colo quando o bebê chorar fora dos horários permitidos. e uma série de outras regras que pareciam mais adequadas para um hospital do que para uma casa. O bebê está no quarto dele. Siga-me, por favor, mantenha a voz baixa. Pietro tem o sono muito leve. Camila sobe até o segundo andar, pisando num tapete persa que provavelmente custa mais que seu salário anual.

 O corredor é decorado com quadros famosos e há um vaso chinês numa mesa que claramente é peça de museu para diante de uma porta decorada com adesivos de bichinhos da floresta, contrastando estranhamente com a sofisticação do resto da casa. Este é Pietro, 4 meses. Vera abre a porta devagar, como se entrasse numa igreja.

 O quarto é um sonho de consumo para qualquer criança. Móveis importados da Itália. Um berço branco reluzente que custa mais que um carro popular. Papel de parede com desenhos delicados. Um lustre de cristal no teto. Brinquedos educativos caríssimos estão organizados em prateleiras que parecem mais decoração que objetos de uso.

 No centro do quarto, dentro do berço majestoso, um bebê pequeno demais para a idade dorme inquieto. Pietro tem cabelos escuros escassos, pele pálida quase transparente e mesmo dormindo parece desconfortável. Suas perninhas se mexem constantemente, ele faz ruídos baixos e de vez em quando seu rostinho se contorce como se estivesse tendo pesadelos. Ele sempre dorme assim.

 Camila pergunta baixinho, notando que o sono da criança é agitado demais para ser normal. Sempre. Pietro é um bebê muito difícil desde que nasceu. Chora quase o tempo todo quando está acordado. Não aceita colo facilmente. Tem cólicas constantes, refluxo. Os médicos dizem que é temperamento forte. Camila se aproxima do berço e observa Pietro mais de perto.

 Há algo que a incomoda profundamente naquele sono inquieto. Em seus anos de experiência cuidando de crianças, ela nunca viu um bebê dormir com tanta agitação, sem haver uma causa específica. E o pai, onde está, Senr. Ricardo viajando a negócios em Londres, volta só na sexta-feira.

 é empresário, dono de várias empresas, muito ocupado, e a mãe do Pietro. O rosto de Vera se fecha numa expressão sombria. Senhora Fernanda morreu no parto. Hemragia. Pietro nunca conheceu a mãe, coitadinho. O coração de Camila se aperta. Um bebê órfão, criado apenas por funcionários, sem o calor de uma família verdadeira.

 Isso explicaria parte dos problemas comportamentais, mas não tudo. Quem cuidava dele antes de mim? Várias babás. Foram sete em quatro meses. Nenhuma ficou mais que duas semanas. Nossa, por que saíram? Pietro é muito difícil, como já disse. Chora 18 horas por dia, só dorme uma hora seguida, regurgita tudo que come, não aceita colo estranhos. As babás não aguentavam a pressão.

 Camila franja a testa. Bebês de 4 meses não são naturalmente difíceis a esse ponto, sem uma razão médica séria ou trauma. Algo não bate nessa história. Ele está sendo acompanhado por pediatra. Claro, doutor. Henrique Carvalho, um dos melhores de São Paulo. Examina Pietro toda semana. Sempre diz que fisicamente ele está normal, só tem personalidade forte.

 E que medicamentos ele toma? Vitaminas, medicação para refluxo e calmante natural quando fica muito agitado. Enquanto conversam, Pietro começa a se mexer mais intensamente, fazendo ruídos cada vez mais altos. Seus bracinhos se agitam e o rostinho se contorce numa expressão de desconforto crescente. Parece que vai acordar. Camila observa.

Sempre acontece isso. Ele nunca consegue completar um ciclo de sono. É como se algo o incomodasse constantemente. Pietro abre os olhinhos, azuis como os do pai, e imediatamente seu rosto se transforma numa máscara de sofrimento. Em questão de segundos, ele dispara num choro alto, desesperado, angustiante. Não é choro de bebê normal.

 É um som que transmite dor real, desespero, como se ele estivesse em agonia. Pronto, acordou. Agora vai chorar por três ou quatro horas seguidas. Vera suspira resignada, como se fosse uma rotina inevitável. Camila não consegue ficar parada ouvindo aquele choro de sofrimento. Todos os seus instintos maternais despertam de uma vez.

 Ela se aproxima do berço e estende os braços, ignorando as regras. Posso pegá-lo? Pode tentar, mas ele não gosta de colo. Fica mais agitado ainda. Camila pega Pietro cuidadosamente. O bebê está rígido como uma tábua, tenso, tremendo de tanto chorar. Mas quando ela o aninha contra o peito, fazendo o movimento natural de balanço que toda mulher conhece instintivamente, algo surpreendente acontece. O choro diminui ligeiramente.

Pequenininho, o que está incomodando você tanto? Vera observa com surpresa genuína. Isso é muito estranho. Pietro nunca se acalma no colo de ninguém. As outras babás tentavam pegá-lo e ele gritava ainda mais. Camila continua balançando Pietro suavemente, cantarolando uma canção de Ninar que sua mãe costumava cantar.

 O bebê ainda chora, mas a intensidade diminui visivelmente. Ele se encosta no peito dela, procurando calor e conforto. “Coitadinho, você só quer carinho”, Camila sussurra, sentindo o coração partido com tanto sofrimento numa criança tão pequena. “Isso é impossível”, Vera murmura. Dr.

 Henrique disse que Pietro tem aversão ao toque humano, que é uma característica neurológica dele. Quando foi a última vez que Dr. Henrique examinou Pietro? Semana passada. Ele vem aqui toda terça-feira. E o que ele diz sobre esse choro constante? Que é cólica severa, misturada com temperamento difícil. Alguns bebês são assim, segundo ele. Camila não se convence.

 Em 15 anos cuidando de crianças desde adolescente, ela nunca viu um caso assim. Há algo fundamentalmente errado que ninguém está conseguindo identificar. Depois de 40 minutos no colo dela, Pietro finalmente para de chorar completamente, mas continua inquieto, mexendo as perninhas constantemente, fazendo caretinhas, como se algo o incomodasse fisicamente.

Nunca vi ele parar de chorar tão rápido, Vera admite. Talvez você tenha o toque especial que ele precisava. É hora da mamadeira das 8 horas. Vera anuncia consultando um cronograma detalhado colado na parede. Siga exatamente as instruções. São 60 ml de fórmula especial, temperatura morna oferecida lentamente.

 Camila senta na poltrona de amamentação, um móvel caríssimo de couro italiano, e oferece a mamadeira para Pietro. Ele tenta sugar, mas bebe com evidente dificuldade, parando constantemente, engasgando, fazendo caretas, como se o simples ato de se alimentar fosse uma luta. Ele sempre tem dificuldade para mamar. Sempre.

 Come muito pouco, demora uma hora para tomar 60 ml e depois regurgita metade. Isso não é normal. Dr. Henrique diz que é refluxo gastroesofágico, muito comum em bebês prematuros. Pietro nasceu prematuro. Nasceu com 37 semanas. Não muito prematuro, mas um pouco adiantado. Camila observa Pietro enquanto ele luta para se alimentar. O bebê usa uma energia enorme para algo que deveria ser natural e prazeroso.

 Há sofrimento em cada movimento dele. Depois de uma hora tentando, Pietro consegue beber apenas 40 ml e imediatamente regurgita 15. está claramente exausto do esforço. É hora de colocá-lo para dormir, Vera anuncia. Já ele acabou de acordar. Pietro dorme na maior parte do dia porque fica exausto de tanto chorar.

 São pequenos cochilos de uma hora no máximo. Camila se levanta da poltrona para colocar Pietro de volta no berço. Ela o deita cuidadosamente sobre o colchão macio, arruma a roupinha, um macacãozinho de algodão orgânico que custa mais que um salário mínimo e ajusta a fraldinha. No exato momento em que a cabecinha de Pietro toca o colchão, ele dispara num choro desesperador.

Sempre faz isso. Vera explica com naturalidade perturbadora. Detesta ficar no berço. É como se o berço fosse seu maior inimigo. Camila pega Pietro de volta no colo imediatamente. O choro para como se alguém tivesse apertado um botão de desligar. Isso é muito estranho! Ela murmura, olhando do bebê para o berço.

 O que é estranho? Ele para de chorar instantaneamente quando sai do berço. É porque não gosta de dormir sozinho, quer atenção constante. Mas Camila não se convence dessa explicação simplista. Há algo específico sobre o berço que aterroriza Pietro. Ela decide testar sua teoria. Camila aproxima Pietro do berço lentamente. Quando ele ainda está a 30 cm de distância, já começa a ficar agitado.

Quando ela simula que vai colocá-lo dentro, ele dispara no choro antes mesmo de tocar o colchão. Vera, isso não é birra de bebê. Pietro tem terror genuíno deste berço. Tolice é um berço caríssimo, importado, com o melhor colchão ortopédico infantil do mercado. Mesmo assim, algo está errado. O que poderia estar errado em um berço novo? Camila não sabe responder, mas sua intuição está gritando que o problema está ali, naquele berço aparentemente perfeito.

 Posso examinar o berço com mais cuidado, Vera hesita. Para quê? Não há nada errado com ele, só para minha própria tranquilidade. Como vou cuidar do Pietro se não entender porque ele sofre tanto? Está bem, mas seja rápida. Pietro precisa dormir. Camila coloca Pietro na poltrona, onde ele fica calmo observando, e volta para o berço.

 Ela examina as grades, verifica se há pontas soltas, cantos afiados, algo que possa estar machucando o bebê. passa a mão por toda a estrutura de madeira, procurando irregularidades. Tudo parece perfeito por fora. Posso levantar o colchão para ver embaixo? Por que faria isso? Vera pergunta claramente desconfortável, só para eliminar todas as possibilidades.

 O berço é novo, chegou da Itália há 5 meses. Não pode ter nada errado. Mesmo assim, preciso ver. Vera concorda reluctante, mas fica observando cada movimento de Camila com tensão evidente. Camila levanta o colchão ortopédico, que é surpreendentemente pesado, e olha por baixo.

 A primeira vista vê apenas a base de madeira lisa e bem acabada, madeira de lei polida, sem nenhum defeito aparente. Mas quando ela decide virar o colchão completamente para examinar a parte de baixo, descobre algo que a deixa em estado de choque total. Grudadas na parte inferior do colchão, exatamente onde ficariam as costas e a cabeça do bebê, há dezenas de pequenas agulhas de costura espetadas no tecido.

São agulhas finas, mas ponteagudas, posicionadas estrategicamente para causar desconforto máximo, sem deixar ferimentos visíveis. Meu Deus do céu! Camila grita, quase derrubando o colchão. O que foi? Vera corre para ver, mas quando vê as agulhas, sua reação é suspeita.

 Em vez de choque ou surpresa, há algo que parece alívio misturado com o nervosismo. Camila mostra as agulhas, contando rapidamente. Olha isso. São 23 agulhas espetadas exatamente onde Pietro encosta quando é colocado para dormir. Como essas agulhas foram parar aí? Vera gagueja, mas seu tom não soa genuinamente surpreso. Alguém colocou de propósito.

 Por isso, Pietro chorava desesperadamente toda vez que era colocado no berço. Ele estava sendo torturado. Isso é impossível. Quem faria uma coisa dessas com um bebê indefeso? Camila começa a retirar as agulhas cuidadosamente, uma por uma. São agulhas de costura comuns, do tipo que qualquer pessoa pode comprar numa loja de aviamentos.

Mas o que a deixa mais horrorizada é a forma meticulosa como foram posicionadas. Vera, essas agulhas foram colocadas por alguém que conhece anatomia infantil. Estão posicionadas exatamente nos pontos de pressão das costas, pescoço e cabeça de um bebê de 4 meses.

 Que que tipo de monstro faria isso? Alguém que queria que Pietro sofresse, mas sem deixar marcas visíveis. Camila examina as agulhas. Algumas têm pequenas manchas que podem ser sangue seco. Vera, há quanto tempo Pietro tem esses problemas de sono e choro? Desde que nasceu, desde o primeiro dia que chegou do hospital.

 E quando esse berço foi montado, Vera hesita antes de responder, alguns dias antes dele chegar do hospital. Quem teve acesso ao quarto durante esse período? Eu, a equipe de montagem, a decoradora. Mais alguém? A família, é claro. Que família? Pensei que só havia Senr. Ricardo e Pietro. Ah, a senora Letícia, cunhada do senor Ricardo, irmã da falecida senora Fernanda. Ela vem aqui com frequência todo dia.

 Diz que quer ajudar a cuidar do Pietro, já que ele ficou órfão de mãe. Um arrepio percorre a espinha de Camila, onde está Letícia agora? Viajando para o Rio de Janeiro, volta amanhã à tarde. Ela tem chave do quarto do Pietro? tem chave da casa toda, é considerada família.

 Camila sente que está começando a desvendar um mistério terrível. Alguém com acesso livre à casa, conhecimento sobre quando o berço seria montado e motivos obscuros para querer que Pietro sofresse. Vera, preciso que você me conte tudo sobre essa Letícia. Por que quer saber sobre ela? Porque alguém colocou essas agulhas no berço e preciso descobrir quem foi. Vera fica visivelmente desconfortável.

Letícia é uma pessoa boa, ama o Pietro. Se ela ama Pietro, porque ele melhorou instantaneamente depois que retiramos as agulhas? Vera não tem resposta para isso. Naquela primeira noite, Camila fica até mais tarde observando Pietro. Sem as agulhas no berço, ele dorme três horas seguidas pela primeira vez em quatro meses de vida.

 Quando acorda, não chora desesperadamente, faz apenas os ruídos normais de um bebê que quer atenção. Inacreditável. Camila sussurra, observando Pietro dormir tranquilo. Quatro meses de tortura por causa daquelas agulhas. Na manhã seguinte, Pietro está completamente diferente. Acorda sorrindo, algo que Vera jura nunca ter visto antes.

 Aceita a mamadeira sem dificuldade, bebe os 60 ml em 15 minutos e não regurgita nada. É outro bebê. Vera comenta claramente perturbada pela transformação. É o bebê que ele sempre foi, mas que estava sendo impedido de demonstrar. Durante o dia, Pietro se comporta como uma criança normal de 4 meses. Fica acordado períodos apropriados, observa o ambiente com curiosidade, responde a estímulos visuais e sonoros, aceita colo, brinca com móbiles.

 Em quatro meses de vida, nunca vi Pietro assim. Vera repete várias vezes, como se não conseguisse acreditar. Bebês não nascem difíceis, Vera. Eles se tornam difíceis quando algo os machuca. À tarde, uma Mercedes prata para na entrada da mansão. É Letícia Rodrigues Almeida, irmã mais nova da falecida Fernanda.

 Aos 32 anos, ela é uma mulher impressionante, alta, cabelos loiros, perfeitamente escovados, roupas de grife, maquiagem impecável, joias caríssimas. Mas há algo nos olhos dela que deixa a Camila desconfortável, uma frieza que contrasta com o sorriso perfeito. “Você deve ser a nova babá”, Letícia diz entrando na casa como se fosse dona dela. Sua voz é educada, mas há uma arrogância sutil no tom.

 Sou Letícia, cunhada do Ricardo, praticamente a única família que Pietro tem. Prazer conhecê-la, Camila Oliveira. Camila, nome simples. De onde você é? São Paulo mesmo, zona leste. O sorriso de Letícia fica mais forçado. É claro que ela está catalogando Camila como classe inferior e sua experiência anterior. Cuidei de crianças por 15 anos.

 Últimas três famílias podem dar referências. Que bom, Pietro precisa de alguém me experiente. Ele é um bebê muito especial. Especial como? Difícil, temperamental. As outras babás não conseguiram lidar com ele. Camila decide testar Letícia. Na verdade, Pietro está muito bem. Dormiu a noite inteira, mamou sem problemas, ficou calmo o dia todo.

 A expressão de Letícia muda sutilmente. Por uma fração de segundo, há algo que parece desapontamento. Impossível. Pietro não dorme a noite inteira desde que nasceu. Dormiu sim, 5 horas seguidas. Você deve estar confusa. Provavelmente acordou várias vezes e você não percebeu. Não, eu fiquei acordada observando.

 Ele dormiu tranquilo. Letícia fica visivelmente incomodada. Que que estranho. Ele nunca faz isso. Talvez ele só precisasse de cuidado diferente. Ou talvez você tenha dado algum remédio para ele dormir. A acusação é sutil, mas está lá. Camila sente a hostilidade crescendo. Não dei remédio nenhum, só carinho.

 Posso ver, Pietro? Claro, ele está no quarto. Letícia sobe às escadas com Camila atrás. Quando entra no quarto, encontra Pietro acordado no berço, brincando com as próprias mãozinhas, fazendo ruídos alegres. Impossível. Letícia sussurra. O que é impossível? Pietro nunca fica calmo no berço. Ele odeia aquele berço.

Hoje ele está adorando. Ficou lá duas horas brincando sozinho. Letícia se aproxima do berço com uma expressão estranha. Quando Pietro a vê, ele para de brincar e a observa com atenção, mas sem chorar. Oi, meu neném. Letícia fala com voz açucarada, mas há uma tensão nela. Como você está? Pietro continua olhando para ela silenciosamente.

 Ele não está animado me vendo, Letícia comenta. Bebês às vezes ficam tímidos. Pietro nunca foi tímido comigo. Geralmente ele chora quando me vê. Talvez ele tenha crescido. Letícia examina o berço discretamente, seus olhos procurando algo específico. Camila observa cada movimento dela. Você mudou alguma coisa no quarto? Como assim? Não sei a disposição dos móveis, os brinquedos, nada. Só descobri um problema no berço ontem.

 Letícia congela. Que que tipo de problema? Havia algumas agulhas grudadas embaixo do colchão. O sangue some do rosto de Letícia. Agulhas? Sim. 23 agulhas de costura espetadas no colchão. Por isso Pietro chorava tanto. Como Como agulhas foram parar lá? É exatamente o que estou tentando descobrir.

 Letícia fica em silêncio por um longo momento, claramente calculando uma resposta. Deve ter sido algum acidente durante a fabricação do colchão. Não foi acidente. As agulhas estavam posicionadas estrategicamente para causar máximo desconforto. Que coisa terrível. Ainda bem que você descobriu. Sim. Agora Pietro pode finalmente ser feliz.

 Letícia força um sorriso, mas seus olhos revelam algo muito diferente. Bem, vou deixar vocês descansarem. Ela sai do quarto rapidamente, deixando Camila ainda mais desconfiada. Durante o resto da tarde, Camila observa Letícia discretamente. A mulher passa várias horas na casa, supostamente visitando Pietro, mas parece mais interessada em descobrir o que Camila sabe do que em brincar com o bebê.

 À noite, Letícia finalmente vai embora, mas não antes de fazer um comentário estranho. Camila, espero que você não tenha problemas com Pietro durante a noite. Às vezes ele fica muito agitado quando as pessoas mexem na rotina dele. Que rotina? A rotina de sofrimento que ele conhece. Mudanças bruscas podem traumatizar bebês. É quase uma ameaça disfarçada. Camila sente um calafrio.

 Naquela noite, Camila decide ficar alerta. Há algo muito errado acontecendo nesta casa e ela está determinada a descobrir o quê. Por volta da meia-noite, ela escuta ruídos estranhos no andar de baixo. Passos cautelosos, como se alguém estivesse tentando não fazer barulho. Camila desce as escadas silenciosamente e vê uma figura no jardim.

 É Letícia entrando pela porta dos fundos com uma chave. O que ela está fazendo aqui a esta hora? Camila sussurra para si mesma. Letícia sobe as escadas direto para o quarto de Pietro. Camila a segue, escondendo-se nas sombras do corredor. Pela fresta da porta, ela vê Letícia se aproximando do berço, onde Pietro dorme tranquilo. A mulher tira algo da bolsa.

São agulhas novas. Meu Deus! Camila sussurra em choque. Ela vai colocar agulhas no berço de novo. Letícia levanta o colchão cuidadosamente e começa a espetar agulhas na parte inferior, exatamente onde estavam antes. Camila não aguenta mais. Ela irrompe no quarto.

 O que você está fazendo? Letícia se assusta tanto que derruba várias agulhas no chão. Camila, você me assustou. Responde minha pergunta. O que você estava fazendo com essas agulhas? Eu eu estava estava colocando agulhas no berço do Pietro de novo. Não é o que parece. É exatamente o que parece. Você é quem colocou as agulhas antes. Letícia vê que foi pega em flagrante.

 Sua máscara de pessoa bondosa cai completamente. Você não entende nada sobre esta situação. Então me explica por você tortura um bebê indefeso. Eu não torturo ninguém. Estou salvando Pietro. Salvando? Você estava machucando ele. Estou salvando ele de uma vida de sofrimento maior. Camila não entende.

 Que sofrimento maior? A vida com Ricardo como pai. O que há de errado com Ricardo ser pai do próprio filho? Letícia ri com amargura. Ricardo não devia ser pai. Ele matou minha irmã. Como assim matou sua irmã? Ela morreu no parto. Morreu porque engravidou dele. Se não tivesse engravidado, ainda estaria viva.

 Camila começa a entender a lógica distorcida de Letícia. Você culpa Pietro pela morte da sua irmã. Pietro matou Fernanda e Ricardo permitiu que isso acontecesse. Letícia, isso é loucura. Complicações no parto não são culpa de ninguém. São sim. Ricardo forçou Fernanda a engravidar quando ela não queria. Como você sabe disso? Porque Fernanda me contou.

 Ela tinha medo de engravidar, tinha problemas de pressão alta, mas Ricardo queria um herdeiro. Camila vê que Letícia está vivendo numa realidade distorcida. E por isso você machuca Pietro? Eu não machuco. Só faço ele chorar o suficiente para Ricardo desistir de ser pai. Desistir? Se Pietro fosse bebê difícil demais, Ricardo eventualmente o daria para a adoção. Aí eu poderia adotar Pietro e criá-lo longe deste homem.

 A lógica é tão insana que Camila fica sem palavras. Letícia, você passou quatro meses torturando um bebê inocente por causa de uma fantasia. Não é fantasia, é justiça, é loucura. A discussão acorda Pietro, que começa a chorar. Mas é choro normal de beber, não o desespero de antes. Vê como ele chora é porque sabe que eu estou certa. Letícia diz totalmente fora da realidade.

 Ele chora porque você está gritando no quarto dele. Camila pega Pietro no colo para consolá-lo. Imediatamente ele se acalma. Larga ele. Letícia grita. Você não sabe cuidar dele? Sei sim. E você vai parar de machucá-lo agora mesmo. Você não entende. Se Pietro for feliz, Ricardo nunca vai desistir dele.

 E por que Ricardo deveria desistir do próprio filho? Porque ele não merece ser pai. Ele matou minha irmã. Letícia está claramente tendo um surto psicótico. Camila percebe que precisa chamar ajuda. Letícia, você precisa de tratamento médico. Eu não preciso de nada. Preciso salvar Pietro. Letícia tenta pegar Pietro dos braços de Camila, mas o bebê chora quando ela se aproxima.

 Vê, ele não gosta de você, Camila aponta. Ele foi programado para não gostar de mim por causa das agulhas, mas isso vai mudar. Camila consegue sair do quarto com Pietro e corre para trancar a porta, deixando Letícia dentro. Vera, Vera! Ela grita! A governanta aparece correndo ainda de camisola. O que está acontecendo? Letícia estava colocando agulhas no berço do Pietro de novo.

 Ela é quem fez isso desde o começo. Vera fica pálida. Isso é impossível. A senora Letícia adora Pietro. Adora nada. Ela quer que Ricardo desista dele. Do quarto trancado, eles escutam Letícia gritando e batendo na porta. Camila, abre essa porta. Você não entende o que está fazendo. Vera, liga para a polícia agora.

 Não posso chamar polícia para a família do patrão. Ela estava torturando Pietro há quatro meses. Isso é crime, Vera Exita, claramente dividida entre a lealdade aos patrões e a proteção de Pietro. E se estivermos erradas? Eu vi ela colocando agulhas no berço com meus próprios olhos. Nesse momento, elas escutam o barulho de vidro quebrando.

Letícia quebrou a janela do quarto para escapar. Ela fugiu. Camila grita. Vera finalmente liga para a polícia, mas Camila sabe que Letícia já deve estar longe. Na manhã seguinte, Ricardo volta de viagem mais cedo ao receber o telefonema de Vera. “Como assim agulhas no berço?”, ele pergunta, ainda tentando processar a informação.

 “23 agulhas espetadas embaixo do colchão.” Camila explica. Por isso Pietro chorava constantemente. “Es acham que foi a Letícia?” Eu a peguei em flagrante na madrugada, colocando agulhas novas. Ricardo fica em choque. Letícia, mas ela adora Pietro. Aparentemente não. Ela disse que Pietro matou a irmã dela e que você não merece ser pai. Isso é loucura.

 É, ela está com sérios problemas psicológicos. Ricardo observa Pietro, que está no colo de Camila, calmo e sorridente. E ele realmente melhorou completamente. Sem as agulhas, ele é um bebê normal e feliz. Em quatro meses, nunca vi Pietro assim. Ricardo admite com emoção. Porque em 4 meses ele esteve sofrendo constantemente. Ricardo pega Pietro no colo.

 Pela primeira vez, o bebê não chora ao ser tocado pelo pai. Pelo contrário, ele observa Ricardo com curiosidade e até esboça um sorriso. Meu Deus, Ricardo sussurra, meu próprio filho. Ele só precisava de uma chance de ser feliz. E eu não percebi que ele estava sendo torturado na minha própria casa. Como poderia perceber? Letícia foi muito esperta. As agulhas não deixavam ferimentos visíveis.

 só causavam dor e desconforto. Ricardo abraça Pietro com ternura e o bebê se aconchega contra o peito do pai. “Obrigado”, ele diz para Camila. “Você salvou meu filho. Qualquer pessoa faria o mesmo”. “Não, você fez mais que isso. Você não desistiu quando todos disseram que Pietro era difícil.

 Nos dias seguintes, a polícia procura por Letícia, mas ela desapareceu completamente. Deixou o apartamento, cancelou cartões de crédito, sumiu sem deixar rastros. Ela deve ter planejado a fuga. O investigador comenta. Pessoas com obsessões como essa geralmente têm planos de contingência. Vocês acham que ela vai voltar? Ricardo pergunta preocupado. É possível. Obsessões não desaparecem facilmente.

Ricardo decide contratar segurança particular para a mansão e instalar um sistema de câmeras completo. Enquanto isso, Pietro continua florescendo. Cada dia ele fica mais alegre, mais interativo, mais parecido com um bebê normal. É incrível a transformação. Dr. Henrique admite quando vem examinar Pietro.

 Em 20 anos de pediatria, nunca vi uma mudança tão radical. Foi só questão de eliminar a causa do sofrimento. Camila explica. Você suspeita que ele sofria dor física o tempo todo? Tenho certeza. As agulhas espetavam nele toda vez que era colocado no berço. Isso explica tudo. A irritabilidade, a insônia, a dificuldade para se alimentar.

 E por que nenhum exame detectou? Porque a dor era intermitente e não deixava marcas. Quando eu examinava Pietro, ele não estava no berço. Dr. Henrique fica claramente constrangido por não ter descoberto a causa antes. Doutor, não se culpe. Ricardo o tranquiliza. Ninguém imaginaria que alguém colocaria agulhas no berço de um bebê. Mesmo assim, deveria ter investigado mais.

 Uma semana depois, Camila está dando banho em Pietro quando percebe algo estranho. No fundo da banheirinha, há pequenos objetos ponteagudos colados. “Não acredito”, ela sussurra. “São alfinetes minúsculos, quase invisíveis, colados no fundo da banheira”. Pietro sempre chorava durante o banho e todos achavam que era normal. “Ricardo!”, ela grita.

Ele vem correndo. O que foi? Olha isso. Alfinetes no fundo da banheira. Ricardo fica lívido. Letícia sabotou tudo que o Pietro usava. Eles decidem examinar todo o quarto de Pietro sistematicamente. Encontram pequenos objetos ponteagudos colados na cadeirinha de alimentação, espinhos de rosa escondidos entre os brinquedos e até pequenas pedrinhas dentro das roupinhas. Ela transformou a vida do Pietro num inferno.

 Ricardo diz com nojo. E todos pensavam que ele era um bebê difícil. Meu próprio filho foi torturado por meses e eu não percebi. Você não tinha como saber. Letícia foi muito meticulosa. Após limpar todos os objetos perigosos, Pietro se torna ainda mais feliz. Agora ele ama a hora do banho, come prazer, brinca alegremente com os brinquedos.

 É outro bebê. Vera comenta todos os dias, mas a paz dura pouco. Duas semanas depois, coisas estranhas começam a acontecer. Novamente, o leite em pó de Pietro é encontrado com pequenos cacos de vidro misturados. As fraldas chegam com alfinetes escondidos nas fitas adesivas. Brinquedos novos aparecem com pontas afiadas disfarçadas.

Letícia está voltando, Ricardo conclui. Mas como? A casa está vigiada 24 horas. Ela tem acesso de dentro da casa. Como assim? Alguém está ajudando ela. Eles instalam câmeras ainda mais discretas e aguardam. Na terça-feira, as câmeras capturam algo chocante. É Vera quem está sabotando as coisas de Pietro. Não acredito.

 Camila sussurra vendo as imagens. Vera trabalhava para Letícia o tempo todo. Ricardo conclui furioso. Eles confrontam Vera na manhã seguinte. Por que você fez isso com Pietro? Ricardo pergunta diretamente. Vera tenta negar. Não sei do que estão falando. Temos você filmada colocando vidro no leite em pó dele. Vera percebe que foi descoberta e desaba.

 A senora Letícia me prometeu R$ 50.000 se eu ajudasse, ajudasse a torturar meu filho. Ela disse que era para o bem dele, que você não sabia ser pai. E você acreditou nisso? Precisava do dinheiro. Minha mãe está doente e precisa de cirurgia. Ricardo fica dividido entre raiva e pena. Vera, você trabalha aqui há 10 anos.

 Como pode fazer isso? Letícia disse que Pietro ficaria melhor com ela, que ela daria uma família de verdade para ele. Família de verdade? Torturando ele. Ela disse que as agulhas não machucavam de verdade, só incomodavam um pouco. Camila explode de raiva. Um pouco? Pietro sofria agonia todos os dias. Eu não sabia que era tão sério. Não sabia? Você via ele chorando desesperadamente.

Pensei que era normal. Ricardo demite Vera imediatamente e a denuncia como cúmplice de Letícia. Agora eles sabem que Letícia ainda está na cidade, ainda obsecada com Pietro e ainda determinada a tirá-lo de Ricardo. Ela não vai desistir, Camila diz preocupada. Então vamos ter que pará-la de vez. Ricardo contrata detetives particulares para encontrar Letícia.

 Também coloca Pietro sob proteção permanente. Ninguém mais vai machucar meu filho, ele promete. Mas Letícia é mais esperta que imaginavam. Em vez de atacar Pietro diretamente, ela muda de estratégia. Começa a espalhar boatos na alta sociedade de que Ricardo é pai negligente, que Pietro está sendo maltratado, que Camila é uma babá incompetente, sem referências.

 Ricardo está deixando uma empregada qualquer criar o herdeiro da família. Ela sussurra para socialites influentes. Que escândalo elas respondem. Criança rica sendo criada por babá pobre e Pietro, sempre chorando, sempre doente. Claramente está sendo maltratado. Os boatos se espalham rapidamente pelos círculos sociais de elite.

 Em poucos dias, Ricardo começa a receber ligações preocupadas de amigos e sócios. Ricardo, soubemos que há problemas em sua casa. Que problemas? Com a criação do Pietro. Dizem que a babá não tem qualificação adequada. Quem está dizendo isso? Várias pessoas. Há rumores de negligência. Ricardo percebe que Letícia mudou de tática.

 Não conseguindo machucar Pietro fisicamente, agora está atacando a reputação dele. Ela quer forçar uma investigação do Conselho Tutelar. Ricardo conclui. Como assim? Camila pergunta: “Se convencer as autoridades de que Pietro está sendo maltratado, eles podem tirá-lo de mim temporariamente e aí Letícia se ofereceria para cuidar dele.” Exato.

 Isso é possível? Com os contatos certos e as acusações certas? Sim, eles precisam agir rápido. Ricardo contrata os melhores advogados para documentar que Pietro está perfeitamente bem cuidado. Também organiza uma festa na mansão convidando pediatras, assistentes sociais e famílias influentes para verem Pietro pessoalmente. Quero que todos vejam como Pietro está feliz e saudável. Ricardo explica.

 A festa acontece no sábado. Pietro, aos 5 meses, está radiante, sorridente, interativo, claramente bem cuidado e amado. Que bebê lindo, todos comentam. Tão alegre e esperto, e a babá parece competente, observam. Pietro adora ela. Mas no meio da festa, algo terrível acontece. Letícia aparece. Ela entra pela porta da frente como se nada tivesse acontecido. Elegante e sorridente.

Ricardo, que festa linda. Todo mundo fica tenso. Ricardo faz sinal para a segurança, mas Letícia não está sozinha. Com ela está Dr. Maurício Santos, do Conselho Tutelar e uma assistente social. Dr. Maurício, que surpresa. Ricardo força um sorriso. Sem risas sobre negligência infantil nesta residência. Negligência? Pietro está perfeitamente bem cuidado. É o que viemos verificar.

Letícia sorri triunfante. Tenho certeza de que é mal entendido, Ricardo. Você sabe como me preocupo com Pietro. A situação fica constrangedora. Os convidados da festa observam tudo em silêncio. Dr. Maurício se aproxima de Pietro, que está no colo de Camila. Este é Pietro? Sim. Camila responde nervosa. O médico examina Pietro rapidamente.

 O bebê está visivelmente saudável, bem alimentado, limpo, alegre. Ele parece estar em excelente estado. Dr. Maurício comenta. Claro que está. Letícia intervém. Mas aparências enganam. Podem verificar os registros médicos? Pietro teve problemas sérios nos primeiros meses. Que problemas? A assistente social pergunta.

 Desnutrição, insônia crônica, desenvolvimento atrasado? E qual a causa desses problemas? Dr. Maurício pergunta para Ricardo. Ricardo hesita. Como explicar sobre as agulhas sem parecer que está inventando desculpas? Houve sabotagem. Sabotagem. Alguém estava machucando Pietro propositalmente. Dr. Maurício franja a testa.

 Quem faria isso? Ricardo olha diretamente para Letícia. A pessoa que fez a denúncia. Letícia finge indignação. Ricardo, como pode me acusar de uma coisa dessas? Porque eu a peguei no flagrante. Isso é calúnia. A situação está ficando feia. Os convidados sussurram entre si. Dr. Maurício decide intervir. Senr. Ricardo, tem provas dessas acusações? Tenho.

 Ricardo vai buscar as agulhas que guardou como evidência. Mostra as fotos do berço sabotado. Exibe os vídeos das câmeras de segurança. Meu Deus. Dr. Maurício sussurra vendo as evidências. Isso é montagem. Letícia grita. Ricardo está inventando isso para me prejudicar. Por que eu inventaria uma coisa dessas? Por que você não me aceita na família? Sempre teve ciúmes da minha relação com Fernanda. A acusação pega Ricardo desprevenido.

 Ciúmes? Você sabia que Fernanda me amava mais que a você. Letícia, você está delirando. Não estou. Fernanda me contou que se arrependia de ter casado com você. A conversa está descambando para psicose total. Dr. Maurício percebe que Letícia não está bem mentalmente. Senora Letícia, a senhora precisa se acalmar. Não vou me acalmar. Vocês precisam tirar Pietro dessa casa.

 Por quê? Porque Ricardo é perigoso. Ele matou minha irmã. Como assim matou? Forçou ela a engravidar, sabendo que ela tinha problemas de saúde. Dr. Maurício olha para Ricardo. Isso é verdade? Claro que não. Fernanda queria engravidar. Foi decisão dela. Mentira, Letícia Berga. Ela tinha medo de morrer no parto. Tinha medo, mas queria tentar mesmo assim.

Você a convenceu. Eu apoiei a decisão dela. A assistente social intervém. Senr. Ricardo, tem como comprovar isso? Tenho os e-mails que Fernanda mandou para as amigas. Ela falava sobre a ansiedade, mas também sobre a alegria de ser mãe. Ricardo mostra as mensagens no celular. Fica claro que Fernanda queria o bebê, apesar dos medos.

 Letícia vê que está perdendo a discussão e parte para o desespero. Vocês não entendem. Pietro não pode crescer sem mãe. Eu sou a única que pode substituir Fernanda. Senora Letícia. Doutor Maurício diz firmemente: “A senhora não é a mãe de Pietro. Sou a única família materna que ele tem. Isso não lhe dá direito sobre a criança. Dá sim. Tenho mais direito que essa babá qualquer.

 Letícia aponta para Camila com desdém. A babá está cuidando muito bem de Pietro. A assistente social observa. Ela não tem qualificação, é uma empregada. E a senhora, Dr. Maurício, pergunta: “Tem qualificação para cuidar de bebês?” Letícia hesita. Sou tia dele. A ser tia não é qualificação profissional, mas sou família. Família que colocou agulhas no berço da criança.

Letícia percebe que todos estão contra ela. Sua última cartada é apelar para preconceito de classe. Vocês vão permitir que uma empregada pobre crie o herdeiro de uma das famílias mais ricas de São Paulo? Se ela está cuidando bem da criança. Sim. Dr. Maurício responde sem hesitar. Eso é um absurdo. Pietro precisa de educação adequada.

 Pietro precisa de amor e cuidado. Camila fala pela primeira vez. E isso eu dou para ele. Você não sabe nada sobre educar criança rica. Sei sobre educar criança feliz. Letícia está perdendo completamente o controle. Ricardo, você vai se arrepender. Pietro vai crescer sem saber quem ele realmente é. Ele vai crescer sabendo que é amado.

 Ricardo responde com firmeza. Dr. Maurício fecha o relatório. Senr. Ricardo, após examinar Pietro e avaliar a situação, não vejo negligência alguma. A criança está bem cuidada. E quanto às acusações contra minha cunhada, vamos encaminhar o caso para a polícia. Tortura de criança é crime grave. Letícia percebe que tudo está perdido. Vocês vão se arrepender.

 Ela grita saindo da festa. Pietro vai dar trabalho para o resto da vida. Vai crescer problemático? Não vai não, Ricardo responde, porque agora ele tem uma família de verdade. Depois que Letícia sai, a festa continua, mas com um clima mais relaxado. Os convidados parabenizam Ricardo pela forma como lidou com a situação.

 Você tomou a decisão certa, um amigo comenta. Família não é só sangue, é quem fica do nosso lado. Ricardo concorda. Dois meses depois, Letícia é encontrada e presa. Durante a investigação, descobrem que ela vinha planejando a sabotagem desde a gravidez de Fernanda. Ela nunca aceitou o casamento da irmã, explica o psiquiatra forense.

 Desenvolveu obsessão pela criança como forma de manter conexão com a irmã morta. E por que machucava Pietro na mente distorcida dela, se Pietro fosse bebê difícil, Ricardo desistiria da paternidade e entregaria a guarda para ela. Isso faz sentido na cabeça dela? Para pessoas com esse tipo de obsessão, sim, elas criam lógicas próprias que justificam qualquer ação.

 Letícia é condenada a 5 anos de prisão e tratamento psiquiátrico obrigatório. Durante o julgamento, ela continua insistindo que estava salvando Pietro. “Vocês vão ver.” Ela grita para Ricardo. “Sem mim, Pietro nunca vai ser feliz”. Mas Pietro, agora com oito meses, está provando o contrário todos os dias.

 Ele se desenvolveu normalmente em todos os aspectos. Engatinha, balbucia, sorri constantemente, dorme a noite toda, come bem, brinca alegremente. É uma criança completamente normal. Dr. Henrique confirma. Todos os traumas dos primeiros meses foram superados. E como ele reagiu à prisão da tia, Ricardo? pergunta. Não reagiu. Bebês dessa idade não formam memórias traumáticas duradouras sobre pessoas que os machucavam.

 Então ele esqueceu todo o sofrimento? O sofrimento físico, sim. E como agora ele só recebe amor e cuidado, desenvolveu apego seguro. Com quem? Principalmente com a babá, mas também comigo. Ricardo observa Camila brincando com Pietro no chão da sala. Ela ensina o bebê a empilhar blocos coloridos e ele ri cada vez que a torre cai.

 Camila Ricardo chama. Sim, posso falar contigo? Eles vão para o jardim enquanto Pietro cochila. Camila, estes oito meses com você foram os melhores da minha vida. Para mim também. Pietro adora você. Eu também adoro ele muito. E eu, Ricardo, hesita. Eu me apaixonei por você. Camila fica surpresa.

 Ricardo, sei que nossa situação é complicada. Sou o seu patrão. Somos de classes sociais diferentes. Não é isso que me preocupa. Então, o que é? Tenho medo de que isso seja só gratidão. Você me agradecendo por ter salvado Pietro. Não é gratidão, é amor de verdade.

 Como pode ter certeza? Porque não é só por Pietro, é por você, pela mulher forte que você é. pela forma como cuida de quem ama, pela coragem que demonstrou. Camila sente os olhos marejarem. Ricardo, eu também tenho sentimentos por você. Então, qual o problema? E se não der certo, Pietro vai sofrer. E se der certo, Pietro vai ter uma família completa. Você realmente me quer na sua vida? para sempre, como esposa, como mãe do Pietro, como a mulher que amo.

 Camila olha para a mansão, onde Pietro dorme tranquilo e sua família, seus amigos, vão aceitar? Depois do que Letícia fez, aprendi que família verdadeira é quem nos ama, não quem tem o mesmo sobrenome. E o preconceito social vamos enfrentar juntos. Tem certeza? absoluta. Camila sorri através das lágrimas. Então, sim, aceito fazer parte da sua família.

 Ricardo a beija suavemente, selando a promessa de um novo começo. Um ano depois, na mesma mansão onde Pietro foi quase destruído pela maldade, acontece um casamento íntimo e emocionante. Camila está linda num vestido simples, mas elegante. Pietro, agora com um ano e 4 meses, está no colo dela durante a cerimônia, tentando pegar as flores do buquê. Ricardo pergunta o juiz.

 Você aceita Camila como esposa? Aceito. Ele responde olhando nos olhos dela. Para sempre. Camila, você aceita Ricardo como marido? Aceito. Ela diz emocionada de todo o coração. E vocês dois aceitam formar uma família com Pietro? Aceitamos, respondem juntos. Pietro bate palminhas fazendo todo mundo rir.

 Então os declaro: marido, mulher e filho. A pequena festa acontece no jardim. Apenas amigos próximos, funcionários que se tornaram família e alguns primos distantes de Ricardo que realmente se importam com sua felicidade. Durante a festa, Dr. Henrique se aproxima de Camila. Senhora Camila, posso falar uma coisa? Claro, doutor.

 Obrigado por ter salvado Pietro e por ter ensinado a todos nós que o amor é mais importante que dinheiro ou status social. Eu só fiz o que qualquer mãe faria. Não, você fez o que uma mãe de verdade faria. No final da festa, quando Pietro já está dormindo no colo de Camila, Ricardo faz um brinde. Há um ano e meio, eu era um homem perdido.

 Trabalhar era minha única razão de viver e mesmo assim me sentia vazio. Aí chegou Pietro e eu não sabia como ser pai. Depois chegou Camila e ela não só salvou meu filho, como me ensinou a ser humano novamente. Hoje tenho uma família de verdade e não importa o que as pessoas falam, porque amor não tem classe social. Todos aplaudem emocionados.

 Dois anos depois, eles estão no jardim numa tarde de domingo. Pietro, agora com três anos, corre atrás de borboletas, enquanto Camila, grávida de se meses, observa sorrindo. Pietro, vem cá. Ela chama. Vamos sentir o bebê chutar. O menino corre e coloca a mãozinha na barriga de Camila. Ele mexeu. Grita animado. É seu irmãozinho dizendo oi. Vai ser menino ou menina? Surpresa, Ricardo diz, sentando ao lado deles na grama. Eu quero irmão para brincar de carrinho. Pietro declara.

 E se for irmã, então vou ensinar ela a brincar de boneca. Camila e Ricardo riem. Pietro cresceu para ser uma criança amorosa, inteligente, sem nenhuma sequela dos primeiros meses traumáticos. Mãe, Pietro diz de repente, que foi, meu amor? Obrigado por terme salvado. Camila fica surpresa. Como você sabe disso? Pai me contou.

 Disse que você tirou as coisas ruins que machucavam meu corpinho. Foi isso mesmo. E agora posso ser feliz. Sempre pode ser feliz, meu filho. Ricardo observa sua família. A esposa que ama, o filho que quase perdeu, o bebê que está chegando. Tudo isso porque uma babá corajosa não aceitou que um bebê sofresse em silêncio. Em que está pensando? Camila pergunta. Em como tive sorte.

 Sorte como? De você ter descoberto as agulhas no berço. Não foi sorte, foi intuição materna. Você sempre foi mãe do Pietro desde o primeiro dia. Sempre senti como se ele fosse meu filho biológico. Agora é oficialmente. Camila sorri. Quando Pietro fez 3 anos, Ricardo pediu para ela adotá-lo oficialmente. Agora eles são uma família completa perante a lei também.

 Papai Pietro interrompe os pais. Que foi, campeão. Quando eu crescer, vou cuidar do meu irmãozinho, como a mamãe cuidou de mim. Vai mesmo? Vou. Vou proteger ele de todas as coisas ruins. Camila abraça Pietro com emoção. Você vai ser o melhor irmão mais velho do mundo, prometo.

 E assim, na mesma mansão onde quase foi destruído pela crueldade, Pietro cresceu cercado de amor, provando que o poder da família verdadeira pode curar qualquer ferida e superar qualquer trauma. Letícia, em sua cela de prisão, ocasionalmente recebe fotos de Pietro feliz que Ricardo manda por ironia. Nas fotos ele sorri brincando no jardim, abraçado com Camila, correndo atrás de Ricardo.

 “Ele poderia ser meu filho”, ela murmura para as paredes vazias, mas Pietro nunca foi dela. Desde o primeiro dia, ele pertencia à família que o amaria incondicionalmente. Uma família que se formou não pelo sangue, mas pela escolha de se cuidarem mutuamente. E quando o segundo bebê nasceu, uma menina que chamaram Fernanda, em homenagem à mãe que Pietro nunca conheceu, a família ficou completa.

 Pietro ajudou a cuidar da irmãzinha com o mesmo carinho que Camila teve com ele. E assim o ciclo de amor continuou, provando que a verdadeira família é aquela que escolhemos amar e proteger, independentemente de laços sanguíneos ou diferenças sociais. Fim. Gostou dessa história? Você acha que Camila mereceu ter sua própria família depois de salvar Pietro? Me conta nos comentários qual foi a parte que mais te emocionou.